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Cientistas da Espanha desenvolvem terapia tripla que elimina o câncer de pâncreas

Tumor é um dos mais agressivos e com pior prognóstico

Cientistas da Espanha desenvolvem terapia tripla que elimina o câncer de pâncreas Tumor é um dos mais agressivos e com pior prognóstico
Imagem: Divulgação

A pesquisa sobre o câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e com pior prognóstico, acaba de registrar um avanço histórico. Cientistas da Espanha conseguiram eliminar completa e permanentemente tumores pancreáticos em camundongos por meio de uma terapia tripla, sem gerar resistência ao tratamento. O estudo foi liderado por Mariano Barbacid, chefe do Grupo de Oncologia Experimental do CNIO (Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha).

“Pela primeira vez, conseguimos uma resposta completa, duradoura e de baixa toxicidade contra o câncer pancreático em modelos experimentais”, afirmou Barbacid. Os resultados foram publicados na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) e já são considerados de impacto internacional, abrindo um novo caminho para o desenvolvimento de terapias combinadas mais eficazes.

Na Espanha, mais de 10.300 novos casos de câncer de pâncreas são diagnosticados todos os anos, com uma taxa de sobrevida em cinco anos inferior a 10%. O estudo tem Vasiliki Liaki e Sara Barrambana como primeiras autoras, com liderança de Barbacid e coautoria principal de Carmen Guerra. A pesquisa contou com financiamento da CRIS Cancer Foundation, além de recursos espanhóis e europeus.

Bloqueio triplo contra o oncogene KRAS

Durante décadas, o tratamento do câncer de pâncreas praticamente se limitou à quimioterapia convencional. Apenas em 2021 surgiram os primeiros medicamentos direcionados ao KRAS, um oncogene mutado em cerca de 90% dos pacientes. Apesar disso, os tumores costumam desenvolver resistência em poucos meses, reduzindo a eficácia clínica.

O novo estudo do CNIO, maior centro de pesquisa oncológica da Espanha e um dos mais relevantes da Europa, buscou justamente enfrentar esse problema. A estratégia adotada foi bloquear a via molecular do KRAS em três pontos diferentes, em vez de atacar apenas um alvo.

“A lógica é simples: é muito mais difícil o tumor escapar quando a via está neutralizada em várias frentes ao mesmo tempo”, explica o CNIO.

Como funciona a terapia tripla

Para aplicar esse conceito, os pesquisadores desenvolveram uma terapia tripla que combina:

  • um inibidor experimental de KRAS (daraxonrasib);
  • o afatinib, medicamento já aprovado para alguns tipos de câncer de pulmão;
  • um degradador de proteínas direcionado ao STAT3 (SD36).

O tratamento foi testado em três modelos diferentes de adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais comum e letal da doença. Em todos os casos, houve regressão significativa e duradoura dos tumores, sem toxicidades relevantes e, principalmente, sem desenvolvimento de resistência.

Cautela antes dos testes em humanos

Apesar dos resultados promissores, Mariano Barbacid reforça que ainda é cedo para falar em aplicação clínica. “Ainda não estamos em condições de realizar ensaios clínicos com a terapia tripla”, alertou o pesquisador.

Segundo ele, será necessário um processo longo de otimização da combinação, com ajustes de dose, avaliação de interações entre os medicamentos e garantia de segurança em humanos. Também será fundamental compreender melhor a heterogeneidade do câncer pancreático e identificar quais subgrupos de pacientes podem se beneficiar mais da estratégia.

Mesmo com os desafios, os cientistas avaliam que o estudo representa um ponto de virada. Após décadas de poucos avanços, a pesquisa demonstra que uma abordagem racional com terapias combinadas pode conter de forma sustentável a resistência tumoral, abrindo novas perspectivas para o futuro do tratamento do câncer de pâncreas.