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Fire Emblem Heroes: mais simples, sem perder a essência

Nascida no NES, Fire Emblem tem se firmado cada vez mais como uma franquia calcada…

Nascida no NES, Fire Emblem tem se firmado cada vez mais como uma franquia calcada nos portáteis. Afinal, foi no Game Boy Advance que ela alcançou o público ocidental, no Nintendo DS que atingiu um número ainda maior de pessoas – graças à popularidade do console –, e foi no Nintendo 3DS que explodiu de vez, com o sucesso surpreendente de crítica e de público de Awakening. Agora, como coroação a essa tendência, chega Fire Emblem Heroes, que exponencia sua portabilidade ao simplificar a fórmula para os celulares.

Se FE fosse uma história em quadrinhos, essa última empreitada seria considerada uma mega saga. Estão representados personagens de diversos dos episódios mais importantes da série, compilados ao longo desses 27 anos de existência.A mistureba é justificada no contexto da história, mas não espere um enredo intrincado e cheio de reviravoltas como o de Awakening ou de Fates. Assim como todo o resto, a trama de Heroes faz apenas o suficiente para quem quer uma diversão rápida no celular fundamentada na mistura dos gêneros estratégia e RPG, naquele estilão bem japonês que não agrada a todo mundo.

O roteiro coloca o jogador como um invocador lendário, capaz de trazer heróis de outros planos e eras. Sim, você acertou: é dessa forma que personagens de diversos jogos da franquia são capazes de se reunir.

Sem muito aviso, o jogador é colocado no meio de um confronto entre duas famílias reais, dos reinos de Askr e de Embla. Antigos aliados, os integrantes das duas castas possuem habilidades mágicas complementares: enquanto os nobres da primeira família são capazes de abrir portais interdimensionais, somente os da segunda podem fechá-los. Porém, como não poderia deixar de ser, os Emblians resolvem se aproveitar de seus potenciais e recusam-se a bloquear a entrada para outros reinos, preferindo, ao invés disso, utilizar os guerreiros forasteiros em seus planos de dominação.

É convincente? Não muito, mas é o bastante para te colocar no clima do que está por vir.

Bonito, hein?

Mesmo quem é veterano na franquia vai se impressionar com a apresentação de Heroes. Sem dever em nada para o que é visto em Awakening ou Fates, o novo game demonstra sua vistosidade desde a tela de abertura.

Embalada pela música tema da franquia cantada (!), a animação inicial explora bem o estilo anime que influencia a série desde seus primórdios. Cada personagem presente no jogo conta com diversas ilustrações, feitas por diferentes artistas japoneses, que refletem seus momentos e humores durante as batalhas.

E não é só isso. Espere também ouvir cada um deles dizer frases diferentes antes e durante cada enfrentamento, inclusive – e especialmente – no momento de ativar seus ataques especiais. É um feito realmente impressionantes para um jogo de celular que se dispõe a compilar um número tão grande personagens.

São pequenos elementos que dão mais vivacidade aos personagens e que causam espanto por todo o empenho técnico investido pelas três produtoras, Nintendo (detentora da marca), Deena (parceira da gigante de Kyoto no ramo dos smartphones) e Intelligent Systems (veterana da franquia).

É uma pena, porém, que nem todos os detalhes dos últimos títulos da série tenham sido traduzidos para Heroes. Não espere ver possibilidade de casamentos e de gerar filhos, interação entre personagens no campo de batalha, portas e baús a espera de chaves (ou lockpicks) para serem abertos, armas que se desgastam com o uso ou a capacidade de formar pares para resgatar um guerreiro em dificuldades. Permadeath, então? Pode esquecer. Tudo isso foi excluído para garantir um jogo mais acessível e que permita diversão descompromissada.

Simples, mas nem tanto

Mantém-se em Heroes o âmago do sistema de batalhas da série, no caso, a triangulação de elementos que concedem vantagens ou desvantagens na hora dos combates. A saber: detentores de espadas e magias de fogo têm bônus sobre os que preferem machados e magias de vento, que por sua vez têm mais chances de vencer quem utiliza lanças e magias de trovão, que podem derrotar com mais facilidade usuários de espadas e magias de fogo. Desta vez, o ciclo vem representado pelas cores vermelha, azul e verde, de uma forma que intencionalmente ou não remete ao esquema dos monstrinhos iniciais de Pokémon.

Fora do triângulo, corre por fora também a cor branca, que representa os usuários de magias de cura e de armas de ataque à distância, como arcos e adagas. Estes não possuem vantagens específicas sobre nenhum tipo de adversário, mas garantem danos maiores a inimigos alados, como os Pegasi Knights.

Aqui, os terrenos continuam fazendo a diferença. Soldados comuns não conseguem escalar montanhas, enquanto cavaleiros têm mobilidade maior no campo de batalha, mas encontram dificuldades em se embrenhar entre árvores. Já combatentes que contam com a ajuda de asas têm total liberdade para atravessar rios e chegam a pontos mais elevados sem muitas dificuldades.Além disso, cada tipo de bloco pode fornecer vantagens para os stats de cada personagem – e isso vale não só para você, mas também para os inimigos. Enquanto um matagal garante maior possibilidade de evasão, as montanhas não só concedem chances maiores de escapar dos golpes como também aumentam sua defesa. Alguns locais, porém, podem prejudicar mais que ajudar, enquanto outros propiciam a regeneração de parte da vida a cada turno. Vale a pena se inteirar sobre o que faz cada tipo de terreno para tirar melhor proveito do campo de batalha.

Uma novidade implementada em Heroes é o uso de habilidades. Cada personagem pode equipar seis delas, sendo uma relacionada à arma equipada, uma defesa, uma especial e três passivas, que não precisam ser ativadas pelo jogador.

Novas habilidades são desbloqueadas conforme os guerreiros ficam mais fortes e podem ser “compradas” com o uso de SP, um novo medidor que aumenta conforme o personagem sobe de nível. Essas técnicas podem ser colocadas ou trocadas como o jogador bem entender dentro do menu Allies, antes das batalhas.

É até aí que vai a complexidade do sistema de combate. Na hora do vamos ver, os duelos são travados no máximo com quatro personagens de cada um dos dois lados. Os cenários são bem menores se comparados com os das versões de console (mesmo os portáteis), restringindo-se ao tamanho exato da tela do celular, com um grid de 6×8.

A variação dos campos de batalha se dá pela imposição de alguns obstáculos, sejam paredes quebráveis — que podem resguardar quem ataca à distância – ou rios intransponíveis para quem está a pé, o que não é novidade para quem já conhece a série. Como de costume, também é possível saber até que ponto os inimigos podem chegar e atacar em cada turno, permitindo montar estratégias que possibilitem a fuga dos seus personagens à beira da morte.

A jogabilidade é simples como deveria ser e não necessita mais que um polegar: o jogador arrasta o herói para o personagem que quer atacar, curar ou dar suporte e a mágica acontece. Seu instinto pode te fazer querer levar seu guerreiro para um espaço próximo ao do oponente para então atacar, mas isso só vai fazer o turno do seu personagem acabar mais rápido. Leva um tempo para se acostumar, mas depois de alguns minutos parece que FE foi assim a vida toda.

No geral, o sistema de combate de Heroes ainda transmite a sensação de ser um Fire Emblem moderno, mas os cortes são perceptíveis. A troca dos esquemas mais sofisticados surgidos nos jogos mais recentes pela implementação do uso de habilidades é compreensível por sua característica como software de celular, mas a simplificação não deixa de causar frustração nos veteranos.

Gastando suas Orbs

Se os combates se tornaram mais acessíveis, é a gerência de times e menus que vai consumir mais tempo (e dinheiro) dos entusiastas. Há diversos tipos de itens e modos de jogo que devem ser considerados, além daquelas particularidades de jogos “freemium” para forçar os jogadores a gastarem alguns trocados.

O centro desse sistema são as chamadas Orbs, espécie de moeda que pode ser utilizada para invocar novos personagens e expandir seu castelo, garantindo porcentagens maiores de experiência para seus personagens. Aliás, eis uma dica valiosa: antes de invocar um novo grupo de heróis, além daquele com o qual você começa, faça alguns investimentos na sua base logo de cara. Receber 80% a mais de experiência já nas primeiras batalhas é garantia de evitar muita dor de cabeça e gastação de dinheiro mais para frente.

Apresentação de Heroes não deve em nada para as de Awakening e Fates

Na hora de convocar novos guerreiros para seu time, é importante ter acumulado ao menos 20 Orbs. As invocações podem ser feitas de cinco em cinco e quanto mais se fizer de uma vez, menos Orbs são gastas.

Porém, há uma pegadinha na forma com que ocorrem as invocações. Elas são feitas por meio de um sistema conhecido como “gacha”, que se baseia inteiramente na sorte.

Os personagens são invocados de forma aleatória, e existe a chance de que você acabe com vários Marths ou Lyns no seu time. Cada um deles, porém, têm potenciais diferentes representados por quantidades de estrelas, que vão de 3 a 5. Quanto mais delas um guerreiro tiver, melhores serão seus stats e habilidades. O lado bom é que ao menos existe também a possibilidade de unir as versões mais fracas de um personagem com uma mais forte para melhorá-la ainda mais, aproveitando para liberar espaço para novos combatentes.

Se você é fã de longa data da franquia, é possível que se veja gastando dinheiro de verdade para conseguir aquele personagem do seu Fire Emblem favorito com stats de campeão – pelo menos é isso que a Nintendo espera que você faça. Isso porque as esferas necessárias para essas invocações são obtidas por cada vitória, mas também podem ser compradas com dinheiro de verdade. Se engana se você acha que vai poder tirar vantagem do jogo gastando R$ 15 ou talvez R$ 25: a compra de 10 Orbs (suficiente para a invocação de dois personagens) sai por R$ 21. Um pacote com 140, proporcionalmente mais barato, sai a R$ 262,50 (!).

As Orbs servem também para ressuscitar heróis durante as batalhas e podem garantir que o jogador continue a explorar alguns modos de jogo. Tal qual se tornou padrão em diversos games de celulares, cada partida retira pontos de marcadores diferentes do jogador. Exemplo: Stamina para o modo Story, ou Dueling Swords para o modo Arena Battle. Quando chegam a zero, você tem a opção de aguardar algumas horas para que os medidores se restabeleçam ou restabelecê-los de forma imediata trocando a moeda de jogo por itens específicos. Não são questões que causam muita preocupação nas primeiras horas de jogo, mas podem pesar mais tarde, quando tentar o mesmo nível diversas vezes se torna mais comum e as Staminas pagas por jogo costumam ficar bem mais caras.

Conclusão

Fire Emblem Heroes pode ser considerado uma celebração aos quase trinta anos da franquia, arregimentando dezenas dos personagens criados até aqui. Ainda que possa desapontar alguns fãs pela trama e jogabilidade simplificadas, o esmero de sua produção e sua acessibilidade devem atrair novos jogadores, alguns dos quais possivelmente jamais encostaram em um capítulo da série nos consoles da Nintendo.

A transição para Android e iOS não causou tantos prejuízos quanto seria previsível, mas não deixa de ser injusta uma comparação com Awakening ou Fates. Apenas não mergulhe no game com grandes expectativas e Heroes pode facilmente ser fonte de boas horas de diversão, seja para novatos ou veteranos.