SUPERAÇÃO

Ex-garçom morador de Luziânia passa em concurso do Itamaraty e vira diplomata

Douglas Rocha Almeida morava em Luziânia e é filho de uma diarista que, por 40 anos, sustentou 4 filhos em casa

Ex-garçom morador de Luziânia para em concurso do Itamaraty e vira diplomata (Foto: Reprodução)
Ex-garçom morador de Luziânia para em concurso do Itamaraty e vira diplomata (Foto: Reprodução)

Em 16 anos, a vida de Douglas Rocha Almeida se transformou. Em 2010, ele era um adolescente, filho de mãe diarista e pai pedreiro, que havia acabado de ingressar no Centro de Ensino Médio Elefante Branco (Cemeb), em Luziânia, com pouca clareza sobre que profissão queria seguir. O tempo passou e na última quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, ele já era um diplomata que estava sendo recepcionado pelo presidente Lula no Palácio do Planalto, em Brasília.

Douglas foi ao encontro com o presidente acompanhado da mãe, Dona Cida, a quem ele deseja aposentar da profissão de diarista agora que passou no concurso do Itamaraty. “Histórias como a do Douglas são reais. Ele seguiu o exemplo de perseverança da mãe e, com oportunidades e apoio, conquistou o sonho de se formar no ensino superior e passar em um concurso público”, escreveu Lula nas redes sociais.

Dona Cida criou Douglas e mais três filhas com uma renda mensal de cerca de R$ 2,5 mil. O aperto era tão grande que, além do estágio que ele fazia no Ministério da Fazenda, que lhe pagava R$ 290 (o suficiente só para comprar comida e pagar o ônibus para o Plano Piloto), Douglas começou a trabalhar em uma casa de festa nos finais de semana. Ao jornal Correio Braziliense, ele conta que começou como monitor de brinquedos e depois fazendo pintura no rosto de crianças. Em 2014, ele se candidatou no Programa Universidade para Todos (Prouni) e conseguiu uma bolsa integral para estudar Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília (UCB). Em paralelo, entrou no curso de Letras-Espanhol da Universidade de Brasília (UnB).

Os para fazer duas graduações em Brasília aumentaram, e para cobri-los Douglas começou a trabalhar como garçom. Recebia R$ 300 por final de semana. O complemento da renda vinha com serviços esporádicos, como a tradução de livros para professores. “Foram quatro anos de muito sufoco”, disse ele ao Correio. Durante o curso de relações internacionais, o estudante descobriu a carreira de diplomata e decidiu lutar por ela. As graduações foram concluídas em 2018, ano em que ele se mudou para o Rio de Janeiro com objetivo de fazer mestrado na Escola Superior de Guerra, órgão do Ministério da Defesa.

A vida permanecia dura. O rapaz dividia uma república de três quartos com 20 pessoas. O alívio veio quando saiu para ele uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que lhe permitiu se alimentar melhor e morar em um quarto individual, em Copacabana. Em março de 2021, Douglas concluiu o mestrado e começou a estudar para o concurso de diplomata. Em junho de 2021 ele passou na primeira prova. Em 2022, os estudos continuaram enquanto ele trabalhava de garçom e de professor na UnB. A correria fez com que ele fosse reprovado na segunda prova, que era discursiva em inglês.

Em 2023, Douglas foi o terceiro mais bem colocado entre os candidatos que não passaram. Em 2024, ficou em 10º lugar entre os não aprovados. Por fim, veio a vitória em 2025. O resultado do concurso saiu em outubro, e ele foi um dos 50 classificados entre os 8.861 inscritos. A nomeação aconteceu no dia 22 de dezembro. A partir de agora, ele terá um salário de R$ 22,5 mil. Os planos que ele tem envolve principalmente a mãe, dona Cida. Com 40 anos trabalhando como diarista, ela tem problemas no nervo ciático, gordura no fígado, e doença de Chagas. O filho quer que a partir de agora ela trabalhe em algo mais leve.