8 em 10 feminicídios no Brasil foram cometidos pelo ex ou atual parceiro; 62% das vítimas são negras
Em 13% dos crimes, vítima havia obtido medida protetiva de urgência
Oito em cada dez feminicídios registrados no Brasil foram cometidos pelo atual ou ex-parceiro da vítima, e 62% das mulheres assassinadas eram negras. Além disso, em 13% dos casos, a vítima havia conseguido uma medida protetiva de urgência, que não foi suficiente para evitar o desfecho fatal. Os dados constam em levantamento divulgado nesta quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
- Brasil registra 1.470 feminicídios em 2025; Goiás está entre os 10 estados com mais mortes
Em 2025, o país contabilizou 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde que o crime passou a ser tipificado na legislação brasileira, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas por razões relacionadas ao gênero. Parte do crescimento das notificações no período, segundo o relatório, é atribuída à melhora na qualidade dos registros.
Perfil das vítimas: maioria negra e adulta
A análise de 5.729 registros de feminicídio ocorridos entre 2021 e 2024 revela que 62,6% das vítimas eram negras — o equivalente a 3.587 mulheres — enquanto 36,8% eram brancas (2.107). A sobrerrepresentação de mulheres negras indica que a violência letal de gênero está associada também a desigualdades raciais e sociais. O estudo aponta que mulheres negras estão, em média, mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica e têm menor acesso a serviços públicos de proteção.
A violência atinge diferentes faixas etárias, mas se concentra principalmente na vida adulta. Entre os casos analisados, 1.685 vítimas tinham entre 18 e 29 anos (29,4%), enquanto 2.864 mulheres estavam na faixa de 30 a 49 anos (50%). Outras 887 vítimas tinham mais de 50 anos (15,5%).
Autoria: parceiros são os principais agressores
Na maioria das ocorrências, o agressor tinha relação direta com a vítima. Do total, 59,4% das mulheres foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro — o que significa que mais de 80% dos feminicídios foram cometidos por homens com vínculo afetivo com a vítima. Entre os casos com autoria identificada, 97,3% foram praticados por homens. Apenas 4,9% dos crimes foram cometidos por desconhecidos.
Armas e locais dos crimes
Em relação ao instrumento utilizado, 2.790 feminicídios (48,7%) ocorreram com arma branca, como faca ou machado. Outros 1.443 casos (25,2%) envolveram arma de fogo.
A residência da vítima aparece como o principal cenário dos assassinatos: 3.797 feminicídios (66,3%) ocorreram dentro de casa. Já 1.099 casos (19,2%) aconteceram em vias públicas.
Medidas protetivas não impediram parte dos crimes
O levantamento também analisou 1.127 feminicídios registrados em 16 unidades da federação para verificar a eficácia das medidas protetivas. Em 148 casos, o equivalente a 13,1%, a mulher já havia acionado o sistema de Justiça e recebido uma medida protetiva de urgência (MPU) que estava vigente no momento do crime.
Isso significa que uma em cada oito vítimas de feminicídio no Brasil havia buscado proteção judicial antes de ser assassinada, evidenciando os desafios na efetividade das políticas de prevenção e no acompanhamento das mulheres em situação de risco.