DISCRIMINAÇÃO

Colégio exige ‘católico’ para vaga de bibliotecário em Goiânia

Um colégio em Goiânia gerou polêmica após publicar o anúncio de uma vaga para bibliotecário…

Colégio exige ‘católico’ para vaga de bibliotecário em Goiânia
Colégio exige ‘católico’ para vaga de bibliotecário em Goiânia

Um colégio em Goiânia gerou polêmica após publicar o anúncio de uma vaga para bibliotecário que tem, entre os requisitos, ser católico. Por outro lado, a formação em Biblioteconomia é apenas “desejável”. O caso repercutiu entre grupos de profissionais da área, que também criticaram o valor que seria de R$ 2,5 mil, mais vale-transporte e vale-alimentação de R$ 200, além do horário e tarefas.

O bibliotecário Adilson Ribeiro de Sá Júnior foi um dos profissionais que se indignou com o anúncio. Ele foi procurado por uma recrutadora, que enviou a vaga e o surpreendeu, na segunda-feira (29). “Nós temos uma rede de bibliotecários em Goiânia e Goiás, e o anúncio começou a ser assunto. Começamos a discutir essas questões”, revela e diz que caso já foi levado ao Conselho Regional de Biblioteconomia da Região 1 (Centro-Oeste).

Segundo Adilson, a remuneração mínima para uma carga horária de 30 horas semanais é de R$ 3 mil, o que foge ao oferecido. Consta no anúncio: horário de segunda a sexta-feira, das 8h às 13h e das 14h às 17h, com possibilidade de flexibilização. Na formação, “desejável graduação em Biblioteconomia”. Já os requisitos: “Católico(a), com princípios éticos e morais bem definidos, espírito de equipe e postura colaborativa.”

O profissional terá um assistente para dividir as tarefas, que são: organização inicial da biblioteca; separação por temas; catalogação e etiquetagem; criação de etiquetas; apoio no ajuste do programa de gerenciamento junto ao programador; monitoramento de usuários; diálogo constante com coordenadores pedagógicos; manutenção da ordem, disciplina e silêncio; acompanhamento dos alunos em sala de estudos e leitura; verificação da adequação dos acessos; promoção de eventos e iniciativas para incentivo à leitura.

Ele ainda aponta que a parte sobre a “manutenção da Ordem, disciplina, etc.” foge das atividades, assim como o acompanhamento dos alunos, “porque abre um leque muito grande de interpretações”. E ele reforça outro ponto: “É preciso ser graduado na área para exercer a função. Isso está opcional, quando, na verdade, é a única obrigação legal dentro da vaga.”

O Mais Goiás procurou a consultoria responsável pelo recrutamento e não teve resposta até o fechamento da matéria. O portal também tenta contato com a escola. Esta matéria poderá ser atualizada.

Direito

Advogado especialista em Direito Constitucional e professor, Clodoaldo Moreira afirma que, a Constituição é explícita ao proibir a discriminação. Ele enfatiza que o Brasil é um Estado laico, conforme estabelecido no artigo 19, inciso I, da Constituição, ou seja, o Estado (e, por extensão, as relações de trabalho reguladas por ele) deve se manter neutro em matéria religiosa.

“Ao exigir uma afiliação religiosa específica para uma vaga de emprego, a empresa viola diretamente esse princípio, promovendo uma religião em detrimento de outras e de quem não possui nenhuma”, esclarece.

Ao explicar que o anúncio é ilegal e inconstitucional, Clodoaldo informa que ele também configura uma prática discriminatória vedada pela Constituição Federal e pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “Um candidato que se sinta lesado por essa exigência poderia, inclusive, buscar reparação na Justiça do Trabalho por danos morais e pela perda de uma chance.”

Ainda conforme o jurista, a “legislação permite, em situações muito específicas, que certas características pessoais sejam exigidas se forem essenciais para o desempenho da função. “É o que chamamos de ‘discriminação legítima’. Por exemplo, exigir que um ator que interpretará um personagem idoso tenha aparência de idoso.” No caso em questão, as atividades são técnicas e não dependem ou se justificam com base na fé ou afiliação religiosa do profissional.