VIOLÊNCIA CONTRA MULHER

Discurso de ódio nas redes alimenta violência contra mulheres e reforça agressões fora das telas, dizem especialistas

Especialistas apontam que ambientes digitais hostis normalizam ataques, legitimam abusos e fortalecem padrões de violência de gênero

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Discurso de ódio nas redes alimenta violência contra mulheres e reforça agressões fora das telas, dizem especialistas (Foto: Ilustrativa/FreePik)

Comentários ofensivos, ataques coordenados, ameaças e campanhas de humilhação online não são apenas manifestações isoladas de agressividade virtual. Para pesquisadores, esse tipo de conteúdo forma um ecossistema que contribui diretamente para a violência contra mulheres no mundo real. Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que ambientes digitais hostis frequentemente antecedem episódios de perseguição, intimidação e violência psicológica, sugerindo uma relação direta entre discurso de ódio e escalada de agressões.

Segundo a pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Manoela Miklos, essa dinâmica ocorre porque a internet reflete padrões sociais já existentes. “Uma sociedade misógina vai ter usos misóginos da tecnologia. O que existe na vida existe na rede. Os perigos das ruas estão também nas plataformas digitais”.

Especialistas explicam que a repetição constante de insultos e comentários degradantes reduz a percepção de gravidade dessas atitudes. Quando ataques são tratados como “brincadeira”, “opinião” ou “liberdade de expressão”, comportamentos abusivos passam a ser vistos como aceitáveis e isso pode encorajar ações mais graves.

Trágedia de Itumbiara é exemplo

O caso ocorrido em Itumbiara, que terminou com a morte do secretário municipal Thales Machado após ele atirar contra os próprios filhos expôs de forma brutal como o discurso de ódio e a misoginia social ultrapassam o ambiente digital e atingem vítimas mesmo após tragédias extremas. Segundo a jornalista e escritora Nina Lemos, que aborda feminismo e comportamento humano desde os anos 2000, o episódio revela um padrão recorrente: a culpabilização feminina diante da violência masculina.

No caso, a mãe das crianças, que perdeu os dois filhos, passou a ser alvo de xingamentos, acusações e vaias públicas, inclusive durante o enterro dos meninos de 8 e 13 anos. Para Nina, isso evidencia um traço estrutural: “Num país que às vezes parece uma sociedade onde mulheres são punidas com pedras, a vítima é culpabilizada. Nada justifica o assassinato de crianças”.

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A reação social ao caso, segundo a jornalista, mostra como discursos misóginos não apenas existem, mas são reproduzidos por homens e mulheres, muitas vezes sob a justificativa de valores morais ou familiares. “Essa mãe deveria estar sendo acolhida pela sociedade, não atacada. Uma mulher perder dois filhos e ainda ser culpada por isso mostra o quanto o país ainda sofre de uma misoginia profunda.”

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Quando comentários culpabilizando vítimas circulam livremente, criam uma legitimação simbólica da violência.

“Quando ofensas e discursos degradantes circulam amplamente, eles reforçam estereótipos de inferioridade feminina e acabam autorizando determinadas condutas. Essa autorização não precisa ser explícita. Ela pode ocorrer de forma indireta, por meio de curtidas, compartilhamentos, silêncio ou apoio implícito a conteúdos discriminatórios”, reforça Manoela Miklos.

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