Eliane de Grammont: Filha de cantora morta por goiano em 1981 integra ação contra feminicídio em Goiânia
Crime aconteceu em 1981. Lili Grammont usou a própria história familiar para se tornar ativista em defesa das mulheres
A ativista Lili de Grammont, filha da cantora Eliane de Grammont, assassinada durante um show em 1981, virá a Goiânia para participar da abertura da 32ª Semana da Justiça Pela Paz em Casa, no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). O evento acontecerá na próxima segunda-feira (9/3), às 8h30.
Lili, que transformou a própria história em militância, participará da mesa-redonda com o tema “O Feminicídio e os Desafios na Prevenção: O que Falta para Impedir que Mais Mulheres Sejam Vítimas?”, ao lado da psicóloga Ionara Vieira Moura Rabelo e da juíza Simone Pedra Reis, 1ª vice-coordenadora da Coordenadoria da Mulher do TJGO.
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Feminicídio de cantora
Eliane de Grammont foi vítima de feminicídio em 1981 em um crime que teve repercussão nacional. O ex-marido, o cantor goiano Lindomar Castilho, efetuou vários disparos de arma de fogo durante uma apresentação da artista em um bar, em São Paulo. Pelo crime, ele foi condenado a 12 anos de prisão, tendo deixado o sistema prisional nos anos 1990 após cumprir parte da pena.
Quando a cantora foi morta, a filha tinha apenas 2 anos. Segundo Lili, além da perda da mãe, a prisão do pai representou a ruptura definitiva da estrutura familiar, transformando relações afetivas em ausência e desconfiança.
Estudo
Durante a programação da Semana da Justiça pela Paz em Casa, haverá a apresentação de um estudo inédito que revela um cenário preocupante: mulheres notificadas por suspeita de violência doméstica na rede pública de Goiânia têm risco quatro vezes maior de morrer por causas externas, em comparação à população feminina em geral de Goiás e da capital.
O levantamento analisou dados de 2010 a 2020, a partir da integração de sistemas oficiais de saúde. No período, foram registradas 24.093 notificações de violência, sendo 20.002 classificadas como violência interpessoal. Após o cruzamento das informações, 8.295 mulheres compuseram a amostra final da pesquisa.
Em parte dos casos, as mortes ocorreram em menos de 30 dias após a notificação — um intervalo considerado decisivo para intervenções que poderiam evitar desfechos fatais.
Os dados também apontam fragilidades na rede: aproximadamente dois terços das internações por lesões não apresentavam informação sobre a causa básica, e 70% das internações por agressão não tinham notificação no sistema de vigilância, indicando perda de oportunidades de atuação preventiva.
Por outro lado, o estudo mostra que a integração entre saúde e Justiça salva vidas. Mulheres encaminhadas a serviços de proteção tiveram redução de 40% no risco de internação e de 64% no risco de morte por feminicídio. Quando houve encaminhamento aos serviços da Justiça, a redução foi de 55% no risco de internação e de até 80% no risco de morte.