Quarta-feira, 19 de Agosto de 2026
INFRAESTRUTURA

BR-153: menos da metade da rodovia mais importante de Goiás está duplicada

Rodovia participa da reorganização de cidades, da expansão da produção e da integração de Goiás ao mercado nacional; décadas depois dos primeiros projetos de pista dupla, centenas de quilômetros ainda integram o programa de duplicação

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Obras de duplicação da BR-153 avançam em trechos de Goiás dentro do programa de ampliação da capacidade da rodovia. (Foto: Ecovias Araguaia)

De acordo com levantamento feito pelo Mais Goiás, 281,9 dos 703,6 km da BR-153 em Goiás já são duplicados, o equivalente a 40% da rodovia no estado. Outros 421,7 km, entre a divisa com Tocantins e a aproximação de Anápolis, ainda aparecem como pista simples nos documentos rodoviários. Desse trecho, 53,44 km estão atualmente em obras em Rialma, Rianápolis, Uruaçu e Campinorte. Quando essa etapa for concluída, a extensão duplicada deverá chegar a aproximadamente 335,3 km, ou 47,7% da BR-153 em Goiás. 

A diferença entre as duas partes da rodovia ajuda a explicar uma reivindicação que atravessa décadas. De Anápolis em direção a Goiânia, Itumbiara e à divisa com Minas Gerais, a BR-153 já opera em pista dupla. Ao norte de Anápolis, a maior parte do caminho até Tocantins ainda é de pista simples. É justamente nesse corredor do Centro-Norte que se concentra o programa de novas duplicações da atual concessão. 

O que ainda precisa ser duplicado

Obras de duplicação da BR-153 no trecho entre Campinorte e Uruaçu, no norte de Goiás (Foto: Ecovias Araguaia).
Obras de duplicação da BR-153 no trecho entre Campinorte e Uruaçu, no norte de Goiás (Foto: Ecovias Araguaia)

Programa de Exploração da Rodovia da Ecovias do Araguaia permite identificar exatamente onde está a duplicação prevista. Na BR-153 em Goiás, os segmentos entre a divisa com Tocantins, no km 0, e o km 421,7 são classificados como pista simples e têm duplicação obrigatória. Os 23,5 quilômetros seguintes, do km 421,7 ao km 445,2, na chegada a Anápolis, já constam no documento como pista dupla. A concessão da Ecovias do Araguaia termina no entroncamento com a BR-060, em Anápolis. 

Isso significa que o programa de duplicação da BR-153 em Goiás se concentra no eixo que sai da divisa com Tocantins e passa pelas regiões de Porangatu, Estrela do Norte, Mara Rosa, Campinorte, Uruaçu, Nova Glória, Rialma, Rianápolis, Jaraguá e São Francisco de Goiás antes de chegar a Anápolis. O PER divide esse percurso em diferentes segmentos e etapas de execução. Os 53,44 quilômetros atualmente em obras fazem parte desse conjunto. Portanto, a conclusão da frente atual não significa o fim da duplicação do Centro-Norte. 

Obras atuais representam uma parte do corredor

A duplicação da Br-153 acontece em Goiás. Na foto, obras entre Rialma e Rianápolis. Crédito: Ecovias Araguaia
A duplicação da Br-153 acontece em Goiás. Na foto, obras entre Rialma e Rianápolis. (Crédito: Ecovias Araguaia)

Os 53,44 quilômetros em execução estão distribuídos entre quatro municípios goianos. São 28,6 quilômetros em Rialma, 16,4 em Uruaçu, 7 em Campinorte e 1,4 em Rianápolis. Os trechos integram um pacote de 60,48 quilômetros de duplicação da BR-153 em Goiás e Tocantins. A ANTT também prevê vias marginais, retornos, dispositivos, passarelas e acessos nessa etapa. 

A previsão original era concluir os 53,44 quilômetros goianos até o fim do quarto ano da concessão, encerrado em outubro de 2025. A Ecovias do Araguaia informou ao Mais Goiás que houve uma reprogramação de um ano devido ao atraso na liberação do licenciamento ambiental. As entregas passaram a ser previstas para o segundo semestre de 2026. A frente recebeu ordem de serviço em agosto de 2025. 

Com a conclusão dessa etapa, o total estimado de pista dupla na BR-153 em Goiás sobe de 281,9 para 335,3 quilômetros. O percentual passa de aproximadamente 40% para 47,7%. Mesmo depois dessas entregas, cerca de 368 quilômetros da rodovia ainda estarão fora da pista dupla, antes das demais obras previstas. O número mostra a diferença entre a etapa que está nos canteiros e a dimensão completa da duplicação necessária.

448,54 km incluem outra rodovia

Um dos números do contrato exige uma distinção. A ANTT informa que há 448,54 quilômetros de duplicações previstos em Goiás até o fim da concessão, mas esse total pertence ao sistema formado pelas BRs 153, 080 e 414. Não são 448,54 quilômetros exclusivamente da BR-153. Parte das obras está na BR-414. 

No conjunto de Goiás e Tocantins, o programa atualizado prevê 622,52 quilômetros de duplicações. Desse total, 592,31 quilômetros correspondem à BR-153 e 30,21 quilômetros à BR-414. Na BR-153 em Goiás, a soma dos trechos simples classificados como duplicação obrigatória chega a aproximadamente 421,7 quilômetros. Essa é a extensão que ajuda a dimensionar a transformação ainda necessária entre a divisa com Tocantins e Anápolis. 

Reivindicação aparece há mais de três décadas

Trabalhadores atuam na construção da BR-153 durante a abertura do corredor rodoviário que passou a integrar Goiás ao Norte do país (Foto: Acervo Histórico do Governo Federal).
Trabalhadores atuam na construção da BR-153 durante a abertura do corredor rodoviário que passou a integrar Goiás ao Norte do país (Foto: Acervo Histórico do Governo Federal)

A cobrança pela duplicação da BR-153 em Goiás é anterior às concessões atuais. O Diário do Congresso Nacional de março de 1990 já registrava a necessidade de duplicar o trecho entre Goiânia e Anápolis. Essa ligação recebeu pista dupla posteriormente, enquanto a discussão avançou em direção ao norte do estado. Mais de três décadas depois, é no Centro-Norte que se concentra a maior extensão ainda simples da BR-153. 

Em setembro de 2010, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes realizou audiências públicas para discutir o estudo ambiental da duplicação entre Porangatu e Anápolis. O projeto abrangia 366,84 quilômetros, entre os km 68,56 e 435,4. O EIA/Rima apontava redução de acidentes, diminuição do tempo de viagem, aumento da segurança e melhoria do fluxo entre os benefícios esperados. A duplicação de grande parte do corredor que ainda recebe obras em 2026, portanto, já estava formalmente em discussão há 16 anos. 

Primeira concessão terminou sem concluir obras

Obras de duplicação da BR-153 avançam em trecho do Centro-Norte de Goiás (Foto: Ecovias Araguaia).
Obras de duplicação da BR-153 avançam em trecho do Centro-Norte de Goiás (Foto: Ecovias Araguaia)

Em 2014, o governo federal concedeu à Galvão BR-153 um trecho de 624,8 quilômetros entre Anápolis e Aliança do Tocantins. O contrato tinha prazo previsto de 30 anos e incluía obrigações relacionadas à ampliação da capacidade da rodovia. A concessão, porém, durou menos de três anos. Em agosto de 2017, o governo declarou a caducidade do contrato por descumprimento das obrigações contratuais. 

A BR-153 voltou a ser concedida em 2021. A Ecovias do Araguaia assumiu 850,7 quilômetros das BRs 153, 080 e 414 em Goiás e Tocantins. A concessão começou em 8 de outubro de 2021 e tem prazo de 35 anos. O contrato inclui recuperação, manutenção, operação, melhorias e ampliação da capacidade das rodovias. 

BR-153 ajudou a reorganizar cidades

A espera pela pista dupla ocorre em uma rodovia que participou da transformação econômica e urbana de Goiás. Pesquisa publicada na revista GEOgraphia, por Tadeu Alencar Arrais, Denis Castilho e Onofre Pereira Aurélio Neto, relaciona a BR-153 ao processo de urbanização do território goiano-tocantinense e à integração com o mercado nacional. O trabalho aponta crescimento populacional, expansão da produção agropastoril, dinamização dos mercados urbanos e mudanças na estrutura fundiária entre os processos associados à estrada. A pesquisa não atribui essas transformações exclusivamente à rodovia, mas a identifica como um dos elementos de reorganização do território. 

No conjunto de municípios analisado pelos pesquisadores, a população passou de 143.225 habitantes em 1950 para 233.877 em 1960, 385.659 em 1970 e 478.729 em 1980. O período acompanha a implantação e a pavimentação da BR-153. Em Porangatu, por exemplo, o estudo identifica mudança do eixo de expansão urbana em direção à rodovia. A estrada passa a influenciar a localização de moradias, comércio e serviços. 

Circulação criou economia ao redor da estrada

Frente de obras amplia a capacidade da BR-153 em Goiás, onde 53,44 quilômetros estão atualmente em duplicação (Foto: Ecovias Araguaia).
Frente de obras amplia a capacidade da BR-153 em Goiás, onde 53,44 quilômetros estão atualmente em duplicação (Foto: Ecovias Araguaia)

A influência da BR-153 também aparece nas atividades instaladas ao longo do corredor. Em levantamento de campo realizado em 2014, os pesquisadores identificaram 119 postos de combustíveis entre Anápolis e Xambioá, sendo 80 em áreas urbanas e 39 em áreas rurais. Oficinas, borracharias, alimentação, hospedagem e outros serviços também se estruturaram em função da circulação. Parte da economia dos municípios passou a depender diretamente do movimento de pessoas e cargas pela rodovia. 

Outro estudo de Dallys Dantas e Denis Castilho analisa BR-060 e BR-153 como eixos de integração econômica em Goiás. No recorte de PIB municipal utilizado pelos autores, as duas rodovias passam por seis dos dez maiores municípios goianos: Goiânia, Anápolis, Aparecida de Goiânia, Rio Verde, Itumbiara e Jataí. O estudo também destaca a posição logística de Anápolis, onde se encontram rodovias, ferrovias e o Porto Seco Centro-Oeste. A BR-153 funciona, nesse sistema, como ligação entre áreas produtoras, cidades e estruturas de distribuição. 

Duplicação interfere no custo logístico

Para o economista Marcelo Marques, a capacidade da BR-153 interfere diretamente na operação das empresas que utilizam a rodovia. Tempo de viagem e previsibilidade afetam entregas, utilização da frota, estoques e planejamento logístico. Quanto maior a possibilidade de atrasos, maior é a necessidade de empresas e transportadores incorporarem margens de segurança às operações. A duplicação busca reduzir parte desses gargalos em um corredor usado no transporte de cargas e passageiros. 

Marques também relaciona infraestrutura às decisões de investimento. Empresas consideram acesso a fornecedores, consumidores, trabalhadores e redes de transporte ao escolher onde instalar unidades produtivas e centros de distribuição. Quando a economia cresce mais rápido que a infraestrutura disponível, aumentam os custos de circulação. A duplicação representa uma tentativa de adequar a capacidade da BR-153 ao movimento econômico acumulado ao longo das últimas décadas. 

BR-153 registrou 52 mortes em sete meses

A demanda por aumento de capacidade também convive com os números de acidentes. Dados da Polícia Rodoviária Federal publicados pelo Mais Goiás mostram 583 acidentes, 630 feridos e 52 mortes na BR-153 em Goiás entre janeiro e julho de 2026. No mesmo período de 2025, foram 551 acidentes, 636 feridos e 51 mortes. O total de acidentes aumentou 5,8%. 

Os números não permitem atribuir os acidentes apenas à existência de pista simples. Velocidade, ultrapassagens, distração, fadiga, condições dos veículos e comportamento dos motoristas também interferem nas ocorrências. A segurança, porém, está entre as justificativas oficiais para a duplicação há pelo menos 16 anos. O estudo ambiental apresentado pelo Dnit em 2010 já relacionava a obra à redução de acidentes e ao aumento da segurança. 

Duplicação continua sendo uma reivindicação histórica

O estágio atual da BR-153 em Goiás pode ser resumido em números. Dos 703,6 quilômetros da rodovia, 281,9 quilômetros estão duplicados e 421,7 quilômetros compõem o corredor que ainda era classificado como pista simples antes das obras atuais. Os 53,44 quilômetros em execução devem elevar a parcela duplicada para 47,7%. As demais obras estão distribuídas pelo programa da concessão e dependem das etapas previstas pela ANTT. 

A dimensão histórica aparece na sequência de tentativas. A necessidade de ampliar a BR-153 está documentada desde 1990, a duplicação Porangatu-Anápolis passou por estudos ambientais em 2010, uma concessão começou em 2014 e terminou em 2017, e um novo contrato entrou em vigor em 2021. Em 2026, há máquinas trabalhando em quatro municípios do Centro-Norte, mas centenas de quilômetros ainda integram o programa de novas pistas. É essa distância entre a primeira reivindicação e a conclusão do corredor que transforma a duplicação da BR-153 em uma espera que atravessa gerações.

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