PSOL aciona MP após ataque transfóbico de deputada contra Erika Hilton
Eduarda Campopiano chamou a deputada federal de 'homem biológico'
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via O Globo – A deputada estadual eleita Sofia Favero (PSOL) apresentou ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP), nesta segunda-feira, uma representação contra a colega Eduarda Campopiano (PL) após um ataque direcionado à deputada federal Erika Hilton (PSOL). A ação, encaminhada ao Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância, aponta possíveis crimes de transfobia, injúria transfóbica e violência política de gênero. Em resposta, Erika afirmou que não pretende dar atenção à deputada do PL.
A representação foi motivada por uma publicação feita por Campopiano no X após a apuração das eleições de domingo. Na postagem, a deputada do PL marcou diretamente Erika Hilton e escreveu: “Oi Erika Hilton. Como é saber que um homem biológico nunca vai ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo?”.
Segundo a denúncia, a declaração nega deliberadamente a identidade de gênero de Erika, mulher trans e deputada federal, e utiliza essa condição para atacá-la no contexto político. A publicação ultrapassou 3 milhões de visualizações.
Para Sofia Favero, o episódio não se limita a uma crítica política ou ao exercício da liberdade de expressão. A representação sustenta que a fala pode configurar transfobia e injúria transfóbica e também caracteriza o episódio como possível violência política de gênero, por se tratar de um ataque dirigido à identidade de gênero de uma mulher que exerce mandato eletivo.
A deputada estadual eleita pelo PSOL pede que o MPSP instaure inquérito policial para apurar a conduta de Campopiano e eventual responsabilização criminal da parlamentar que, aos 23 anos, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com 1.956.238 votos. Ela superou, entre outros candidatos, Eduardo Suplicy (PT), que recebeu 653.753 votos.
— O que essa garota quer é atenção e não vou dar isso pra ela. Minha deputada estadual eleita, Sofia Favero, já está cuidando disso e adotou as medidas necessárias na Justiça Criminal — disse Erika Hilton.
A candidata do PSOL foi reeleita deputada federal com 1.596.472 votos, tornando-se a mulher mais votada. Na disputa pelas vagas da Câmara para os deputados de São Paulo ficou atrás apenas de Lucas Pavanato, do PL, que recebeu 3.038.438 votos.
Representação cita violência política de gênero
A ação apresentada por Sofia Favero cita dispositivos do Código Penal e do Código Eleitoral relacionados à violência política contra mulheres.
O artigo 359-P do Código Penal criminaliza a violência empregada para restringir ou dificultar o exercício de direitos políticos em razão, entre outros fatores, do sexo. A pena prevista é de três a seis anos de prisão.
Já o artigo 326-B do Código Eleitoral estabelece punição para atos de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça contra candidata ou detentora de mandato quando praticados mediante menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A pena prevista é de um a quatro anos de prisão, além de multa.
A representação também cita o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que equiparou a homotransfobia ao crime de racismo. Para Favero, o ataque não atinge apenas Erika Hilton individualmente, mas também reforça a discriminação contra mulheres trans e travestis.
O documento ainda menciona a definição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para violência política contra a mulher: ação, conduta ou omissão destinada a impedir, obstaculizar ou restringir seus direitos políticos, inclusive em razão do gênero.
Quem é Eduarda Campopiano
Natural de Campinas, Eduarda Campopiano ganhou projeção nas redes sociais a partir de 2021, quando passou a divulgar suas posições políticas. Filiada ao PL, também atuou como comentarista do programa “Linha de Frente”, da Jovem Pan.
Em 2024, foi eleita vereadora de Praia Grande, no litoral de São Paulo, com 3.589 votos, ficando na quarta colocação entre os candidatos mais votados.
A parlamentar mantém atuação pública marcada pela oposição a pautas e candidatos de esquerda, pela defesa da criminalização do aborto e por críticas ao movimento feminista. Em publicações nas redes sociais, já se definiu como a “inimiga número um das feministas”.
Em 2025, Campopiano foi autora de um projeto de lei que prevê a vedação da nomeação ou contratação, para determinados cargos e empregos públicos, de pessoas condenadas por crimes sexuais contra crianças ou adolescentes.
A assessoria da deputada estadual eleita afirmou que a publicação direcionada a Erika Hilton se tratou de “uma manifestação provocativa realizada no contexto de debate político nas redes sociais, sem qualquer intenção de promover discriminação, violência ou hostilidade a qualquer pessoa”.
A equipe de Eduarda Campopiano também disse que eventuais questionamentos jurídicos acerca da publicação “serão enfrentados pelos meios processuais adequados, com respeito às instituições e ao devido processo legal” e que, como o departamento jurídico ainda não foi formalmente notificado e não teve acesso integral aos autos, “não haverá manifestação específica sobre o mérito da representação antes do conhecimento de seu conteúdo”.