Cibercriminosos anunciam venda de diplomas falsos em nome de universidades goianas
Diplomas podem chegar a R$ 1,9 mil, a depender do curso. Graduações fraudadas mais comuns são da área da saúde
Cibercriminosos têm se aproveitado da falta de segurança e fiscalização das plataformas digitais para vender diplomas falsos de graduação, pós-graduação e até mestrado por meio de espaços públicos e privados do WhatsApp, Facebook e Telegram. Os valores podem chegar a R$ 1,9 mil, a depender da instituição de ensino, curso escolhido e grau de graduação, conforme apurado pelo Mais Goiás ao longo de duas semanas.
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A reportagem teve acesso a grupos exclusivos voltados à venda e falsificação de documentos de graduação, que chegam a mais de 3 mil membros. Se passando por uma pessoa em busca do ensino superior nas áreas de Enfermagem e Direito, o Mais Goiás negociou diretamente com falsificadores de três Estados distintos. Bastou apenas uma mensagem questionando sobre a venda e a demora na entrega para ganhar a confiança dos criminosos.

“Para fazer a documentação, você precisa me passar os dados necessários. Faço toda a documentação, como histórico, ata e certificado. Te mostra ela pronta, o registro sendo feito no seu nome, as vias originais prontas para serem enviadas para o seu endereço. Depois disso, você faz o pagamento e eu envio tudo”, explica um dos criminosos em áudio de 22 segundos enviado ao Mais Goiás.
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Durante a conversa, os falsificadores justificam o preço e garantiram que o documento é validado pelo Ministério da Educação (MEC), inclusive, com publicação no Diário Oficial. O tempo exigido por eles para realizar todos os trâmites envolvidos as instituições de ensino é, em média, de três dias – contando com a entrega.
Dentro do período, é realizado o registro de participação do aluno, as notas e avaliações. Vale ressaltar que não é preciso fazer nenhuma prova ou comparecer à instituição de ensino solicitada, apenas pagar pelo documento.
“Não corre não [risco], amigão. Pode ficar tranquilo, tá? A gente tá nessa área aí já tem quase cinco anos. A documentação é toda original, toda registrada. É show de bola, cara. Tudo registrado, documentado. Apaguei aí porque é documentação de outro cliente, tem os dados pessoais”, explica o falsificador ao disponibilizar um diploma supostamente fraudado para ganhar a confiança do repórter.

Faculdades
Um outro criminoso, com quem a reportagem também negociou, foi ainda mais ousado: disponibilizou mais de 12 diplomas em PDF em graduações como Enfermagem, Gestão Hospitalar, Fisioterapia, Tecnologia em Gestão de Turismo, Engenharia Civil e Educação Física. Nos documentos, consta que os supostos compradores teriam se graduado entre 2022 e 2023.
Entre as instituições de ensino, cujo os diplomas foram supostamente fraudados, estão a Universidade Católica de Goiás (PUC) e a Universidade Paulista (UNIP), além de faculdades menos conhecidas. No caso da goiana, a suposta aluna teria concluído o ensino superior em Tecnologia em Gestão Comercial no dia 5 de dezembro de 2023.
Os diplomas enviados pelo criminoso possuem assinatura dos reitores e o QR Code de validação. Assim como o outro falsificador, ele garante:
“Nosso diplomas, certificados e registros profissionais são totalmente seguros e autenticados, adequados para apresentação em qualquer situação, como pós-graduação, oportunidades de emprego. Embora o processo de aquisição seja descomplicado, o documento é devidamente registrado e autenticado pelo MEC, validado em território nacional e internacional. O diploma conta com histórico acadêmico, certificado de detalhes de estágio acadêmico”, reforça.
Em nota, a PUC informou que adota todos os mecanismos de segurança determinados pelo Ministério da Educação. A UNIP, por outro lado, disse em nota que segue rigorosamente as determinações do MEC e que os documentos são criteriosamente avaliados, catalogados e checados (veja notas abaixo).

Crimes e punições
A venda de diplomas falsos é considerada falsificação de documento público, mesmo que o diploma provenha de instituição de ensino privada, conforme o advogado criminalista e presidente da Comissão de Segurança Pública e Política Criminal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Seção Goiás, Tadeu Bastos. A pena, conforme ele, pode chegar a seis anos de prisão.
Caso o certificado falso seja utilizado, além de responder pela falsificação, o agente deverá responder pelo crime de uso de documento falso, que é punido com a mesma pena da falsificação. Ou seja, além dos falsificadores, a pessoa que se beneficia da fraude também pode ser presa.
“Uma pessoa que não é apta para exercer determinada função, no caso de um advogado, está sujeita a anular todo o processo. Caso haja um processo em que ele ganhou, tudo será anulado e começado do zero. Há casos de estagiários e até falsos advogados que pegam processos. A OAB fiscaliza essa prática e, como penas, pode ser que haja a suspensão ou o banimento, além do processo criminal”, concluiu.

Nota PUC
“A PUC Goiás adota todos os mecanismos de segurança determinados pelo Ministério da Educação. Conforme a legislação, todo diploma possui um QR Code, que permite a validação no próprio site do Ministério. Qualquer pessoa de posse da imagem do diploma com o QR Code pode verificar sua autenticidade. Essa prática é muito importante para evitar ações criminosas e fraudulentas”.
Nota UNIP
“Desde o primeiro curso que instituiu, a Universidade Paulista-UNIP segue rigorosamente todas as determinações do Ministério da Educação.
No setor de diplomas, os documentos são criteriosamente avaliados, catalogados, checados, alimentados com códigos de segurança, tanto no ambiente presencial, como no virtual.
Quando temos informação de que a UNIP foi envolvida em uma situação irregular, fraudulenta, de má-fé, ou de qualquer outra natureza que prejudique os estudantes, os ex-alunos, os candidatos a ingresso e/ou a própria instituição, nós encaminhamos o assunto aos órgãos competentes.
Embora convicta de se manter atrelada à permanente busca de oferecer um excelente preparo dos estudantes para o mercado profissional; a UNIP, assim como tantas outras instituições de ensino, infelizmente por vezes acaba se tornando vítima de fraudes.
O que está a nosso alcance é sempre oferecer aos estudantes o melhor de todos nós, da UNIP. E esse melhor se traduz por ética, respeito, confiança, retidão”.