DESESPERO

‘Estamos cansados de lutar’, diz filha de mulher que teve perna amputada após acidente com viatura em Goiânia

"Temos um sistema que faz de tudo para que a pessoa não consiga se reerguer"

'Estamos cansados de lutar', diz filha de mulher que teve perna amputada após acidente com viatura em Goiânia
'Estamos cansados de lutar', diz filha de mulher que teve perna amputada após acidente com viatura em Goiânia (Foto cedida pela família)

A vida de Rosangela Teles Varanda Pinheiro, de 50 anos, mudou em 1º de novembro de 2025, quando ela sofreu um acidente, que resultou na amputação de parte da perna direita dela. Ela seguia de moto e passava pelo cruzamento da Marginal Botafogo com a Avenida E, no Jardim Goiás, em Goiânia, quando foi atingida por uma viatura do Batalhão Maria da Penha. Ela já passou por sete cirurgias e, nesta quinta-feira (19), seria submetida a mais uma, que foi desmarcada. A filha da vítima, Gabrielly Teles, disse ao Mais Goiás que tanto a família quanto a mãe estão cansados de lutar contra o sistema.

“Nós estamos muito tristes por tudo que vem acontecendo com ela, porque, além do acidente, tudo que vem em seguida é muito difícil, sabe? São etapas muito difíceis, tanto de adaptação como de dificuldades que temos com tudo que envolve o SUS”, lamenta. Ela afirma que a família está cansada de tanta luta, assim como a mãe também está cansada de lutar. “Temos um sistema que faz de tudo para que a pessoa não consiga se reerguer.”

“Eu espero que o Estado, sinceramente, assuma a responsabilidade de, no mínimo, amenizar o sofrimento dela, tendo em vista que foi um funcionário deles que fez isso com ela”, continua. “O que vem depois importa. Eles deviam dar a ela um tratamento digno e auxílio para ela se manter. Tem três meses que ela não recebe o INSS, ela não tem renda nenhuma para se manter.” Quanto à cirurgia, a filha explica que esta foi desmarcada, pois os materiais que vieram não são adequados para ela. “Não deram atenção a ela como ser humano.”

Atualmente, a mãe vive com a filha, o esposo dela e o filho de quatro anos. Gabrielly revela que mudou praticamente toda a rotina para se adaptar ao cuidado de Rosangela. “Hoje, nossas dificuldades são financeiras, pois ela toma medicações, usa fralda constantemente, pois não vai ao banheiro, e tudo que decorre disso. Temos dificuldades em encontrar pessoas que nos ajudem a revezar comigo para ficar com ela no hospital. É muito longe, gastamos muito indo e vindo, e tem poucas pessoas que podem vir.”

A filha revela que a mãe precisa de acompanhamento com fisioterapeuta, psicólogo e psiquiatra, mas faltam condições. Os familiares estão sobrecarregados, segundo ela. “E o Estado, nem ninguém relacionado ao acidente, nunca entrou em contato para ver se ela pelo menos está viva. Quem dirá para auxiliar de qualquer forma.”

Gabrielly diz que a mãe não sente indignação, apenas está muito triste e chora. “Diz que queria ter a vida dela sem depender de ninguém, sem incomodar ninguém. Tudo precisa de terceiros e ela sempre foi muito independente. Era ela que cuidava das pessoas, não o contrário.”

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(Foto cedida pela família)

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Depoimento

Ela também enviou um longo depoimento ao Mais Goiás. Segundo ela, após o acidente, a família sequer foi comunicada, descobrindo a situação por notícias ao reconhecer a motocicleta da vítima, sem poder acompanhar o ocorrido. “Nem houve perícia no local na nossa presença.”

“Minha mãe foi socorrida às pressas como se fosse uma indigente, apesar de portar documentos e contatos de familiares para emergência entre seus pertences. Não houve qualquer tentativa de nos localizar.” A mulher, que morava sozinha, hoje depende de familiares. Naquele momento, para localizá-la, foi preciso ligar para todos os hospitais da capital.

“Ao todo, ela já passou por sete cirurgias, incluindo duas amputações na mesma perna. Além disso, sofreu fratura no osso do quadril devido à gravidade do impacto. O quadril foi operado inicialmente, mas ela nunca deixou de sentir dores intensas”, revelou a filha.

Ela ficou 40 dias internada, inicialmente. Após a alta, enfrentou limitações físicas severas, crises de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, depressão, síndrome do pânico, além das dificuldades financeiras para arcar com os medicamentos para minimizar o sofrimento.

Em 23 de janeiro, quando voltou ao hospital para retirar os pontos da amputação, teve um ataque de pânico e desmaiou. No local, uma nova descoberta: o osso do quadril estava desgastado e fora do lugar. Sem conseguir fazer a correção, era preciso uma nova cirurgia (artroplastia de quadril). Foram 35 dias até a prótese adequada chegar.

Enfim, quando passou pelo procedimento e teve alta, teve uma infecção nos pontos da cirurgia, ficando apenas 15 dias fora do hospital. “Existe um risco real e grave de que essa infecção se espalhe para a corrente sanguínea, podendo evoluir para um quadro ainda mais sério e potencialmente fatal. Estamos vivendo um novo capítulo de sofrimento, abandono e negligência.”

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Ação

A família move uma ação contra o Estado. Devido à impossibilidade de trabalhar, a vítima pede na Justiça uma indenização por danos morais, estéticos e existenciais, além de uma pensão mensal urgente.

Segundo o processo, o Estado de Goiás tem responsabilidade objetiva pelo evento e também pela desorganização no atendimento institucional de Rosangela, que a expôs a sofrimentos que poderiam ser evitados, além de riscos, como esta infecção grave.

A defesa reforça que, hoje, a mulher depende exclusivamente da ajuda de familiares para custear medicamentos e insumos básicos.

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(Foto cedida pela família)

Acidente

A PM informou, à época, que a viatura estava a caminho de uma ocorrência, com a sirene e os sinais luminosos ativados. Os policiais, que fizeram os primeiros socorros, perceberam que ela estava com uma fratura exposta e acionaram o Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO).

No mesmo dia, ela foi levada para o Hospital de Urgências de Goiás (Hugo) e precisou passar por uma cirurgia de emergência, a primeira. Antes do acidente, ela avisou à família que seguia para casa. Depois, ela participaria de um aniversário.

O Mais Goiás procurou a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) e aguarda retorno. Esta matéria poderá ser atualizada.

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(Foto cedida pela família)