Terça-feira, 04 de Agosto de 2026
Investigação

Suicídios de adolescentes em Goiás podem ter sido incentivados por grupo de Facebook

Segundo a polícia uma das testemunhas é primo de uma das vítimas e seria sobrevivente de duas tentativas de tirar a própria vida sob influência da comunidade. Investigações estão avançadas, de acordo com delegada

Hugo Oliveira
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:

Cinco casos de suicídio entre adolescentes ocorridos em Goiás desde fevereiro podem ter relação com grupo de Facebook denominado The H4ters, termo que, em inglês, significa Os Odiadores. A plataforma online é investigada pela Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos, que apura a possibilidade de membros terem feito apologia e/ou de algum modo incentivado a iniciativa.

De acordo com a delegada Sabrina Leles, o caso é sigiloso, embora revela que a investigação entrou com pedidos judiciais os quais estão em análise na Justiça. “São documentos sigilosos, só posso dizer que as investigações estão avançadas, temos medidas judiciais e estamos aguardando”.

Segundo a policial, as mortes de Higor Pires Moreira (15) e Gabriel Carrijo Cunha Câmara (13), no último 21 de fevereiro, deram início ao inquérito. “Após o início das investigações já houve outros três casos, um em Montividiu e dois em Rio Verde, que podem ter acontecido por influência do grupo de Facebook. Ao todo são cinco casos que a gente relaciona como provavelmente influenciadas pelo grupo da internet”.

Relação

A relação das ocorrências com o grupo virtual foi reforçada após o depoimento de um primo de Higor, Mikaio Alves Jorge (18), à polícia. “Ele é um sobrevivente de duas tentativas de suicídio por influência do grupo, do qual o primo também fazia parte”, reforça a delegada. À polícia, Mikaio afirmou que a finalidade do grupo era estimular e desafiar seus integrantes a tirarem a própria vida.

Quatro dos administradores do grupo, também menores, são conhecidos por apelidos que usam na rede: Akbar. Segundo Mikaio, a descrição do grupo atribui ao termo o status de “sobrenome”, numa tentativa de apresentar os participantes como membros de uma mesma “família”. “Adicione os ativos do grupo, seu alcance faça novas amizades, aqui somos a sua família então nada mais importante do que adicionar os irmãos (sic)”, diz a descrição

O termo em comum nas apresentações, akbar, pode ser uma referência à frase árabe Allahu Akbar, Deus é grande, que é comumente relacionada a ataques de extremistas religiosos.

Higor

No dia 21/2, Higor pediu à mãe para faltar a aula de inglês. Ela assentiu, mas notou que o jovem estava cambaleante. No quarto do menor, ela encontrou seis cartelas de remédio para pressão alta vazias, mas enquanto telefonava ao marido para solicitar ajuda, o jovem saiu de casa e só foi encontrado no dia seguinte, enforcado na casa de uma vizinha. O imóvel estava desocupado.

Segundo informações da família de Higor, o jovem mudou de comportamento após ingressar o H4ters. “Ficava o dia inteiro no computador e não queria mais sair com os amigos”, revelou o pai Onilton Pires Moreira. A ex-namorada do jovem, Ana Julia, afirmou que Higor se cortava com frequência e comentava que iria se matar.

“H4ters”

O acesso às publicações é exclusivo aos membros do H4ters, mas é possível ter uma ideia do conteúdo compartilhado por meio da descrição e do slogan. Na imagem de capa do grupo é possível notar a frase: “O mundo te deu ódio, apenas o devolva”,

Embora o grupo se afirme com uma plataforma de “humor e memes”, são aceitos apenas “haters”. “Nós não aceitamos moralistas aqui no grupo, se você não curtiu o conteúdo postado nele é só sair”. Não há referências ao suicídio no texto de apresentação.

O grupo possui um código de regras extenso e específico. Uma das normas é não compartilhar itens de cunho racista, religioso e nazista. “Para segurança do grupo é proibido postar fotos zoando racistas/religião/nazismo (sic)”.

Para incluir posts, é preciso antes que o membro interaja com conteúdos de outros participantes. “Antes de qualquer postagem no grupo e necessário tirar alguns vácuos no grupo, comentar e curtir, caso contrario não vamos aprovar seu post (sic)”.

A única referência a suicídio detectada pelo Mais Goiás foi o comentário de um menor em uma publicação feita no perfil de uma das administradoras do grupo, que também é menor. Com 1,2 mil curtidas, o post trata sobre a retomada das atividades da comunidade, e  recebeu o seguinte comentário:  “Tô tentando, se eu n me matar daqui a um tempo, vou ser mais ativo”.

 

 

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