AVALIAÇÃO

Abin avalia que designação de PCC e CV como terroristas abre brecha para interferência

Agência faz o assessoramento estratégico sobre o tema ao governo

Abin avalia que designação de PCC e CV como terroristas abre brecha para interferência
Luiz Fernando Corrêa é o atual diretor-geral da Abin (Foto: Pedro França - Agência Senado)

BRASÍLIA (FOLHAPRESS) – A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) avalia que a eventual designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pelo governo Donald Trump ampliaria a margem para interferências externas sobre o Brasil e afetaria diretamente a soberania nacional.

Segundo pessoas que acompanham as discussões na agência, que falaram com a Folha sob condição de anonimato, as ameaças relacionadas ao crime organizado e ao terrorismo têm características, objetivos e motivações distintos. Por isso, são objeto de regimes internacionais, legislações domésticas e políticas públicas específicas.

Para interlocutores na Abin, o enquadramento das facções como terroristas deixaria o Brasil vulnerável a sanções internacionais. Os impactos poderiam atingir áreas como economia e segurança pública, além de influenciar a percepção sobre as instituições.

No sistema financeiro, por exemplo, a circulação de recursos ligados a integrantes ou estruturas dessas organizações poderia acionar mecanismos de intervenção por parte dos Estados Unidos, mesmo quando não há ciência da ilegalidade dos recursos, com risco de bloqueios de atividades bancárias, o que também afetaria clientes dessas instituições.

Em última instância, há ainda o receio de que a classificação abra espaço para uma eventual intervenção militar sob a justificativa de combate ao terrorismo e ao narcotráfico, como já ocorreu em outros países da região, como na Venezuela.

Sob ordens de Trump, militares americanos realizaram uma operação na Venezuela na qual prenderam o ditador Nicolás Maduro e o levaram a Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo.

A Abin tem enviado subsídios para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que atua para tentar reverter a possibilidade de enquadramento. A agência faz o assessoramento estratégico sobre o tema.

A agência adota o entendimento de que terrorismo é caracterizado por manifestações de extremismo violento, tendo motivação política, religiosa, ideológica ou étnica. Para a Abin, o ato tem sua definição restrita às hipóteses tipificadas em lei e em regimes internacionais específicos.

Nesse sentido, a avaliação interna é que organizações criminosas como PCC e CV não atuam com motivação política, mas orientadas pelo lucro, o que exigiria estratégias distintas de enfrentamento.

A Abin defende que a definição de terrorismo deve ser a mais restrita possível, em linha com parâmetros já adotados por outros países.

A possibilidade de interferência externa, segundo documentos da Abin, é vista como um instrumento historicamente utilizado por países mais poderosos nas relações internacionais.

O Brasil, por reunir extensas áreas de floresta, recursos naturais estratégicos e uma produção agrícola altamente competitiva, é considerado alvo recorrente de espionagem e tentativas de interferência.

Em relatório sobre os desafios institucionais, a Abin apontou como riscos para o processo eleitoral de 2026 a interferência externa e a atuação do crime organizado.

O documento também menciona o uso de inteligência artificial para desinformação e a crescente radicalização religiosa como fatores que podem ameaçar a legitimidade das instituições democráticas.