JUSTIÇA

Ex-aluna de medicina da USP que desviou R$ 927 mil de colegas sofre nova condenação

OUTRO LADO: advogado de Alicia Duddy diz que vai recorrer; à Justiça, defesa afirma que perito ignorou documentação médica

Ex-aluna de medicina da USP que desviou R$ 927 mil de colegas sofre nova condenação
Ex-aluna de medicina da USP que desviou R$ 927 mil de colegas sofre nova condenação (Foto: Reprodução - Lattes)

SÃO PAULO (FOLHAPRESS) – A Justiça paulista condenou Alicia Duddy Muller Veiga, ex-aluna da Faculdade de Medicina da USP que confessou ter desviado R$ 937 mil arrecadados pela comissão de formatura, em um segundo processo.

Alicia, 28, hoje médica com registro ativo no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), é alvo de duas ações criminais.

A primeira, na qual ela foi condenada em primeira instância em julho de 2024 a uma pena de cinco anos de reclusão em regime semiaberto, é justamente sobre o desvio dos valores da comissão de formatura. Ela recorreu da decisão, mas ainda não houve novo julgamento. A ação tramita sob sigilo.

No segundo processo, Alicia é acusada de tentar dar um golpe na lotérica na qual tentou reaver os valores perdidos da comissão de formatura. É nessa ação que ela sofreu a nova condenação, em sentença de 24 de fevereiro, recebendo uma pena de prisão de 3 anos em regime semiaberto.

A investigação contra a estudante começou depois que uma colega de faculdade registrou um boletim de ocorrência na polícia. Alicia teve o seu sigilo bancário quebrado, de modo que foi possível rastrear o uso dado a parte do dinheiro.

Segundo a polícia, ela comprou um IPad Pro de R$ 6.000, alugou um apartamento por R$ 3.700 durante cinco meses (incluindo o valor do condomínio) e alugou um carro por R$ 2.000. “São 110 alunos que se esforçaram para entrar na faculdade de medicina da USP e agora estão vendo esse sonho [da formatura] correndo risco”, afirmou em janeiro de 2023 a delegada Zuleika Gonzalez Araújo.

Em depoimento à polícia, Alicia disse que o dinheiro não estava sendo bem gerido pela empresa contratada para cuidar da formatura e que resolvera administrá-lo por conta própria, mas que acabou fazendo péssimas aplicações financeiras, perdendo valores. Ela disse ainda que tentou recuperar os recursos fazendo apostas em uma casa lotérica.

De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público à Justiça, a então estudante telefonou para a lotérica Oriundi, onde habitualmente fazia apostas e, aproveitando-se da relação de confiança que desenvolvera com a gerente do estabelecimento, solicitou a realização de jogos no valor de R$ 890 mil. Parte das apostas (R$ 192,9 mil) já havia sido realizada pela lotérica quando a empresa notou que ela não fez o pix prometido para o pagamento.

O promotor Vagner Queiroz disse à Justiça que se tratou de uma “conduta fraudulenta”.

Ao condenar a jovem, a juíza Adriana Costa afirmou que “ficou evidenciado o dolo da ré em induzir a gerente da lotérica em erro”. A magistrada não aceitou a alegação de que a jovem possui problemas psicológicos, entre os quais o vício em jogos, o que tornariam seus atos impulsivos e incontroláveis. Ela citou um laudo que atestou que a ex-aluna tinha plena consciência de seus atos e, portanto, é imputável.

O advogado Sérgio Giolo, que representa a ex-estudante, disse que vai recorrer da decisão. “No momento, não é adequado comentar o mérito da acusação, especialmente porque há recursos pendentes e medidas em curso perante instâncias superiores, que discutem nulidades relevantes do processo”, afirmou ele.

Na defesa apresentada à Justiça, Alicia disse que o perito ignorou toda a documentação médica da época dos fatos e que houve cerceamento de defesa. Disse que não houve estelionato, uma vez que a casa lotérica não foi enganada.

Segundo a defesa, “houve operação de crédito de alto risco, consentida e estimulada pelo estabelecimento comercial em busca de lucro”.

“Ao permitir que a ré [Alicia] realizasse apostas vultosas ‘a crédito’, sem a devida cobertura de fundos, a lotérica não foi vítima de uma fraude, mas sim de sua própria negligência grosseira e ganância”, declarou a defesa à Justiça.

O advogado Sérgio Giolo disse na ação que a conduta da ré, quando ainda era estudante, foi subproduto de uma patologia psiquiátrica grave.

“Conforme provam os históricos de apostas do site Sorte Online, a ré movimentou a cifra astronômica de R$ 572.932,90 em plataformas digitais no mesmo período dos fatos. Tais dados provam que não havia um plano para lesar especificamente a lotérica vítima, mas sim um colapso financeiro e mental decorrente da ludopatia [vício em jogo]”, disse a defesa à Justiça. “Não houve atos criminosos planejados.”

O Ministério Público afirmou na ação que Alicia tentava se “safar” das consequências dos seus atos alegando possuir problemas psicológicos e estranhou que ela, diante desse quadro, tenha condições de trabalhar como médica.

“De um lado a ré vem aqui alegar possuir problemas psiquiátricos para minimizar as consequências de seus atos”, afirmou à Justiça o promotor Vagner Queiroz. “De outro, vai consultar pessoas doentes, prescrever remédios e atuar como se nada desses problemas psicológicos e psiquiátricos realmente existissem.”