Quarta-feira, 14 de Outubro de 2026
VISÃO

Garçom vai ganhar menos gorjeta, diz presidente da associação de bares sobre fim da escala 6×1

Entidade calcula alta de 9,1% na folha com dois descansos pagos

Da Redação
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Bares e restaurantes apostam em bebidas e petiscos - (Foto: reprodução)

SÃO PAULO (FOLHAPRESS) – O fim da escala 6×1 trará aumento de custo a bares e restaurantes, o que poderá prejudicar a oferta de serviços em regiões menos abastadas e diminuirá a gorjeta paga a garçons, segundo Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

Ele defende a aprovação da PEC (proposta de emenda à Constituição) das horas trabalhadas. O Senado vota nesta quarta-feira (14), a PEC 221, que acaba com a jornda 6x1e cria a escala 5×2, sem redução de salário.

“Vamos ter problemas com a oferta de serviço. Restaurantes ricos vão tomar a cozinheira dos restaurantes menos favorecidos. Conversei com um garçom e ele disse que era bom as pessoas ficarem mais em casa. Agora, já pensou que vai ter 52 dias de gorjeta a menos no ano, e isso equivale a dois meses? O garçom não sabia disso”, diz.

Para Solmucci, há uma baixa compreensão da sociedade sobre os impactos da implantação da escala 5x,2, que chama de “monstro”. “Tenho até uma frase forte. Ao criar esse monstro que está sendo criado agora, e considerando esse cenário, [o único caminho] é o Brasil expandir o trabalho por hora.”

O presidente da associação se mostrou decepcionado com o presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que pautou a votação da PEC 221 em dois turnos, antes do segundo turno das eleições presidenciais.

Segundo Solmucci, Alcolumbre havia se comprometido a não votar em várias conversas que teve com o setor. Outra crítica é que a medida pode interferir nas eleições. “Achei que no Senado a gente não fosse enfrentar isso. Infelizmente os resultados da eleição no Amapá reduziram a expectativa dele [Alcolumbre] de alguma coisa.”

Sobre a mudança de posição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente da República que era contrário à PEC 221 e, agora, declarou voto a favor, disse compreender a postura. “Não gosto da mudança, mas compreendo, porque tem uma eleição.”

Solmucci chamou de milícias digitais a movimentação nas redes sociais para pressionar parlamentares a votarem pelo fim da escala 6×1, e diz que Flávio mudou de opinião por conta dessa movimentação. Conforme sua opinião, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “com a competência política dele está colocando uma pressão semelhante em cima de Flávio”.

O presidente da associação afirma que haverá aumento de custos, até mesmo para empresas que já operam na escala 5×2 em outros setores. Isso porque em vez de um descanso semanal remunerado, a empresa pagará por dois descansos, o que deve elevar os gastos com folha em 9,1%. Para ele, esse caminho é a morte da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Solmucci defende a PEC das horas trabalhadas, na qual o profissional recebe conforme o número de horas que trabalha. Neste caso, conforme o contrato com o empregador, poderia haver escala 5×2 ou 6×1, caminho já adotado em outras nações, como nos Estados Unidos ou países da Europa.

Mesmo que a medida seja aprovada e haja o período de transição de 60 dias para que os setores se ajustem, o presidente da Abrasel diz que vai seguir defendendo a aprovação da PEC das horas porque acredita que as duas medidas podem conviver.

“Acho que dá para conviver as duas PECs, até porque você tem essas duas modalidades de trabalho convivendo no mundo. Nenhum país no mundo restringiu o trabalho 6×1 na Constituição”, afirma.

Solmucci rebateu ainda argumentos do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, de que a escala 5×2 traz facilidade de contratação, chamando-os de “desonestidade intelectual”.

“Quando fala que uma determinada empresa conseguiu sucesso e generaliza isso como uma possibilidade para toda a economia é de desonestidade intelectual. A mão de obra que permitiu ajuste para uma pode não ser replicada para outra.”

Ele diz ainda que haverá dificuldades de contratações. Os cálculos apresentados são de que hoje há 15 milhões de trabalhadores com jornada de 44 horas semanais, que terão redução na jornada. Ao ajustar as horas de trabalho e a escala, seria necessário contratar 3 milhões, força de trabalho que não há no mercado, segundo ele.

A PEC 221, que acaba com a escala 6×1 —na qual se trabalha por seis dias com um de folga—, reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais 14 meses após promulgação e publicação. Cria também a escala 5×2, com dois dias de descanso semanal remunerado por hora.

LEIA MAIS:

Categorias:
Poder em Jogo Política