MANIFESTAÇÃO

Pedalada Pelada na Paulista protesta contra invisibilidade do ciclista

Ato integra movimento mundial que chama atenção para a fragilidade da bicicleta no trânsito

Pedalada Pelada na Paulista protesta contra invisibilidade do ciclista
Pedalada Pelada na Paulista protesta contra invisibilidade do ciclista (Foto: Reprodução - @massacriticasp)

SÃO PAULO (FOLHAPRESS) – Sob o céu da noite paulistana, dezenas de ciclistas nus tomaram a avenida Paulista na noite deste sábado (14) para um protesto contra a fragilidade deles no trânsito.

O grupo partiu por volta das 21h da praça Marechal Cordeiro de Farias com gritos de “assim você me vê” e “obsceno é o trânsito”, com escolta da Polícia Militar e um ato na região do Masp (Museu de Arte de São Paulo).

O ato, batizado de Pedalada Pelada, tem uma organização que chamam de horizontal e é realizado anualmente, integrando um movimento mundial que chama atenção para a vulnerabilidade dos ciclistas em meio ao trânsito, o World Naked Bike Ride. Há eventos do tipo na Austrália, no Japão, nos Estados Unidos e em países da Europa.

Hugo Faz, 41, artista de performance, foi o primeiro ficar totalmente nu na praça Marechal. Ele participa do evento desde 2018. “Na minha visão, o corpo nu, por ser um corpo proibido na lei na, cultura e na religião, é um veículo para contar histórias de forma mais eficaz para as pessoas”, diz.

Além da própria pele, Faz vestia também um tênis de corrida e uma pintura corporal. Frases que pediam mais respeito aos ciclistas e uma atenção ao corpo eram comuns. “Pelado coberto de razão” e “O que pode um corpo?” podiam ser lidas nas costas dos ciclistas.

Apesar de a nudez ser encorajada, não é obrigatória para o evento. Com a maioria dos participantes homens, as poucas mulheres participantes usavam shorts e protetores de mamilos nesta edição. Por vergonha ou privacidade, havia também homens nus com máscaras que cobriam seus rostos, e outros totalmente vestidos, o caso de Luciano Ferreira, 40.

Em sua segunda participação, diz que participa pela importância do ciclismo na sua vida pessoal e profissional. “A minha profissão é essa, trabalho de vigilante na ronda e na ciclofaixa da prefeitura, e vivo a bicicleta 24 horas por dia”, afirma.

Apesar de totalmente trajado, Ferreira e os demais participantes acreditam que, sem roupas, os ciclistas se tornam mais visíveis para os motoristas —que, então, tendem a manter distância mais segura e reduzir a velocidade.

O trajeto, passando pela rua Augusta e retornando à praça Marechal Cordeiro de Farias, é feito sem pressa em uma hora e meia.

O movimento também acaba abraçando outras causas. Yoshio Tanaka, 45, se diz ativista em prol dos ciclistas, mas muito mais em prol do nudismo. “Eu luto por espaços na cidade para a prática do nudismo urbano”, diz ele, dono de um hostel nudista localizado no Ipiranga.

Autista de nível de suporte 1, ele diz que tem hiperssensibilidade tátil. “Já tentei procurar o poder público para ter um lugar em que eu possa ficar tranquilo ao ar livre”, afirma Tanaka, que participou também no ano passado.

Para o evento, ele levou a amiga Ágata Ignácio, 32. Do Paraná, ela diz ter dado a sorte de estar em São Paulo para o ato. “É uma oportunidade única”, afirma. Mas confessa: “Eu cheguei e perguntei: não sei exatamente pelo quê a gente está lutando.”

Apesar da tranquilidade do movimento em geral, alguns pontos de tensão existiram entre a Polícia Militar e os participantes antes do ato. Agentes chegaram a perguntar para os participantes quem estava organizando o evento, e informaram à reportagem que não foram avisados oficialmente antes.

A resposta geral para isso, dentre os participantes, é que o administrador da página do Instagram Massa Crítica SP faz a divulgação, mas que não há um organizador específico para o evento.

“Tem mais gente do que no ano passado”, diz a artista Veruska Reis, que não quis informar a idade. “Independentemente de a gente poder ou não, tem essa tal da família que deve estar achando um horror. Mas não é um horror. Nascemos sem roupa e vamos continuar sem roupa”, afirma.