Investigação

Zambelli reconhece relação com hacker e diz que o ajudou a se reunir com Bolsonaro e Valdemar

Walter Delgatti disse à PF que ex-presidente perguntou se era possível 'invadir' urna eletrônica

Após Delgatti, PF intima Carla Zambelli a falar sobre invasão do site do CNJ
Zambelli e Delgatti (Foto: Reprodução)

A deputada federal Carla Zambelli reconheceu nesta quarta-feira que tem “relação” com o hacker Walter Delgatti, a quem ajudou a ir a Brasília para um encontro com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ela afirmou ainda que a invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça para incluir um mandado de prisão falso do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi uma “brincadeira de mau gosto”.

— O que tenho de relação com o Walter é que o conheci, saindo de um hotel. Vivia trocando de telefone, queria falar ao vivo. Nos vimos 3 vezes e conversamos sobre tecnologia. Uma vez o ajudei a vir a Brasilia, ele disse que teria provas e serviços a oferecer ao PL e o levei a Valdemar da Costa Neto, fizemos uma reunião — disse a deputada, em entrevista coletiva. — Ele (Delgatti) se ofereceu para participar de uma espécie de auditoria no primeiro e segundo turno das eleições. Ele encontrou Bolsonaro, que perguntou se as urnas eram confiáveis. Nunca mais houve contato entre eles.

A deputada procurou desvencilhar Bolsonaro da ação:

— A impressão que tenho é que querem envolver o Bolsonaro. Não existe qualquer prova, ele não pediu nada. A única coisa que existe é que, após tudo isso, inclusive, há um pagamento de R$ 3 mil, em novembro. Todo o dinheiro saiu do meu bolso, por meio de uma conta que eu subcontratei. Nada saiu da minha cota. Se houver qualquer coisa, quem responde sou eu. Não é o Bolsonaro que responde.

Zambelli também negou relação com a inclusão de um mandado de prisão falso de Moraes no sistema do CNJ:

— Eu gastaria R$ 3 mil para participar de uma brincadeira de mau gosto? Isso do CNJ é uma brincadeira de mau gosto. Eu não gastaria dinheiro para fazer uma brincadeira de mau gosto com o Moraes. Eu sou uma deputada séria , que sabe o que é certo e o que é errado.

Agentes estiveram no apartamento e no gabinete da parlamentar, em Brasília, e na casa do hacker, em São Paulo. Ela é investigada por supostamente contratar Delgatti para fraudar as urnas eletrônicas e tentar inserir no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o relato do hacker.

Por que Carla Zambelli foi alvo de operação da PF?

“Em prosseguimento às ações em defesa da Constituição e da ordem jurídica, a Polícia Federal está cumprindo mandados judiciais relativos a invasões ou tentativas de invasões de sistemas informatizados do Poder Judiciário da União, no contexto dos ataques às instituições”, escreveu o ministro da Justiça Flávio Dino, em uma rede social.

De acordo com a PF, a Operação 3FA ocorreu com o objetivo de esclarecer a atuação de indivíduos na invasão aos sistemas do (CNJ) e na inserção de documentos e alvarás de soltura falsos no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP). Estão sendo cumpridos dois mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão preventiva no estado de São Paulo e três mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, além de análise do material apreendido.

s ações ocorrem no escopo de inquérito policial instaurado para apurar a invasão ao sistema do CNJ, que tramitou perante a Justiça Federal, mas teve declínio de competência para o STF em razão do surgimento de indícios de possível envolvimento de Zambelli, que possui prerrogativa de foro.

Em nota, a defesa de Zambelli disse que tomou conhecimentos da operação com “surpresa”, “uma vez que a parlamentar já se havia colocado formalmente à disposição das autoridades para prestar as informações necessárias”.

“A deputada não praticou qualquer ilicitude e confia que ao final das investigações sua inocência ficará comprovada”, diz a manifestação assinada pelo advogado Daniel Leon Bialski.

Crimes teriam acontecido em janeiro deste ano

Os crimes apurados ocorreram entre os dias 4 e 6 de janeiro de 2023, quando teriam sido inseridos no sistema do CNJ e, possivelmente, de outros tribunais do Brasil, 11 alvarás de soltura de indivíduos presos por motivos diversos e um mandado de prisão falso em desfavor do ministro Moraes.

“As inserções fraudulentas ocorreram após invasão criminosa aos sistemas em questão, com a utilização de credenciais falsas obtidas de forma ilícita, conduta mediante a qual os criminosos passaram a ter controle remoto dos sistemas. Os fatos investigados configuram, em tese, os crimes de invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica”, informou a PF.

O que significa ‘Operação 3FA’?

O nome da “Operação 3FA” é uma referência à autenticação de dois fatores (2FA), método de segurança de gerenciamento de identidade e acesso que exige duas formas de identificação para acessar recursos e dados, sendo que, tendo os investigados violado o sistema, foi necessária a atuação do Estado (PF, MPF e Judiciário), que atuou na repressão à conduta criminosa e na prevenção a novas ações semelhantes.

Delgatti foi procurado por Carla Zambelli

Em depoimento à PF, Delgatti declarou ter sido procurado por Zambelli, em setembro de 2022, em um encontro na Rodovia dos Bandeirantes, na capital paulista. Ele contou que só conseguiu acessar o e-mail de Moraes, mas não encontrou nada de comprometedor, e que não obteve êxito ao tentar acessar o celular do magistrado. Ele alegou ainda ter tentado invadir o sistema de segurança das urnas eletrônicas, também sem sucesso.

Como prova da relação com a deputada, o hacker entregou extratos de pagamentos bancários que ligariam Zambelli a serviços prestados por ele. A deputada já negou qualquer relação de trabalho com Delgatti.