Pesquisadora da Embrapa está na lista das 100 pessoas mais influentes da Time
Mariangela Hungria, vencedora do "Nobel da Agricultura" em 2025, se une a outros dois brasileiros reconhecidos pela publicação.
A pesquisadora brasileira Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, em Londrina (PR), foi incluída na lista TIME100 2026, divulgada na quarta-feira (15), pela revista americana Time. A seleção anual reconhece as 100 pessoas mais influentes do mundo, destacando impacto, inovação e conquistas de personalidades mundiais. Mariangela integra a categoria Pioneiros — reservada a quem redefine paradigmas em sua área de atuação.
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A presença dela reforça o papel da ciência brasileira no cenário internacional, especialmente em temas ligados à sustentabilidade e à produção de alimentos. Além de Mariangela, outros dois brasileiros integram a lista de 2026: o ator Wagner Moura, na categoria Ícones, e o pesquisador Luciano Moreira, da Fiocruz, reconhecido por contribuições científicas.
A tecnologia que mudou a soja brasileira
Agrônoma e microbiologista, Mariangela tem trabalhado com a Embrapa para desenvolver microrganismos do solo que permitem às plantas fixar o nitrogênio do ar de forma mais natural. Hoje, graças ao seu trabalho, 85% da soja brasileira é cultivada com esses microrganismos em vez de fertilizantes sintéticos.
As inovações científicas, utilizadas em todo o mundo, ajudaram os agricultores brasileiros a economizar uma estimativa combinada de US$ 25 bilhões por ano e a evitar a emissão de 230 milhões de toneladas métricas de CO₂ equivalente.
Em 2014, Mariangela lançou a tecnologia de coinoculação da soja, combinando as bactérias Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense, que promove ganhos adicionais em desenvolvimento vegetal e produtividade. Em pouco mais de uma década, a coinoculação passou a ser adotada em aproximadamente 35% da área cultivada de soja.
Para o milho, os resultados também são expressivos. O agricultor pode economizar cerca de 25% do uso de produtos químicos com o uso de biológicos, segundo a pesquisadora. As bactérias selecionadas pela equipe de Mariangela já foram desenvolvidas para diversas outras culturas, como feijão, trigo, arroz, cevada e pastagens de gramíneas.

Quem é Mariangela Hungria
Nascida em 6 de fevereiro de 1958, em São Paulo, e criada em Itapetinga (SP), Mariangela é engenheira agrônoma formada pela Esalq/USP, com mestrado em Solos e Nutrição de Plantas e doutorado em Ciência do Solo pela UFRRJ. Acumula ainda três pós-doutorados em universidades nos Estados Unidos e Espanha — Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla.
Em 1982, tornou-se pesquisadora da Embrapa, inicialmente na unidade de Agrobiologia, em Seropédica (RJ), e desde 1991 na Embrapa Soja, em Londrina (PR). Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, acumulou mais de 500 publicações científicas, participou do desenvolvimento de mais de 30 tecnologias e orientou mais de 200 estudantes de graduação e pós-graduação.
Mariangela considera a pesquisadora Johanna Döbereiner — pioneira na fixação biológica de nitrogênio na agricultura tropical — a mentora mais influente de sua carreira.
Reconhecimentos internacionais
A inclusão na TIME100 coroa uma sequência de prêmios e reconhecimentos nos últimos anos. Em 2025, foi laureada com o World Food Prize, conhecido como o Nobel da Agricultura, e foi indicada para a lista Time100 Climate na categoria Defensores. Também recebeu o título de Eminente Engenheira do Ano 2025 pelo Instituto de Engenharia e a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico.
Desde 2020, Mariangela está classificada entre os 100 mil cientistas mais influentes do mundo, de acordo com estudo da Universidade de Stanford (EUA). Em 2022, ocupou a primeira posição brasileira em Fitotecnia e Agronomia e em Microbiologia, no ranking do Research.com, resultado confirmado em 2025. Em 2026, entrou na lista Forbes que destaca 10 personalidades mundiais que personificam a liderança no agronegócio.
Orgulho coletivo
Ao comentar o reconhecimento da Time, Mariangela fez questão de dividir a conquista. “Estamos falando de um reconhecimento das pessoas mais influentes do mundo”, afirmou, ressaltando que a conquista ainda parece difícil de acreditar. Para ela, a valorização não é resultado apenas de sua trajetória individual, mas do trabalho desenvolvido na Embrapa, especialmente na área de insumos biológicos. “É um grande orgulho para a pesquisa brasileira, principalmente por um tema tão relevante: o uso de biológicos substituindo produtos químicos”, completou.
Para a pesquisadora, o reconhecimento reflete uma mudança global de percepção sobre práticas sustentáveis. “Isso mostra que o mundo considera importante produzir alimentos que promovam a saúde do solo e das pessoas, com menos resíduos químicos, dentro do conceito de saúde única”, afirma.
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