EUA ordena fechamento de consulado chinês em Houston
Governo americano alegou 'proteção da propriedade intelectual', enquanto autoridades chinesas classificaram decisão de 'provocação política'
Ir direto pra matéria
Os Estados Unidos ordenaram o fechamento do consulado chinês em Houston “para proteger a propriedade intelectual americana e as informações privadas dos americanos”, disse uma porta-voz do Departamento de Estado nesta quarta-feira. Pequim, que tem três dias para encerrar as atividades no consulado, protestou vigorosamente contra a decisão, anunciada num contexto de escalada da crise diplomática entre os países.
— A Convenção de Viena diz que os diplomatas de Estado devem “respeitar as leis e as regras do país anfitrião” e “têm o dever de não interferir nos assuntos internos desse Estado” — afirmou a porta-voz Morgan Ortagus, durante visita do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, a Copenhague.
A decisão tem como pano de fundo as tensões crescentes entre os dois países em várias frentes: a polêmica lei de segurança nacional em Hong Kong, as acusações de espionagem contra a China, e a situação humanitária na região de Xinjiang (ao Noroeste da China), onde vive a minoria muçulmana uigur.
— Os Estados Unidos não vão tolerar qualquer violação da nossa soberania, nem intimidação do nosso povo por parte da China, como tampouco toleramos as práticas comerciais injustas, o roubo dos empregos americanos e outros comportamentos. O presidente Trump insiste na justiça e na reciprocidade em nossas relações com a China — acrescentou a porta-voz.
A China tem cinco consulados nos Estados Unidos. O de Houston (Texas) foi aberto em 1979.
Segundo jornais locais, os bombeiros foram ontem à noite ao consulado chinês, porque documentos estavam sendo queimados no pátio do edifício. No Twitter, a polícia local disse que se via fumaça, mas que as forças de ordem “não receberam autorização para entrar” no edifício.
Reação chinesa
As autoridades chinesas denunciaram a decisão, a qual classificaram de “provocação política” que prejudicará as relações diplomáticas bilaterais.
— A China condena veementemente esta decisão tão ultrajante e injustificada que irá sabotar a China e os EUA — disse o porta-voz do Ministério chinês das Relações Exteriores, Wang Wenbin. — Pedimos aos EUA que recuem imediatamente dessa decisão errônea, caso contrário, Pequim responderá com contramedidas legítimas e necessárias.
A China acusou os EUA de assediarem funcionários diplomáticos e de intimidar estudantes chineses, confiscar dispositivos eletrônicos pessoais e detê-los sem justa causa. Missões e pessoal diplomático chineses também receberam recentemente ameaças de bomba e morte, acrescentou Wang.
As autoridades chinesas também acusaram os EUA de “calúnias”, depois que dois de seus cidadãos foram indiciados por ciberataques a empresas envolvidas na busca de uma vacina contra o novo coronavírus. A acusação foi feita nesta terça-feira pelo Departamento americano de Justiça, contra Li Xiaoyu, de 34 anos, e Dong Jiazhi, de 33, “dois hackers chineses (que) trabalhavam com o Ministério chinês da Segurança”.
Em comunicado, o governo chinês refutou as acusações e disse que “infiltração e interferência nunca estiveram nos genes e na tradição da política externa da China”, sem se referir a nada específico.
— O governo chinês é um fervoroso defensor da segurança cibernética e sempre se opôs a ataques cibernéticos — acrescentou o porta-voz, exortando Washington a “acabar com essas calúnias e difamações” contra a China.
Segundo as autoridades americanas, os dois hackers se conheceram durante seus estudos de engenharia e roubaram segredos industriais avaliados em milhares de dólares ao longo de dez anos.
Recentemente, teriam tomado como alvo empresas da Califórnia que trabalham na busca de uma vacina e de um tratamento para o novo coronavírus, de acordo com o promotor federal responsável pelo caso, William Hyslop.
Li e Dong não foram detidos e estariam na China hoje.
O governo do presidente Donald Trump mantém há meses um tom bastante crítico em relação às autoridades chinesas, as quais acusa de terem escondido a magnitude da propagação da Covid-19 desde o surgimento da doença na cidade de Wuhan, no final de 2019.