Dia das Mães: depois da perda de um filho, chef de cozinha encontra alegria e superação na cozinha
Vânia coordena uma equipe de 120 pessoas e, para ela, todos são seus "filhos"
Vânia Maria Alves não sabe exatamente quando a virada aconteceu. Sabe que foi dentro de uma cozinha, entre o cheiro de tempero e o barulho de panelas, em algum momento entre o preparo e a convivência. Sabe que, antes disso, havia uma dor muito grande.
Ela tinha perdido um filho. E, com ele, por um tempo, perdeu também a vontade de seguir. “Passei por um período muito difícil, de muita dor e desânimo”, conta. O cotidiano havia se tornado pesado demais, e a saída não estava clara.
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Foi um convite que mudou o rumo. Chamada para participar das atividades do Festival Italiano de Nova Veneza, Vânia começou a se envolver com a preparação das receitas e com o ambiente da cozinha — primeiro de forma tímida, depois com mais presença, até que aquele espaço passou a fazer sentido de um jeito que ela não esperava. “Foi aqui que eu me encontrei”, diz.
“Meus filhos”
O que começou como recomeço virou vocação. Hoje, aos 56 anos, Vânia é chefe de cozinha da Cantina da Nonna, onde comanda uma equipe de cerca de 120 pessoas durante o festival. A cozinha que um dia foi refúgio se tornou lugar de pertencimento, e de responsabilidade.
Nesta edição, ela será responsável pela preparação do macarrão à bolonhesa, receita inspirada nas nonas italianas que estão na origem do festival e da própria identidade de Nova Veneza. “É uma receita que tem história, que representa carinho e tradição. Fazer esse prato aqui é muito especial”, afirma.
Há algo de simbólico nisso. A bolonhesa das nonas é, antes de tudo, uma receita de mãe, daquelas que não estão escritas em lugar nenhum, que se aprendem pelo cheiro, pelo gesto, pela observação de quem cozinha ao lado. E é exatamente esse tipo de saber que Vânia ajuda a preservar a cada edição.
Em Nova Veneza, cidade a 29 km de Goiânia, a imigração italiana começou em 1912 e deixou marcas que o tempo não apagou — na arquitetura, no sotaque, nos costumes e, principalmente, na comida. O Festival Italiano, que chega à sua 20ª edição de 28 a 31 de maio de 2026, é o momento em que essa herança se torna visível. Mas, para quem está dentro da Cantina da Nonna, ele é também algo mais íntimo: um espaço onde memória, afeto e trabalho se misturam de um jeito difícil de explicar para quem não viveu.
Vânia viveu. E foi essa experiência, a de encontrar na cozinha coletiva um lugar para reconstruir a própria história, que a mantém voltando a cada ano. Não apenas para cozinhar. Para estar.