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Padre que se tornou o primeiro pastor evangélico do Brasil foi preso e morreu na noite de Natal; conheça a história

José Manuel da Conceição abandonou o sacerdócio e se converteu ao presbiterianismo

José Manuel da Conceição abandonou o sacerdócio e se converteu ao presbiterianismo padre que se tornou o primeiro pastor evangélico do Brasil
Imagem: Reprodução/ChatGPT

Há cerca de 160 anos, o Brasil viveu um marco histórico na religião: pela primeira vez, um padre católico nascido no país abandonava a batina e se tornava pastor evangélico, abrindo caminho para a nacionalização do protestantismo. Esse personagem foi José Manuel da Conceição, nome central na história da fé no país.

Ordenado pastor presbiteriano em 1865, Conceição não apenas rompeu com a Igreja Católica, como se tornou símbolo da liberdade religiosa, em um período em que o catolicismo ainda era oficial no Império do Brasil.

Infância católica e primeiros questionamentos

Nascido em 1822, na cidade de São Paulo, José Manuel da Conceição cresceu em uma família católica simples. Ainda criança, mudou-se para Sorocaba, onde teve contato com a religiosidade popular da época. Incentivado por um tio-avô sacerdote, aprendeu a ler e escrever e passou a demonstrar interesse pelo sacerdócio católico.

Nos anos 1840, ao retornar a São Paulo para estudar teologia, teve contato com imigrantes europeus protestantes, principalmente ingleses e alemães, que se destacavam pela leitura frequente da Bíblia. Essa convivência despertou os primeiros questionamentos sobre as doutrinas católicas.

Padre católico visto como ‘heterodoxo’

Ordenado padre católico em 1845, Conceição passou a atuar no interior paulista. Desde o início, chamou atenção por incentivar a leitura direta da Bíblia e demonstrar pouco apego a rituais tradicionais, atitudes vistas como incomuns à época.

Transferido por diversas cidades — como Limeira, Piracicaba, Taubaté, Ubatuba e Brotas — passou a ser rotulado por fiéis como “padre protestante” ou até “padre louco”, devido às críticas à veneração de imagens e à defesa de ideias próximas ao protestantismo.

Rompimento com a Igreja Católica

A crise se intensificou ao longo dos anos. Influenciado por obras de teologia reformada e pelo contato com missionários estrangeiros, José Manuel da Conceição passou a rejeitar pontos centrais do catolicismo, como o celibato obrigatório, a intermediação do padre na confissão e a ideia de que boas obras seriam necessárias para a salvação.

Em 1864, ele rompeu oficialmente com a Igreja Católica e deixou a batina. Pouco depois, foi batizado como presbiteriano, marcando sua conversão pública ao protestantismo.

O primeiro pastor evangélico brasileiro

Em 17 de dezembro de 1865, Conceição foi ordenado pastor evangélico, tornando-se o primeiro brasileiro a ocupar oficialmente esse posto. Até então, as igrejas protestantes no país eram lideradas quase exclusivamente por missionários estrangeiros.

A data de sua ordenação é celebrada até hoje como o Dia do Pastor Presbiteriano.

Pregador itinerante e perseguições

Diferente do padrão da época, Conceição optou por não assumir uma paróquia fixa. Tornou-se um pastor itinerante, percorrendo cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — muitas vezes a pé — distribuindo Bíblias e pregando em português.

Sua condição de brasileiro facilitava a comunicação com os fiéis, mas também o expunha a preconceito, hostilidade e até agressões físicas, especialmente por parte de setores católicos que viam o protestantismo como ameaça.

Morte trágica no dia de Natal

Aos 51 anos, debilitado fisicamente pelas longas viagens, Conceição seguia para o Rio de Janeiro quando foi confundido com um mendigo e preso por vadiagem. Libertado dias depois, sem recursos, acabou passando mal e morreu em 25 de dezembro de 1873, dia de Natal, em uma enfermaria, sem ser reconhecido.

Legado histórico e religioso

Apesar do fim trágico, José Manuel da Conceição deixou um legado duradouro. Sua conversão abriu caminho para outros ex-padres que se tornaram pastores e ajudou a consolidar um protestantismo com identidade brasileira, rompendo a exclusividade estrangeira nas lideranças evangélicas.

Hoje, ele é lembrado como um personagem-chave da história religiosa do país e um símbolo da pluralidade de fé no Brasil.

*Com informações da BBC