Tenente-coronel da PM suspeito de matar a esposa escreveu que ela deveria ser submissa, e ele soberano
Soldado Gisele relatou agressão do marido, pediu separação e disse que não iria 'trocar sexo por moradia'
Via Folha de São Paulo – O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 56, preso nesta quarta-feira (18) por suspeita de feminicídio e fraude processual, escreveu em mensagens de texto enviadas à esposa que toda mulher casada deve ser “obediente e submissa” e reclamou dos gastos financeiros que tinha com ela.
As mensagens, transcritas na denúncia do Ministério Público de São Paulo contra o oficial da Polícia Militar, foram enviadas em fevereiro por ele à soldado Gisele Alves Santana, 32, com quem era casado. Ela foi morta na manhã do dia 18, há um mês, num apartamento no Brás, na região central de São Paulo.
A defesa do tenente-coronel afirmou que a prisão determinada pela Justiça Militar foi ilegal, pois proferida por autoridade que não tem competência para o caso. Disse, ainda, que houve divulgação de informações da vida privada de Neto “muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade”.
Na troca de mensagens, Gisele relata uma agressão do marido e manifesta a vontade de se separar. As conversas foram reproduzidas em ofício do Ministério Público de São Paulo apresentado à Justiça. A 3ª Promotoria de Justiça do 5º Tribunal do Júri da Capital apresentou denúncia contra Neto, que foi aceita na Justiça comum. Com isso, Neto agora é réu.

“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa”, diz uma dos textos enviados pelo tenente-coronel à esposa, segundo relatório policial citado pela Promotoria. “Como toda mulher casada deve ser”, ele acrescenta.
Em resposta a uma mensagem em que Gisele disse que achava ele um “príncipe”, o tenente-coronel responde com uma lista de qualificações e qualidades, ressaltando sua posição de poder e sua própria aparência.
“Sou mais que um príncipe, Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano”, diz a mensagem.
No dia 2 de fevereiro, Neto reclamou dos gastos de mais de R$ 6.000 por mês e da falta de contribuição da esposa, inclusive em disposição para ter relações sexuais.
“Eu invisto todos os meses, R$ 3.000 de aluguel, R$ 2.000 de condomínio, R$ 500 de água e luz, R$ 500 de gás, fora as coisas que eu compro de mercado e todas as vezes que nós saímos eu pago tudo sozinho (…) e você investe quanto?”, diz a mensagem do tenente-coronel. “Não tem dinheiro, blz [sic]. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo…. mas nem isso você faz.”
Em resposta, Gisele escreve: “por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final”. Ela ainda discorda que contribuir apenas com dinheiro significava que o parceiro estava “fazendo sua parte”. A soldado escreve que “pra mim não é assim que funciona, nunca foi assim e não vai ser agora que vai mudar”.
Quatro dias depois, Gisele relata uma agressão na troca de mensagens com o marido. “Você não me respeita; não sabe conversar; ontem enfiou a mão na minha cara”, ela escreveu em 6 de fevereiro.
A decisão do Tribunal de Justiça Militar que determinou a prisão de Neto traz relatos de que o tenente-coronel constrangia a esposa, com visitas ao local de trabalho dela sem justificativa.
“O oficial utilizava se de sua condição hierárquica, inicialmente como major e posteriormente como tenente-coronel, para adentrar na seção de logística, permanecendo por vezes longos períodos no interior da seção, inclusive sentado próximo à Sd [soldado da] PM Gisele observando suas atividades, circunstância que causava desconforto entre os integrantes da equipe”, diz a representação da Corregedoria da PM, reproduzida na decisão do juiz.
“As testemunhas também relataram episódios em que o Ten Cel [tenente-coronel da] PM Neto teria criado situações constrangedoras no ambiente de trabalho da policial, chegando inclusive a protagonizar discussões no interior da seção”, diz o documento.
As promotoras responsáveis pela acusação avaliaram que “o denunciado apresenta comportamento possessivo, controlador, autoritário”. Além disso, citaram os indícios de que ela foi morta ao ser abordada pelas costas por um agressor, que segurou com força sua boca e mandíbula com a mão esquerda e disparou a pistola com a direita.
Neto era a única pessoa no apartamento além de Gisele. Ele alega que ela cometeu suicídio enquanto ele tomava banho.
A posição do corpo e das manchas de sangue da vítima, as marcas de agressão no seu rosto e as contradições no depoimento do marido foram as principais provas para que a Justiça Militar determinasse a prisão do oficial da PM.