SEGUNDO TURNO

Eduardo Paes derrota Crivella e é eleito prefeito do Rio de Janeiro

A rejeição ao atual prefeito foi um dos principais fatores que levaram ao resultado das urnas. Paes acumulou “apoio crítico” da maior parte dos partidos derrotados no primeiro turno

Paes, que já foi prefeito do Rio de Janeiro, volta a comandar a cidade após vitória contra Crivella (Foto: Sergio Moraes/Reuters)

O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), 51, venceu neste domingo (30) a disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro e volta a comandar a cidade que governou entre 2009 e 2016. Com 98,39% das urnas apuradas, ele obtinha 64% dos votos válidos contra 36% do atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos).

Paes vai assumir em 1º de janeiro de 2021 o município numa situação distinta do que administrou por oito anos, atualmente com baixa capacidade de investimento e sem uma Olimpíada para justificar o repasse volumoso de recursos federais.

O cenário fez com que o prefeito eleito vencesse tendo como principal mote de campanha melhorar a prestação de serviços, principalmente na saúde e transporte.

O ex-prefeito buscou ao longo da disputa contrapor sua gestão à de Crivella, mal avaliado pelos eleitores cariocas. O atual mandatário tentou apresentar a falta de recursos como razão para as falhas que apresentou nos últimos quatro anos, mas não convenceu a maioria dos eleitores.

A rejeição ao atual prefeito foi um dos principais fatores que levaram ao resultado das urnas. Paes acumulou “apoio crítico” da maior parte dos partidos derrotados no primeiro turno e era a opção da maioria dos eleitores dos postulantes que ficaram no primeiro turno, apontam as pesquisas de intenção de voto.

O movimento se deveu tanto à rejeição a Crivella como ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que o apoiou, sem sucesso. A derrota do atual prefeito é mais um mau resultado dos aliados do presidente, tendência já verificada no primeiro turno.

Crivella deixa a prefeitura no fim do ano ficando pela primeira vez desde 2003 sem mandato —até 2016, ele foi senador. Após três tentativas frustradas para chegar à prefeitura e duas ao governo do estado sob o peso da rejeição à Igreja Universal, o bispo licenciado deixa o cargo com uma imagem de mau gestor.

Paes, por sua vez, vence a disputa após duas derrotas políticas consecutivas depois de organizar os Jogos Olímpicos de 2016 e chegar a ser cotado como presidenciável.

O presidente Jair Bolsonaro e Marcelo Crivella (Foto: Alexandre Neto / Folhapress)

Em 2016, seu candidato, o deputado Pedro Paulo (DEM), sequer chegou ao segundo turno na disputa pela sua sucessão, vencida por Crivella. Há dois anos, perdeu a eleição ao governo do estado para Wilson Witzel (PSC), atualmente afastado do cargo.

A vitória de Paes solidifica o crescimento do DEM nas eleições municipais e se torna a principal capital administrada pelo partido no país. O segundo maior colégio eleitoral do país dá ainda mais força à sigla nas articulações da disputa presidencial de 2022.

É a quarta vez que um nome do partido vai administrar a cidade, considerando os três mandatos de César Maia —eleito duas vezes por outros partidos, mas que foi para o antigo PFL no curso da gestão— e Luiz Paulo Conde.

Paes também superou nesta campanha as acusações de corrupção de que é alvo na Justiça, explorada por Crivella em sua campanha.

“Olha quantas pessoas foram presas desde 2014 [início da Lava Jato]. Eu estou aqui. Só estou disputando com você porque sou Ficha Limpa”, disse o prefeito eleito a Crivella no debate de TV Bandeirantes.

Visto como uma espécie de sobrevivente político do antigo MDB-RJ, cujas principais lideranças foram presas, Paes passou a enfrentar neste ano uma situação jurídica mais delicada do que antes.

Ele se tornou neste ano réu em duas ações penais sob acusação de corrupção nas Justiça Eleitoral e Federal. Nenhuma das duas descreve de forma clara pagamento de propina, mas aponta supostos benefícios dados em sua gestão no município a empreiteiras que repassaram recursos via caixa dois para suas campanhas eleitorais do passado.

O Ministério Público Federal, porém, ainda investiga o destino de cinco depósitos feitos no exterior que somam US$ 5,75 milhões pela Odebrecht em 2012. Executivos da empreiteira afirmam se tratar de caixa dois eleitoral, mas os investigadores não identificaram o uso desse dinheiro na campanha.

Paes também foi eleito graças a uma liminar que suspendeu os efeito de uma condenação eleitoral de 2018 que impedia sua candidatura pela Lei da Ficha Limpa. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ainda não tem data para julgar o mérito do caso.

Ao obter o terceiro mandato não consecutivo na prefeitura carioca, o prefeito eleito repete a trajetória de seu primeiro padrinho político, o vereador César Maia (DEM), de quem se reaproximou.

Paes iniciou sua carreira política com Maia em 1993, como subprefeito de Jacarepaguá. Os dois se afastaram em 2003, quando o então deputado federal rompeu com Maia e se transferiu para o PSDB.

Quatro anos depois, ele se aproximou do ex-governador Sérgio Cabral e foi para o MDB. Em 2008, foi eleito para seu primeiro mandato no Rio de Janeiro contando também com o apoio do ex-presidente Lula, a quem havia chamado de “chefe de quadrilha” durante a CPI do Mensalão da qual foi relator.

Cabral e o MDB foram abandonados após a Operação Calicute, em novembro de 2016, quando o ex-governador foi preso. Paes retornou ao DEM de César Maia em 2018, a quem voltou a fazer elogios.

Com uma carreira marcada pelas mudanças de partidos e de padrinhos políticos, o prefeito eleito evitou nacionalizar a disputa e apontar seus aliados na campanha. Buscou apostar na comparação entre as suas duas gestões no município com de Crivella.

O segundo mandato de Paes teve uma taxa de investimentos sempre acima de 13%, impulsionado pelas obras olímpicas financiadas por recursos federais e empréstimos de bancos públicos.

Crivella, por sua vez, não conseguiu ultrapassar uma taxa de 3% em investimentos, em razão de uma receita comprometida pela crise econômica e despesas com amortização de dívidas.

O prefeito eleito, ao longo da campanha, afirmou que seu sucessor não soube gerir o município para enfrentar as dificuldades financeiras. Em razão disso, adotou como mote de campanha melhorar os serviços públicos, sem promessas de novas grandes obras.

O orçamento previsto para o ano que vem prevê uma taxa de investimento de 2,2% para despesas estimadas em R$ 32,4 bilhões.