Canetas emagrecedoras atrasam ação de anticoncepcionais e outros remédios? Veja
Especialistas respondem se o uso de Mounjaro, Ozempic ou Wegovy pode atrasar absorção de comprimidos
O uso das canetas emagrecedoras, cada vez mais popular no Brasil, levantou um alerta importante: afinal, esses medicamentos atrasam a ação de anticoncepcionais e outros remédios tomados por via oral? A resposta envolve principalmente o efeito dessas drogas no organismo e já mobiliza especialistas em endocrinologia, ginecologia e cardiologia.
Medicamentos agonistas do GLP-1, como semaglutida (Ozempic e Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), podem interferir na absorção de comprimidos, incluindo anticoncepcionais, analgésicos e anticoagulantes. O ponto central não é a perda total da eficácia, mas sim um atraso no início da ação, provocado pela redução do esvaziamento gástrico.
O tema ganhou grande repercussão após a ex-BBB Laís Caldas anunciar que engravidou enquanto utilizava Mounjaro em conjunto com anticoncepcional oral. O caso trouxe visibilidade para uma possível interação ainda pouco discutida entre as canetas para emagrecer e diversos medicamentos ingeridos em forma de comprimido.
Um dos principais efeitos dos agonistas do GLP-1 é fazer o organismo “acreditar” que acabou de se alimentar. Com isso, a sensação de saciedade aumenta, a fome diminui e o estômago passa a se esvaziar mais lentamente, mantendo alimentos e medicamentos orais por mais tempo no trato gastrointestinal.
“Como o esvaziamento gástrico fica mais lento, isso pode interferir na absorção de comprimidos administrados por via oral”, explica Eduardo Lima, professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP e cardiologista do Hospital Nove de Julho. Segundo ele, o que muda não é a quantidade total absorvida, mas a velocidade com que o remédio começa a agir.
Esse atraso pode ser relevante para medicamentos que precisam de efeito rápido, criando uma janela de menor proteção. Já para remédios de uso contínuo, como antidepressivos ou anti-hipertensivos, o impacto tende a ser menor, pois o paciente ainda está sob o efeito da dose anterior.
As evidências mais consistentes surgem com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. Um estudo publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism mostrou que a concentração máxima do paracetamol —usado como modelo— foi reduzida em cerca de 50% e teve início de ação retardado em aproximadamente uma hora. “Isso não significa perda do efeito total, mas um pico mais baixo e tardio”, ressalta Lima.
No caso da semaglutida, utilizada no Ozempic e no Wegovy, ainda não há dados robustos que indiquem impacto clinicamente relevante. De acordo com o endocrinologista André Camara de Oliveira, da SBEM-SP, estudos clínicos não demonstraram até agora uma relação direta preocupante.
Em relação aos anticoncepcionais orais, especialistas alertam que, embora o tempo total de exposição ao hormônio não pareça se alterar de forma significativa, esse atraso inicial pode reduzir a segurança do método, especialmente em mulheres com maior fertilidade. O risco tende a ser maior nas primeiras semanas de uso da tirzepatida e durante o ajuste de dose.
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A Febrasgo recomenda que mulheres que usam anticoncepcional oral e fazem uso de Mounjaro optem por outros métodos contraceptivos, como DIU, adesivos transdérmicos, métodos subcutâneos ou de barreira, como a camisinha. Já no caso da semaglutida, a orientação é que a pílula possa ser mantida, embora a recomendação geral seja priorizar métodos que não dependam da absorção intestinal.
Outro ponto de atenção são efeitos adversos como vômitos e diarreia, comuns no início do tratamento com agonistas do GLP-1, que também podem comprometer a eficácia das pílulas e de outros medicamentos orais.
Além disso, a perda de peso associada ao uso das canetas emagrecedoras pode aumentar indiretamente a fertilidade, especialmente em mulheres com obesidade ou síndrome dos ovários policísticos. A melhora da resistência à insulina e da inflamação favorece ciclos mais regulares e ovulação, elevando o risco de uma gravidez não planejada.
Por fim, especialistas alertam que ainda não se conhecem plenamente os efeitos dessas drogas durante a gestação. Estudos em animais indicam possíveis riscos ao feto, o que reforça a recomendação de suspender o uso imediatamente em caso de gravidez e interromper o tratamento de um a dois meses antes em gestações planejadas, sempre com acompanhamento médico.