Mais Goiás conversa com traficantes de cetamina e descobre como negociação acontece
Traficantes vem frasco de 50 ml por R$ 300 cada. Mais Goiás conversou com criminosos responsáveis pelo comércio do anectásico
Em evidência após as mortes do ator de Friends, Matthey Perry, e da ex-sinhazinha do Boi Garantido, Djidja Cardoso, a cetamina virou a nova “queridinha” do crime organizado. Principal “ingrediente” para produzir a droga special k, além de ser usada para potencializar a cocaína e produzir o “boa noite, cinderela”, o anestésico animal e humano encontrou nas redes sociais um mercado paralelo para o tráfico desse medicamento.
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O Mais Goiás foi à fundo e conversou com exclusividade com cinco criminosos de três Estados responsáveis pelo comércio ilegal de cetamina por meio do Telegram, Facebook e WhatsApp. O anestésico começou a ser consumido em larga escala a partir dos campos de batalha na Guerra do Vietnã, no início dos anos 1970. Atualmente, mais de 60 anos depois da criação, a cetamina voltou a ser usada de forma recreativa no Brasil, tendo um boom de usuários no Reino Unido e nos Estados Unidos há, pelo menos, três anos.
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De forma assustadoramente normal, três dos criminosos responderam aos questionamentos da reportagem, que se passou por um traficante interessado no produto. O anestésico animal foi ofertado por, em média, R$ 300. O valor equivale a um frasco de 50 ml. Caso o repórter quisesse um valor mais em conta, teria a opção do frasco do medicamento humano por R$ 110. No entanto, o criminoso alerta:
“É a mesma coisa, o humano serve também [para produzir droga], mas o animal é mais forte. Não rende tanto, mas é melhor. Se for levar três [frascos] do veterinário, faço R$ 280”, reforça o criminoso ao Mais Goiás em ligação de áudio que durou pouco mais de 2 minutos.
Além de oferecer desconto de R$ 20 em cada frasco, um dos criminosos identificado como Janssen também ensinou o repórter a manipular o anestésico para a produção de droga e ofertou uma amostra de fentanil — opioide sintético extremamente potente, utilizado principalmente na medicina para o manejo de dores severas e como anestésico, mas que também se tornou um grave problema de saúde pública devido ao seu uso ilícito e alto risco de overdose.
O envio é feito pelo Correios ou Sedex, com o frete já incluso na compra. A mercadoria é rastreável e o traficante, de Minas Gerais, garante que chega em até três dias. Outro criminoso, também do Estado mineiro, expôs possuir clientes em Hidrolândia, Vila Brasília, em Aparecida de Goiânia, e no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. Segundo ele, os envios são seguros e “nunca deu problema”.
Há ainda criminosos do Rio de Janeiro que também oferecem receitas falsas para a aquisição do medicamento em farmácias legais. Cada exemplar pode chegar a R$ 95.
“É a receita amarela e branca. O doutor essa semana está trabalhando apenas com a branca. Não [dá problema], até porque trabalhamos com sigilo total e precisamos de você como cliente”, explana.

“Droga de rico”
A escalada do mercado clandestino de cetamina ficou evidente a partir de 2023, quando dois traficantes foram presos pela Polícia Civil do Distrito Federal, com o apoio de policiais dos estados de Goiás e Piauí, por tráfico interestadual de cetamina. Em cinco anos, o grupo havia movimentado R$ 3,5 milhões com a venda ilegal do anestésico. O frasco de 50ml da substância era vendido pelos traficantes por cerca de R$ 300 a R$ 400 em listas de transmissão do WhatsApp.
Dois anos depois, em agosto de 2025, cinco clínicas veterinárias, agropecuárias e distribuidoras de medicamentos controlados localizadas em Minas Gerais e em Goiás foram alvo de operação da PC por se tornaram o maior polo distribuidor ilegal de cetamina do Brasil. A droga era adquirida por profissionais e, então, desviada para festas clandestinas, onde servia como entorpecente recreativo.
“A cetamina é parecida com a morfina. O uso médico e veterinário tudo bem, mas o uso recreativo pode ser perigoso pela força da substância e, por isso, é considerado tráfico. É uma droga cara, então, ainda é para um público com maior poder aquisitivo”, explica o delegado Raphael Barbosa.
Devido ao valor elevado, o uso de cetamina é mais comum em regiões com acúmulo de pessoas com grandes somas de dinheiro, como Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro, conforme o delegado. O combate, de acordo com Raphael, é realizado da mesma forma que o tráfico de drogas.
“São realizadas operações, barreiras, monitoramento de possíveis pontos de distribuição. Por ser um medicamento, não é como a maconha ou cocaína, é produzido normalmente. Apenas o uso que é modificado, como venvanse (medicamento usado no tratamento de TDAH)”, reforça o investigador.
Mortes de celebridades
A droga foi responsável pela morte do ator Matthew Perry em 2023, famoso pela série Friends. O instituto médico legal do condado de Los Angeles determinou como causa os “efeitos agudos da cetamina”. Ele foi encontrado morto em casa após uma overdose.
Os detalhes sobre o último dia de vida de Perry, em 28 de outubro, foram revelados nos autos do processo que se seguiu à investigação policial que indiciou cinco pessoas em relação à sua morte. Os documentos fornecem uma análise profunda das autoridades sobre sua dependência de drogas, que ele enfrentou por décadas, e uma noção sobre a rede de fornecimento de cetamina em Hollywood.
Um ano depois, em 2024, a empresária e ex-sinhazinha do Boi Garantido no Festival de Parintins, Djidja Cardoso, foi encontrada morta dentro de casa, em Manaus. O caso ganhou repercussão nacional por envolver drogas, religião e crimes como tráfico e associação para o tráfico, resultando em condenações pela Justiça.
Cleusimar e Ademar Cardoso — mãe e irmão da ex-sinhazinha — além de Verônica Seixas, Claudiele da Silva e Marlisson Vasconcelos, todos funcionários da família, foram dois dias após a morte de Djidja, em 30 de maio, pela Polícia Civil do Amazonas.
Os suspeitos e a vítima faziam parte do grupo “Pai, Mãe, Vida”, que era liderado por Cleusimar, Ademar e Djidja. Dentro da crença, Ademar era considerado a representação de Jesus Cristo, Cleusimar seria Maria, e Djidja era vista como a personificação de Maria Madalena. O grupo realizava rituais em que promoviam o uso indiscriminado de cetamina e defendiam o uso do entorpecente como forma de alavancar a elevação espiritual.

O que é a cetamina?
A cetamina animal é utilizada principalmente como agente anestésico dissociativo na medicina veterinária, de acordo com o médico-veterinário Thiago Augusto. Ela promove sedação, analgesia e imobilização do paciente, sendo muito empregada em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos.
Dependendo da dose por kg de peso vivo e da associação com outros fármacos, pode também causar aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Quando administrada corretamente por profissional habilitado, é considerada um medicamento seguro e extremamente útil para o manejo dos pacientes.
A cetamina também é amplamente utilizada na medicina humana como anestésico. Entretanto, seu uso é restrito a profissionais da saúde habilitados, conforme a legislação vigente de cada área (médicos e médicos-veterinários).
“Para médicos-veterinários, a aquisição exige cadastro junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o MAPA. Após o cadastro, o profissional pode emitir a receita de controle especial para adquirir o medicamento em distribuidoras autorizadas, sendo o uso restrito à prática médico-veterinária”, conclui Thiago.