ECONOMIA

Dólar fecha no menor valor em quase dois anos

Com dólar em baixa, mercado repercute desaceleração da inflação de janeiro para 0,2%, de olho em efeitos sobre Selic

Dólar fecha no menor valor em quase dois anos (Foto: Agência Brasil)
Dólar fecha no menor valor em quase dois anos (Foto: Agência Brasil)

(Folhapress) O dólar teve forte queda de 1,38% nesta terça-feira (27) e fechou cotado a R$ 5,206, menor valor desde 2024 —reflexo de uma confluência de fatores que acirraram o interesse de investidores por ativos brasileiros.

Na mínima do dia, foi a R$ 5,198. O movimento de desvalorização foi global, com o índice DXY, que compara a moeda uma cesta de outras seis divisas fortes, caindo 0,86%, a 96,21 pontos. É o menor patamar para o índice desde 2022.

Nesta sessão, dados do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de janeiro abaixo do esperado consolidaram expectativas de corte na taxa Selic a partir de março. A sinalização deve vir no encontro de amanhã do Copom (Comitê de Política Monetária), em data conhecida como “superquarta” pelos mercados por também trazer a decisão de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano).

O dia ainda é favorável ao mercado brasileiro pela continuidade do movimento de rotação para fora das praças norte-americanas, que tem trazido investidores estrangeiros para cá desde a semana passada. A avalanche de recursos internacionais levou a Bolsa a galgar patamares inéditos na história e o dólar a cair 4% desde o início de janeiro.

A máxima do Ibovespa está sendo renovada neste pregão também: o índice bateu 181 mil, 182 mil e 183 mil pontos pela primeira vez nesta tarde. Às 17h, disparava 2,08%, a 182.444 pontos. Na máxima, chegou a 183.359 pontos.

A começar pelo cenário doméstico, o avanço de 0,2% do IPCA-15 na base mensal veio ligeiramente abaixo das expectativas de 0,22% do mercado, segundo a Bloomberg.

Por outro lado, o índice, considerado uma prévia da inflação oficial do país, acelerou no acumulado de 12 meses. Após marcar 4,41% até dezembro, alcançou 4,5% até janeiro —exatamente o teto da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) para o IPCA.

A divulgação acontece na véspera da primeira decisão de juros do Copom em 2026. A previsão dos agentes é de manutenção dos atuais 15% ao ano, maior patamar em quase duas décadas.

“Para a decisão de amanhã, o resultado de hoje é de pouca relevância”, diz André Valério, economista sênior do Inter. Mas a expectativa é de que o índice motive ajustes no comunicado que sucede a decisão, refletindo “a possibilidade do início do ciclo de cortes na reunião de março”.

A análise se baseia na tendência de desinflação no longo prazo, resultado da valorização do real ante o dólar e da queda recente nos preços de alimentos. A redução dos preços da gasolina pela Petrobras também deverá empurrar o índice para baixo neste primeiro trimestre, afirma Valério.

Segundo o boletim Focus desta semana, especialistas veem um corte de 0,5 ponto percentual em março como o pontapé inicial do ciclo de afrouxamento monetário. A Selic deve encerrar 2026 em 12,25%; o IPCA, em 4%.

“O dado aumentou a confiança de que a política monetária restritiva está produzindo efeitos mais consistentes sobre os preços. Com a inflação mostrando sinais de arrefecimento, cresce a expectativa por um corte de juros mais próximo, ou ao menos por um discurso mais brando por parte do BC”, diz João Abdouni, analista da Levante Inside Corp.

Para a Bolsa, juros mais baixos tendem a ser uma boa notícia: ao tirar um pouco do brio da renda fixa, o corte estimula que investidores procurem retornos mais altos em ativos de risco. Segundo a XP, os últimos oito ciclos recentes de afrouxamento monetário levaram o Ibovespa a subir 39,2%.

O mercado ainda vê espaço para a Bolsa continuar subindo ao longo do ano, mesmo com previsão de volatilidade por causa das eleições presidenciais de outubro.

A “superquarta”, além disso, guarda a decisão de juros do Fed. Por lá, o consenso de mercado também aponta para uma manutenção da taxa na banda de 3,5% e 3,75%. Preocupa, no entanto, o ambiente institucional do Fed em meio aos ataques do governo Donald Trump.

A provável manutenção dos juros vai na contramão do que o republicano tem pregado desde que assumiu o cargo: a redução brusca da taxa para 1,5%.

O contexto, segundo analistas, é crítico. Jerome Powell, presidente do Fed, se tornou alvo no início do mês de uma investigação federal relacionada a uma reforma da sede da instituição, orçada em US$ 2,5 bilhões. Ele reagiu publicamente antes mesmo do anúncio formal do inquérito, classificando-o como um pretexto para pressioná-lo a reduzir drasticamente os juros.

“Embora haja pouca dúvida sobre o resultado da reunião, as expectativas têm aumentado de que a retórica será agressiva devido a fortes dados econômicos e em resposta aos ataques de Trump à autonomia do Fed”, diz Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury.

Conforme a escolha pelo novo presidente do Fed se avizinha —o mandato de Powell termina em maio—, o mercado teme que Trump opte por um chairman que responderá às suas demandas, e não aos dados econômicos.

A incerteza se soma a um contexto já tensionado. “Ainda há uma nova possibilidade de ‘shutdown’ do governo norte-americano rondando as operações”, diz Higor Rabelo, especialista da Valor Investimentos.

O orçamento federal dos EUA expira na sexta-feira, e temores de uma nova paralisação diante dos embates entre republicanos e democratas inspiram cautela e diversificação de carteiras, com investidores reduzindo a exposição aos mercados norte-americanos.

Segundo dados da B3, o fluxo de capital estrangeiro até sexta-feira (23) foi de R$ 17,7 bilhões —mais de 60% de todo o capital aportado aqui no último ano.