EMPATIA

Estudante utiliza língua de sinais para ajudar surdos em igreja de Goiânia: ‘quero usar na medicina’

João Gabriel de Castro Martins usa língua dos sinais desde os 12 anos para ajudar comunidade dos surdos na igreja Videira, em Goiânia

Estudante utiliza língua de sinais para ajudar surdos em igreja de Goiânia: 'quero usar na medicina' (Foto cedida ao Mais Goiás)
Estudante utiliza língua de sinais para ajudar surdos em igreja de Goiânia: 'quero usar na medicina' (Foto cedida ao Mais Goiás)

O estudante João Gabriel Martins, da Faculdade de Medicina de Rio Verde, tem 20 anos e desde os 12 se comunica pela língua dos sinais. Em pouco tempo, ele será um dos poucos médicos de Goiânia habilitados a atender pacientes surdos com uma comunicação fluida – o que é importante não só para romper a barreira da invisibilidade que limita essa comunidade, como também para gerar diagnósticos melhores.

João não é surdo e tampouco tem parentes assim. O contato dele com a língua de sinais aconteceu por acaso: ainda criança, ele viu a tia Neusila Bernardes chegar em casa com a decisão de aprender Libras. Neusila, hoje com 65 anos, contou que estava em um ônibus quando viu uma pessoa surda pedir ajuda e ninguém conseguiu auxiliá-la – o que a deixou angustiada.

Intrigado, João disse para tia que queria acompanhá-la nessa jornada de conhecimento. Neusila topou a empreitada e ensinou a língua para o sobrinho aos poucos. “Não me considero fluente, até porque existem intérpretes muito mais preparados do que eu, com amplo domínio da língua e da técnica. Minha intenção nunca foi me colocar como referência, mas participar ativamente da comunidade surda e ser útil onde fosse possível — mesmo sem ter surdos na família, sempre tive esse interesse, especialmente no contexto religioso”.

O foco de João se voltou para interpretação em igrejas. “No fim de 2017, quando eu tinha cerca de 12 anos, fui a um encontro de juvenis da Igreja Videira. Na época eu congregava em outra igreja e sabia Libras de forma bem básica. Gostei muito da Videira e, com o tempo, conheci o grupo de intérpretes da Videira Bueno. Em um impulso, acabei interpretando minha primeira música em um culto de domingo pela manhã, que foi transmitido no YouTube”, lembra ele.

“A partir disso, continuei estudando e aprendendo, sempre com o apoio da minha tia, que me ajudava com materiais e orientações. Ela congregava na Igreja Batista Nacional Filadélfia, enquanto eu seguia na Videira, junto com outros intérpretes, buscando evoluir para acompanhar o grupo e levar o evangelho aos surdos”, complementa.

Em julho de 2024, João Gabriel começou a faculdade de Medicina em Rio Verde, o que o obrigou a reduzir as interpretações semanais que fazia. Mesmo assim, ele ajuda sempre que ele pode. Foi inclusive interpretando em um culto domingo de manhã que ele conheceu um de seus grandes amigos: Paulo Henrique, irmão surdo da Igreja Videira.

“Não tenho vínculo fixo com nenhuma igreja e não recebo por esse trabalho. Quando consigo, também ajudo na interpretação na igreja da minha tia, a Batista Nacional Filadélfia. No fim das contas, o que sempre priorizei foi ser auxílio na vida de quem precisa — seja interpretando músicas, versículos mais complexos, cultos e eventos, ou simplesmente estando presente mesmo se for só pra jogar conversa fora”, afirma o estudante.

“Acredito que, quando me formar em Medicina, poderei contribuir ainda mais com a comunidade surda. Afinal, esse sempre foi o propósito: estar na vida de quem precisa e ser compreendido — e compreender — por meio da comunicação”, diz o rapaz.