Muralista de Luziânia começou pintando letras em igreja e trocou Engenharia pelo grafite
Até 2015, o ilustrador conciliava o trabalho na construção civil com o grafite nos fins de semana
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O ilustrador e muralista Ramon Andrade, de 37 anos, trocou a construção civil pelo grafite e transformou um hobby de fim de semana em profissão. Conhecido como Ramon Phanton, o artista urbano de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, já levou suas criações para outros estados e países, pintou a lateral de um prédio de cinco andares em São Paulo e teve uma de suas obras escolhida para ilustrar a capa de um caderno distribuído pelo Sebrae Goiás. A mudança de rumo começou em 2015, quando decidiu trancar a faculdade de Engenharia Civil e apostar na arte.
O contato com o desenho veio ainda na infância, quando Ramon copiava personagens de histórias em quadrinhos, como os super-heróis dos X-Men, e de animes, como Dragon Ball. Na adolescência, passou a acompanhar revistas especializadas em grafite, que despertaram seu interesse pelas letras e pela arte urbana. Em 2006, teve sua primeira experiência com spray ao pintar letras na fachada da igreja que frequentava na época.
O retorno à pintura nas ruas aconteceu em 2013, quando começou a acompanhar a artista Raquel Bravo em trabalhos por Luziânia. Naquele período, Ramon trabalhava em obras durante a semana e reservava os fins de semana para o grafite. Como ainda estava retomando a prática do desenho, ajudava principalmente na execução dos projetos, com preenchimentos e outros detalhes.

Mais do que aprender uma nova técnica, a experiência também foi uma forma de intervir na cidade. Ramon conta que queria levar às ruas uma estética ligada à cultura urbana, em uma cena cultural que, segundo o artista, era mais associada ao sertanejo e às tradições interioranas. A proposta era ampliar as referências visuais presentes em Luziânia por meio de pinturas que dialogassem com o hip-hop, o rock e o rap.
A decisão de transformar o grafite em profissão aconteceu gradualmente. No fim de 2015, após deixar o emprego na construção civil, Ramon começou a enxergar na arte uma possibilidade de renda. Os primeiros trabalhos remunerados surgiram em 2016. A participação em eventos de grafite em outros estados também ampliou suas perspectivas e mostrou que suas criações poderiam alcançar novos públicos.

A mudança de carreira, no entanto, não significou abandonar os estudos. Ao Mais Goiás, ele revelou que a decisão de se dedicar exclusivamente à arte causou certa surpresa na família, mas foi apoiada pelos parentes, já que ele trabalhava com isso havia alguns anos, começava a colher frutos e já tinha um plano: estudar Artes Visuais.
Em 2018, Ramon foi aprovado no curso pela Universidade de Brasília (UnB), retomando a formação acadêmica em uma área mais próxima de seus interesses. Naquele mesmo ano, participou de um evento de arte urbana no Chile, sua primeira experiência internacional.
Expansão dos trabalhos
Ao longo dos anos, o artista também expandiu sua produção para além dos muros. Começou a produzir telas, ilustrações digitais e estampas para produtos personalizados. Em 2024, criou, ao lado de amigos, uma loja virtual para comercializar camisetas e outros itens com suas artes, diversificando as fontes de renda.
Viver da arte, porém, exige lidar com a instabilidade do mercado. Segundo Ramon, a demanda por trabalhos varia ao longo do ano, com períodos de maior movimento e outros em que os convites diminuem. Embora tenha conseguido consolidar melhor a atividade como fonte de renda nos últimos quatro anos, ele afirma que os trabalhos continuam irregulares. Para se manter na profissão, precisou aprender a organizar as finanças e a buscar diferentes formas de comercializar suas criações.
Representatividade que inspira novos artistas
Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória está a pintura da lateral de um prédio de cinco andares em São Paulo, realizada em 2025. Ramon foi selecionado por meio de um edital do Museu de Arte de Rua (MAR), que reuniu inscrições de artistas de diferentes partes do país.
A conquista teve um significado especial porque a pintura já fazia parte dos objetivos que ele traçava para a carreira. Em 2024, durante a gravação de um documentário sobre seus dez anos de atuação no grafite na região do Entorno de Brasília, o artista havia sido questionado sobre o que gostaria de realizar nos anos seguintes. Pintar uma empena, como são chamadas as laterais de edifícios usadas para grandes murais, estava entre seus planos. No ano seguinte, o projeto se concretizou.

Para Ramon, a obra também representa a possibilidade de abrir caminhos para outros artistas de Luziânia e do Entorno. Ao ocupar um espaço de grande visibilidade em outra cidade, ele mostra que profissionais que começam a pintar nas ruas da região podem conquistar oportunidades em diferentes partes do país.
“É possível a gente encontrar uma brecha nesse mercado de arte e conquistar alguns espaços por meio dela. Acho que essa representação é importante, além, logicamente, de poder levar o nome da cidade para outros lugares. Essa pintura fala justamente desse lugar de representação dos artistas aqui do Entorno Sul, de permitir que quem está começando possa visualizar a arte como um caminho e perceber que é possível”, afirma.
O reconhecimento chegou também ao mercado empresarial. Em 2026, uma de suas criações foi escolhida para ilustrar a capa de um caderno distribuído pelo Sebrae Goiás. “Às vezes a gente não tem noção do alcance do próprio trabalho”, afirmou Ramon ao comentar o convite.