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Queimadas no Brasil destruíram mais de 3 estados do Rio de Janeiro por ano

Levantamento do MapBiomas aponta que 86% da vegetação perdida desde 1985 ficavam na Amazônia ou no cerrado

Amazônia começa a colapsar em 2050, diz estudo 10% a 47% da mata remanescente podem não ter umidade suficiente
Foto: Bruno Kelly - Amazônia Real

Brasil queimou, em média, 160 mil km² de vegetação por ano de 1985 a 2022. O número é equivalente a mais de três vezes e meia a área do estado do Rio de Janeiro (43,7 mil km²).

Os dados são do novo levantamento da plataforma MapBiomas Fogo, que serão divulgados nesta quarta-feira (26). O estudo é feito a partir de 150 mil imagens de satélite, analisadas por meio de inteligência artificial para identificar as áreas com registros de fogo.

No Brasil, as queimadas são provocadas, principalmente, pela renovação de pastagens usando fogo e na limpeza de áreas desmatadas.

Juntos, a Amazônia (43,6%) e o cerrado (42,7%) concentraram mais de 86% da área queimada nos últimos 37 anos.

No cerrado foram queimados, em média, 79 mil km² todos os anos desde 1985, área maior do que a de países inteiros, como a Escócia (77,9 mil km²). No caso da Amazônia, a média anual foi de 68 mil km² —quase uma Irlanda (84,4 mil km²).

Os dois biomas também têm índices altos de recorrência do fogo, ou seja, regiões que queimam mais de uma vez em períodos relativamente curtos de tempo.

Na Amazônia, 39% da área queimada pegaram fogo uma única vez entre 1985 e 2022, enquanto outros 48% queimaram de duas a quatro vezes.

“Nesse caso, o fogo é um elemento ruim porque o ecossistema amazônico não é adaptado a ele”, explica Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Fogo e diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Ela aponta que áreas da Amazônia atingidas recorrentemente indicam uma degradação muito alta, porque não há tempo suficiente para a floresta se recuperar. “O processo de recuperação de uma floresta por um distúrbio como o fogo demora um tempo. Então, o que vemos é que essas áreas não estão se recuperando, porque vem logo um outro distúrbio que acaba interrompendo esse processo”, diz.

O cenário é semelhante no cerrado. Só 39% da área queimada no bioma pegaram fogo apenas uma vez. Outros 38% queimaram de duas a quatro vezes entre 1985 e 2022.

Além disso, 20 mil km² do cerrado incendiaram, pelo menos, uma vez a cada dois anos —ou mais de 16 vezes no período avaliado. Mas, nesse caso, o bioma evoluiu junto com o fogo.

Alencar explica que os incêndios fazem parte da dinâmica natural do cerrado quando são provocados, principalmente, por raios. Quando tempestades atingem o bioma durante a estação de seca, com muito calor, ventos fortes e vegetação ressecada, as chamas se espalham com maior facilidade.

“O fogo no cerrado faz parte do processo evolutivo do bioma“, diz a pesquisadora, explicando que a paisagem heterogênea, composta por árvores de diferentes tamanhos, arbustos e capins, e plantas que evoluíram para resistir às chamas, são um reflexo da interação com distúrbios naturais, como o fogo.

“Mas uma mudança na frequência desse distúrbio, para mais ou para menos, impacta muito o bioma”, ressalta.

Se a frequência do fogo aumenta, áreas de mata mais fechada acabam virando campos. Por outro lado, se o fogo é totalmente removido, pode ser que a vegetação se adense e se aproxime mais de uma formação florestal.

No caso do pampa, da mata atlântica e da caatinga, a área queimada uma única vez de 1985 a 2022 corresponde a 80%, 72% e 65% do total atingido em cada bioma, respectivamente.

Para que a vegetação pegue fogo, são necessários três ingredientes: material combustível (como vegetação seca), clima (muito seco, com vento) e uma fonte de ignição. Por isso, olhando a série histórica, é possível observar a influência dos fenômenos La Niña e El Niño na incidência de queimadas, especialmente na Amazônia.

A pesquisadora explica que o El Niño aquece das águas do oceano Pacífico, gerando uma área de pressão que provoca secas extremas na floresta amazônica. “Por isso, nós esperamos que tenha mais fogo nesses períodos, porque ele se espalha mais fácil.”

O La Niña, por outro lado, é o resfriamento do Pacífico, o que traz muita chuva para a Amazônia. Esse foi o caso de 2021 e 2022. “Isso não quer dizer que não teve seca, mas esse período foi mais curto e a floresta estava mais rica em água”, pondera Alencar.

Mesmo assim, no ano passado mais de 79 mil km² queimaram no bioma, quase metade (49%) do registrado no período em todo o país.

“Aí entra o fator humano. Se tem mais desmatamento, mais pessoas colocando fogo, aumenta a possibilidade de ele escapar e causar incêndios. Em 2022, teve um aumento de desmatamento importante, especialmente na Amazônia, e também um apetite maior das pessoas usarem o fogo.”

A somatória de todas as cicatrizes de queimada nos últimos 37 anos chega a 1,85 milhão de km², o equivalente a mais de sete vezes a área do estado de São Paulo (248,2 mil km²).

Mato Grosso lidera o ranking dos estados mais atingidos pelo fogo, com quase 433 mil km² perdidos no período, seguido por Pará, com 276 mil km² queimados, e Maranhão, com 183 mil km². Os municípios que mais queimaram no país de 1985 a 2022 foram Corumbá (MS), São Félix do Xingu (PA) e Formosa do Rio Preto (BA).