Hospital Anchieta

Seringas com desinfetante; o que se sabe sobre as mortes em hospital no DF

Três pacientes morreram após piora súbita em UTI em Taguatinga; outras mortes são investigadas

Três pacientes morreram após piora em UTI em Taguatinga Seringas de desinfetante; o que se sabe sobre as mortes em Hospital Anchieta no DF
Imagem: Reprodução

A Polícia Civil do Distrito Federal prendeu três técnicos em enfermagem suspeitos de envolvimento em três homicídios ocorridos na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga. As vítimas, com idades de 75, 63 e 33 anos, morreram entre novembro e dezembro de 2025 após apresentarem piora súbita do quadro clínico, o que levantou suspeitas dentro da própria unidade hospitalar.

Duas prisões foram realizadas no dia 12 de janeiro, e a terceira ocorreu no dia 15. A motivação dos crimes ainda é investigada, e o caso segue em segredo de Justiça.

Hospital identificou irregularidades e acionou a polícia

Segundo o Hospital Anchieta, as mortes chamaram atenção após a identificação de circunstâncias atípicas em três óbitos ocorridos em um intervalo curto de tempo na UTI. A instituição afirma que instaurou, por iniciativa própria, um comitê interno de análise.

Em menos de 20 dias, o hospital diz ter encontrado evidências envolvendo técnicos de enfermagem, promovido a demissão dos funcionários e comunicado o caso às autoridades policiais.

Aplicação irregular de medicamento e desinfetante na veia

As investigações indicam que os pacientes morreram após a aplicação irregular de medicamentos e, em pelo menos um dos casos, injeção direta de desinfetante na veia. O principal suspeito é um técnico de enfermagem de 24 anos.

De acordo com o delegado Wisllei Salomão, da Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), o medicamento utilizado, quando administrado fora dos protocolos médicos, pode provocar parada cardíaca em poucos segundos. O nome da substância não foi divulgado.

Suspeito teria usado 13 seringas com desinfetante

Em entrevista ao Jornal Nacional, o delegado afirmou que, em um dos casos, após o medicamento acabar, o suspeito teria recorrido a um desinfetante retirado da pia do leito da paciente.

“Ele injetou cerca de quatro vezes o medicamento. A vítima teve seis paradas cardíacas. Como ela não faleceu e o medicamento havia acabado, ele utilizou um desinfetante. Encheu cerca de 13 seringas e injetou diretamente na veia da paciente, o que causou o óbito”, relatou Salomão.

Quem são as vítimas

As vítimas tinham idades, histórias e quadros clínicos distintos, mas, segundo os investigadores, todas apresentaram deterioração repentina antes da morte.

  • Miranilde Pereira da Silva, 75 anos – professora aposentada da rede pública do DF, moradora de Taguatinga. Morreu em 17 de novembro de 2025.
  • João Clemente Pereira, 63 anos – servidor da Caesb, supervisor de manutenção, morador do Riacho Fundo I.
  • Marcos Raymundo Fernandes Moreira, 33 anos – funcionário dos Correios, morador de Brazlândia, morreu em 1º de dezembro de 2025.
Três vítimas em hospital particular no Distrito Federal — Foto: Reprodução/JN

Como o técnico em enfermagem agia

A Polícia Civil afirma que as prisões se baseiam em imagens de câmeras de segurança, análise de prontuários médicos e laudos periciais.

Segundo a diretora do IML, Márcia Reis, o que chamou atenção foi a ausência de agravamento progressivo do estado de saúde das vítimas. Em todos os casos, houve piora súbita, seguida de parada cardíaca.

A investigação aponta ainda que o suspeito realizava massagem cardíaca para simular tentativas de reanimação diante da equipe médica.

Uso indevido do sistema hospitalar

De acordo com o delegado Salomão, o técnico acessou o sistema hospitalar que estava aberto na conta de um médico, prescreveu o medicamento de forma irregular, buscou a substância na farmácia e a escondeu no jaleco antes da aplicação.

A polícia investiga se ele sabia a senha do médico ou se apenas aproveitou o sistema aberto.

Conivência de duas colegas de trabalho

Outras duas técnicas de enfermagem, de 22 e 28 anos, também foram presas. Segundo a polícia, elas estavam presentes durante as aplicações e teriam acobertado a ação criminosa.

Uma delas teria auxiliado na retirada do medicamento na farmácia, enquanto as imagens das câmeras mostram ambas vigiando a porta dos quartos para impedir a entrada de outras pessoas.

Outras mortes podem ser investigadas

A Polícia Civil apura se há outros casos semelhantes em hospitais públicos e privados onde os suspeitos trabalharam nos últimos cinco anos.

Segundo Leandro Oliveira, diretor da divisão de perícias internas, cerca de 20 laudos estão sendo analisados para reconstruir uma linha do tempo detalhada.

O Coren-DF informou que acompanha o caso e adotará as medidas cabíveis dentro de suas atribuições.

O que diz o Hospital Anchieta

Em nota, o hospital afirmou que entrou em contato com as famílias das vítimas para prestar esclarecimentos e reforçou que o caso corre em segredo de Justiça, o que impede a divulgação de mais informações ou a identificação formal dos acusados.

A instituição declarou ainda que colabora integralmente com as autoridades para garantir a apuração completa dos fatos.