CONSUMO

Menos cerveja, hambúrguer e Miojo: brasileiros fazem compra mais saudável no supermercado

Suplemento para academia dispara 440% em 3 anos; supermercado Carrefour inaugura área de proteicos

Menos cerveja, hambúrguer e Miojo: brasileiros fazem compra mais saudável no supermercado (Foto: Agência Brasil)
Menos cerveja, hambúrguer e Miojo: brasileiros fazem compra mais saudável no supermercado (Foto: Agência Brasil)

(Folhapress) Garantir alimentos saudáveis e, ao mesmo tempo, práticos, cujo preço não extrapole o orçamento. Esta tem sido a missão do brasileiro no supermercado, de acordo com a consultoria Scanntech, especialista em inteligência de dados e tecnologia para o varejo. As proteínas e os alimentos in natura têm avançado sobre os carboidratos industrializados nos últimos quatro anos.

Levantamento feito pela Folha de S. Paulo aponta que a busca por produtos saudáveis se consolidou nos últimos anos. Segundo Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech Brasil, há maior maior conscientização sobre o papel da alimentação no bem-estar, fruto inclusive de mais pesquisas envolvendo o assunto no pós-pandemia. O movimento foi reforçado pela adoção recente da lupa na embalagem dos produtos, que começou a indicar altos índices de sódio, gordura e açúcar, diz.

Menos cerveja, hambúrguer e Miojo: brasileiros fazem compra mais saudável no supermercado (Foto: Agência Brasil)

Entre 2022 e 2025, perdem espaço categorias como massa instantânea (o popular Miojo, com queda de 16,6% em volume), açúcar (-14,2%), hambúrguer (-11,2%), suco pronto (-11%), margarina (-10,2%), biscoito (10,1%) e cerveja (6,8%). Em contrapartida, crescem água (aumento de 59,6% em volume), frutas in natura (+33,9%), ovo (+24,3%), sardinha enlatada (+19,6%), queijo (+17,3%), legume (+15,6%), frango in natura (+15,4%) e verdura (+7,3%).

“Os perecíveis foram a única cesta de produtos que cresceu em vendas no ano passado, puxada por proteínas, frutas, legumes e verduras”, diz Priscila, que também chama a atenção para o advento das canetas emagrecedoras, que vêm mudando o consumo de alimentos. “Com o GLP-1 [princípio ativo das canetas emagrecedoras], o foco no consumo de fibras e proteínas se torna ainda maior”, afirma a executiva, lembrando que esses alimentos contribuem para o aumento da saciedade, controle da glicemia e manutenção da massa muscular.

Foto: Agência Brasil

Fundada no Uruguai, a Scanntech chegou ao Brasil há cerca de 12 anos. A consultoria atende a indústria medindo as vendas a partir dos tíquetes de compra. “Hoje temos R$ 970 bilhões ao ano em vendas ao consumidor, o equivalente a 70% do total do canal alimentar no Brasil”, diz Priscila. No levantamento, a pesquisa projetou os dados para 100% do canal alimentar.

A busca pela alimentação saudável acompanha o maior interesse pela prática de esportes e exercícios físicos, também uma tendência acelerada no pós-pandemia. Embora pouco representativos dentro das vendas totais, os suplementos para academia (whey protein e creatina) foram os itens que mais cresceram nos últimos três anos no varejo alimentar, com uma disparada de 440% no consumo.

“Até 2022, era mais difícil conseguir entrar nos supermercados. Mas a maior conscientização sobre saúde, exercício físico e alimentação nos ajudou a abrir esse espaço”, diz Alberto Moretto, sócio fundador do Grupo Supley, dono de marcas de suplementos como Max Titanium, Probiótica e da pasta de amendoim e snacks Dr. Peanut. Em três anos, o varejo alimentar passou a representar 20% das vendas do grupo, que somaram R$ 1,1 bilhão no ano passado.

Foto: Agência Brasil

O Supley fez adaptações para levar seu portfólio para as gôndolas: em vez das embalagens de mais de dois quilos de whey protein, comuns em lojas especializadas, foram apresentadas versões de 900 gramas. Ainda assim, o preço é proibitivo para a maioria: um quilo de whey custa mais do que um quilo de picanha. “A matéria-prima do whey é de difícil obtenção, porque vem do soro do queijo mozarela. São necessários cerca de 900 litros de soro para fabricar um quilo de whey protein”, diz Moretto.

Segundo Marco Alcolezi, diretor de operações hiper, super e proximidade do Carrefour, a categoria de alimentos saudáveis (integrais, orgânicos, sem lactose, sem glúten etc.) vem crescendo dois dígitos nos últimos anos e impulsionou a marca própria Viver Bem. “Mas o consumo de produtos proteicos e energéticos sem açúcar, voltado ao público que faz musculação e quer aumentar a massa magra, escalou a tal ponto de abrirmos um novo espaço no Carrefour do Anália Franco, reunindo os saudáveis e os proteicos.”

A seção “Viver Bem”, recém-inaugurada na loja do shopping de classe média alta na zona leste de São Paulo, ocupa um corredor onde estão cerca de 1.200 itens, desde produtos zero açúcar, orgânicos e naturais, até suplementos alimentares, de diversas marcas. A ideia é criar espaços semelhantes em outras unidades do grupo.

Foto: Agência Brasil

“Alimentos da mercearia básica, como arroz, feijão, óleo e açúcar, realmente vêm diminuindo em consumo”, diz Alcolezi. “Mas a categoria FLV [frutas, legumes e verduras] cresce, assim como as vendas de peixe, tanto fresco quanto congelado”‘, afirma. Nos últimos quatro anos, a área destinada aos perecíveis nas lojas do Carrefour avançou 14%. Em número de itens, a categoria aumentou 8%.

O executivo destaca, porém, que o brasileiro reserva espaço para as “indulgências”, produtos como chocolates e biscoitos especiais. “Parece incongruência, mas estes itens também têm consumo garantido”, diz. A diretora da Scanntech concorda. “As pessoas consomem menos esses tipos de produto, mas com mais qualidade, o que leva a uma ‘premiunização’, ou seja, eu vou comprar pouco, mas vou levar o melhor”, diz Priscila. Nesse sentido, aumenta o consumo de balas e pirulitos (+25%) e goma de mascar (+25%) —esta última envolvendo também versões sem açúcar.

A pesquisa também identificou a falta de tempo ou disposição do público para cozinhar: o consumo de refeições prontas (compradas nas rotisserias dos estabelecimentos) mais do que dobrou, com alta de 105,7%, além de tortilhas e massas para wraps (+60,4%) e pratos prontos (+20,4%). “Mas não é qualquer comida pronta que cresce, porque lasanha e hambúrguer, por exemplo, retraem”, diz ela.

Embora o brasileiro goste de “comida de verdade”, diz, indo na contramão dos ultraprocessados, o consumo de arroz e feijão vem caindo. “Se o consumidor vai para a cozinha, quer fazer uma comida diferente, não a de todo dia”, afirma.

Segundo dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o consumo de arroz e feijão caiu 30% nos últimos 30 anos. “Essa retração acelerou nos últimos quatro anos, por conta de novos hábitos envolvendo praticidade e famílias menores”, diz.

Há também casos de diminuição no consumo fundamentadas no preço, como café (-5,2%) e leite de caixinha (-10,6%).

No geral, a venda de itens de mercearia básica caiu 8% no intervalo entre 2022 e 2025, enquanto os perecíveis avançaram 5,7%. Em bebidas, a venda das alcoólicas caiu 6,7% em volume, com destaque para a cerveja, enquanto as não alcoólicas cresceram 8,3%. Nesta última categoria, os refrigerantes também crescem, mas puxados pelas versões sem açúcar.