Sábado, 08 de Agosto de 2026
SAÚDE

Vírus da herpes já infectavam humanos há mais de 2.000 anos, indica DNA antigo

Estudo foi conduzido por equipes da Universidade de Viena e da Estônia

Da Redação
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Vírus da herpes já infectavam humanos há mais de 2.000 anos, indica DNA antigo

Pesquisadores europeus identificaram, pela primeira vez, genomas antigos de herpesvírus humanos preservados no DNA de esqueletos com mais de 2.000 anos. O achado confirma que esses vírus já circulavam entre populações humanas desde pelo menos a Idade do Ferro. O estudo foi conduzido por equipes da Universidade de Viena e da Universidade de Tartu, na Estônia, e publicado na revista Science Advances.

A análise permitiu a reconstrução dos genomas dos beta-herpesvírus humanos 6A e 6B (HHV-6A e HHV-6B) a partir de restos arqueológicos. Os resultados indicam que os dois vírus seguiram trajetórias evolutivas distintas ao longo do tempo: o HHV-6A parece ter perdido cedo a capacidade de se integrar ao DNA humano, enquanto o HHV-6B manteve essa característica.

O HHV-6B infecta a maioria das crianças antes dos dois anos de idade e está associado à roséola, conhecida como “sexta doença”. Após a infecção inicial, o vírus pode permanecer latente no organismo por toda a vida.

Uma das características desses vírus é a capacidade de inserir seu material genético nos cromossomos humanos. Em situações raras, essa integração pode ser transmitida de pais para filhos, passando a fazer parte do genoma herdado. Estima-se que cerca de 1% da população mundial carregue essas cópias virais em todas as suas células.

Para investigar a antiguidade desse processo, um consórcio internacional analisou cerca de 4.000 amostras de esqueletos humanos de diferentes sítios arqueológicos da Europa. A partir desse conjunto, foram identificados 11 genomas antigos de herpesvírus. O mais antigo pertencia a uma menina que viveu na Itália entre 1100 e 600 a.C., durante a Idade do Ferro. Outros genomas foram encontrados em restos mortais da Inglaterra, Bélgica, Estônia, Rússia e Itália de períodos posteriores.

Alguns indivíduos na Inglaterra apresentaram formas hereditárias do HHV-6B, representando os registros mais antigos conhecidos de herpesvírus humanos integrados aos cromossomos. No sítio belga de Sint-Truiden, os pesquisadores observaram a presença simultânea dos dois tipos virais em uma mesma comunidade.

“Embora o HHV-6 infecte quase 90% da população humana em algum momento da vida, apenas cerca de 1% carrega o vírus, herdado dos pais, em todas as células do corpo. Esse 1% é o grupo com maior probabilidade de possuir DNA ancestral, o que torna a busca por sequências virais consideravelmente mais difícil”, afirmou Meriam Guellil, da Universidade de Viena. “Com base em nossos dados, a evolução do vírus remonta a mais de 2.500 anos na Europa, utilizando genomas do período entre os séculos VIII e VI a.C. até os dias atuais”, acrescentou.

A comparação entre os genomas antigos e dados genéticos atuais permitiu identificar os locais exatos de integração dos vírus nos cromossomos humanos e mostrou que algumas dessas inserções ocorreram há milhares de anos, sendo transmitidas por muitas gerações.

“A presença de uma cópia do HHV-6B no genoma tem sido associada à angina e a doenças cardíacas”, disse Charlotte Houldcroft, da Universidade de Cambridge. “Sabemos que essas formas hereditárias de HHV-6A e HHV-6B são mais comuns no Reino Unido hoje do que no restante da Europa, e esta é a primeira evidência de portadores de longo prazo na Grã-Bretanha.”

Os pesquisadores afirmam que os resultados representam a primeira evidência geneticamente datada de coevolução entre humanos e herpesvírus e mostram como o DNA antigo pode contribuir para o entendimento da história das doenças infecciosas. “Dados genéticos modernos sugerem que o HHV-6 pode ter evoluído com os humanos desde nossa migração da África”, disse Guellil. “Esses genomas antigos agora fornecem a primeira evidência concreta de sua presença no passado remoto da humanidade.”

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