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Binge drinking: 4 doses no fim de semana podem triplicar risco ao fígado, diz pesquisa

Pesquisa pode mudar interprestação de médicos sobre padrões de consumo que podem causar doenças hepáticas; entenda

Binge drinking, excesso de consumo esporádico de álcool, aumenta risco sobre o fígado em até três vezes - foto mostra pessoas em brinde com drinks destilados
Binge drinking, excesso de consumo esporádico de álcool, aumenta risco sobre o fígado em até três vezes (Foto: Magnific/reprodução)

Beber apenas aos fins de semana não elimina os riscos à saúde do fígado. Pelo contrário: ingerir quatro doses ou mais em um único dia já pode triplicar as chances de desenvolver lesões hepáticas, segundo pesquisa da Escola de Medicina Keck, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Esse padrão de consumo de álcool, conhecido como binge drinking, pode oferecer perigo mesmo a quem escolhe apenas um dia do mês para estravazar.

O estudo, publicado na revista científica Clinical Gastroenterology and Hepatology, analisou pacientes com esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASLD), condição conhecida como gordura no fígado e relacionada a fatores como obesidade e diabetes. O foco dos pesquisadores foi entender como o padrão de consumo de álcool — e não apenas a quantidade total — influencia o avanço da doença.

Homens e jovens são os que mais relatam comportamento binge drinking (Foto: Magnific/reprodução)

‘binge drinking’ x riscos ao fígado

Os resultados mostram que o chamado consumo episódico excessivo de álcool, caracterizado por quatro ou mais doses em um dia para mulheres e cinco ou mais para homens, está diretamente associado a um risco maior de fibrose hepática. Esse tipo de lesão corresponde à formação de cicatrizes no fígado e pode evoluir para quadros graves, como cirrose e insuficiência hepática.

Mesmo quando esse padrão ocorre apenas uma vez por mês, o impacto já é significativo. De acordo com os dados, indivíduos que concentram o consumo em um único dia apresentam até três vezes mais risco de desenvolver fibrose hepática avançada em comparação com aqueles que ingerem a mesma quantidade total de álcool de forma distribuída ao longo do tempo.

Visão sobre consumo de álcool

“Este estudo é um grande alerta porque, tradicionalmente, os médicos tendem a considerar a quantidade total de álcool consumida, e não a forma como ele é consumido, ao determinar o risco para o fígado. Nossa pesquisa sugere que o público precisa estar muito mais ciente do perigo do consumo excessivo ocasional de álcool e deve evitá-lo, mesmo que beba moderadamente no restante do tempo”, afirma Brian P. Lee, hepatologista e especialista em transplante de fígado da Keck Medicine e pesquisador principal do estudo, em nota.

A análise também identificou que homens e adultos mais jovens estão entre os que mais relatam esse tipo de comportamento. Além disso, o risco é progressivo: quanto maior o número de doses consumidas de uma só vez, maior a probabilidade de desenvolvimento de fibrose hepática.

Metodologia da pesquisa

Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram dados de mais de 8 mil adultos coletados entre 2017 e 2023 pela Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição dos Estados Unidos. A MASLD foi o foco central por sua alta prevalência, especialmente entre pessoas com excesso de peso, obesidade ou condições metabólicas como diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol elevado.

Mais da metade dos participantes relatou episódios de consumo excessivo de álcool, enquanto cerca de 16% tinham diagnóstico de MASLD. Os pesquisadores compararam esses indivíduos com outros pacientes de perfil semelhante — mesma idade, sexo e consumo médio semanal — variando apenas o padrão de ingestão. Aqueles que concentravam o consumo em um único dia apresentaram risco três vezes maior de fibrose avançada.

4 doses oferece sobrecarga

Segundo Lee, ingerir grandes quantidades de álcool em curto período pode sobrecarregar o fígado e intensificar processos inflamatórios, favorecendo a formação de cicatrizes e danos progressivos ao órgão. Ele ressalta que o alerta não se restringe a quem já tem doença hepática.

“Com mais da metade dos adultos relatando algum consumo episódico excessivo de álcool, essa questão merece mais atenção tanto de médicos quanto de pesquisadores para ajudar a entender melhor, prevenir e tratar a doença hepática”, conclui.

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