Rachadinha

Servidores da Comurg cobravam propina de 60% para liberar acordos milionários, diz polícia

Justiça determinou o afastamento imediato de 16 servidores e três prisões por esquema de peculato que gerou rombo de R$ 13 milhões

Imagem da ação
Fraude em requerimentos de desvio de função gerou rombo milionário (Divulgação PCGO)

Servidores da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) cobravam uma propina de 60% para agilizar e aprovar pagamentos irregulares de diferenças salariais a funcionários da própria estatal. O esquema de peculato, que funcionava desde 2022, foi o alvo da Operação Pacto Oculto, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás nesta quinta-feira (21). Ao todo, 55 mandados judiciais foram cumpridos em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Trindade e resultou no afastamento de 16 servidores públicos de suas funções e no sequestro de R$ 3,5 milhões em bens dos envolvidos. Em nota, a empresa informou que as fraudes ocorreram em gestões passadas e que a própria atual administração descobriu os desvios, resultando na demissão de 11 funcionários.

De acordo com as investigações da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), entre os anos de 2022 e 2024, pelo menos 35 empregados da companhia deram entrada em requerimentos administrativos pleiteando diferenças salariais — em sua maioria, alegando supostos desvios de função.

Imagem da operação
A ação mira fraudes que operavam desde 2022 na estatal (Divulgação PCGO)

O que deveria funcionar como um processo rígido de auditoria era, na verdade, um balcão de negócios. A polícia identificou uma espécie de “pacto oculto” entre os beneficiários e servidores estratégicos dos setores de protocolo e do jurídico da empresa. Esses servidores davam andamento célere aos pedidos e deferiam os pagamentos de forma quase imediata, ignorando prazos legais e, principalmente, a total ausência de documentos que comprovassem que os trabalhadores tinham direito àquele dinheiro. Em troca do “favor”, o grupo cobrava uma ‘rachadinha’, ficando com mais da metade do valor bruto recebido pelo empregado.

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Rombo milionário e ordens judiciais

No total, o esquema resultou em 35 acordos extrajudiciais fraudulentos, movimentando cerca de R$ 13 milhões dos cofres públicos. Os investigados poderão responder pelos crimes de falsidade ideológica, peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Entre as medidas expedidas pela Justiça estão três mandados de prisão temporária, 19 de busca e apreensão nos endereços ligados aos investigados, além do afastamento imediato de 16 servidores públicos. A decisão também autorizou 17 quebras de sigilos bancário e fiscal.

Foram apreendidos, aparelhos celulares, computadores, equipamentos eletrônicos e documentos. Todo o material será periciado e analisado pela Dercap para rastrear o destino do dinheiro supostamente lavado e identificar outros possíveis envolvidos no esquema.

A ação mobilizou 105 policiais civis e contou com o acompanhamento de três representantes da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás.

Leia na íntegra a nota da Companhia de Urbanização de Goiânia:

“A Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) esclarece que a operação deflagrada nesta quinta-feira (21/5) pela Polícia Civil de Goiás (PCGO) está relacionada à irregularidades em processos administrativos de gestões anteriores, o que motivou a instauração de procedimentos internos de apuração e o encaminhamento de documentos e informações à Polícia Civil de Goiás (PCGO), ao Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) e à Ordem dos Advogados do Brasil — Seccional Goiás (OAB-GO).

As apurações internas conduzidas pela atual gestão foram iniciadas em janeiro de 2025, sob determinação do prefeito Sandro Mabel. Com encaminhamento formal de evidências pela própria Companhia às autoridades competentes.

As investigações identificaram indícios de pagamentos indevidos e desproporcionais, realizados à margem dos fluxos regulares de tramitação interna, além de evidências de supressão de registros processuais físicos e digitais. Parte dos registros foi posteriormente recuperada por rastreamentos conduzidos pelas equipes técnicas da Companhia.

Desde o início da gestão atual, foram implementadas medidas sistemáticas de controle interno, fiscalização e transparência. Até o momento, foram instauradas 39 apurações internas. Destas, 30 já foram concluídas e os respectivos elementos encaminhados aos órgãos competentes.

No âmbito disciplinar, a Comurg instaurou Processos Administrativos Disciplinares (PADs), resultando na demissão de 11 empregados após comprovação de irregularidades de conduta.

A Comurg reafirma seu compromisso irrestrito com a legalidade, a ética e a correta aplicação dos recursos, e colabora integralmente com todos os órgãos de investigação, fiscalização e controle.”

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