CONFLITOS

Guerra judicial e multa de R$ 20 mil marcaram relação entre síndico e corretora morta em Caldas Novas

Histórico de cortes de luz, multas e processos na Justiça expõe conflitos antigos entre a família da corretora com síndico

SÍNDICO
Síndico Cléber Rosa de Oliveira, de 49 anos, preso após confessar o assassinato da corretora de imóveis Daiane Alves de Souza, em Caldas Novas (Foto: Jucimar de Sousa)

O conflito envolvendo a família da corretora de imóveis Daiane Alves Souza e o síndico Cléber Rosa de Oliveira, que confessou o assassinato da mulher à Polícia Civil, resultou em ao menos 12 processos judiciais entre as partes, com acusações de ofensas, ameaças, perseguição e até agressão física. A primeira briga começou em 2024, mas se prolongou ao longo do ano passado. Cléber foi preso na quarta-feira (28), em Caldas Novas, com o filho.

Um dos conflitos aconteceu em maio de 2025 e envolveu a mãe da corretora, Nilse Alves Pontes. Ela registrou um boletim de ocorrência após ser alvo de ofensas em um grupo de WhatsApp formado por moradores do condomínio. Segundo o registro policial, o síndico teria publicado mensagens no grupo chamando Nilse e seus familiares de “quadrilha de delinquentes”. Ela afirmou que soube das mensagens por meio de terceiros e relatou que as declarações causaram constrangimento e estimularam comentários ofensivos de outros participantes do grupo.

Nilse decidiu representar criminalmente contra o síndico. O caso foi registrado como um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por suposto crime de difamação.

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Mãe da corretora assassinada registrou um boletim de ocorrência após ser alvo de ofensas em um grupo de WhatsApp (Foto: Reprodução)

Porém, ao analisar o processo, a Justiça entendeu que o caso não poderia mais seguir. Isso porque a difamação é um crime de iniciativa privada e exige que a vítima apresente uma queixa-crime no prazo de até seis meses após identificar o autor da ofensa. Como esse prazo não foi respeitado, o Judiciário reconheceu a perda do direito de punir o síndico. Com isso, o procedimento foi arquivado e ele não chegou a ser intimado.

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Síndico foi processado por irmã da corretora

Outra disputa judicial foi ajuizada por Fernanda Alves Souza, irmã de Daiane, um mês após as ofensas contra a mãe. No processo, ela relata que passou a enfrentar dificuldades para alugar os apartamentos por temporada no Condomínio Golden Thermas Residence após retirar a administração das unidades das mãos do síndico e passar para Daiane. Ao todo, a corretora era responsável por seis unidades no condomínio, que conta com estrutura de hotel, shopping e parque aquático.

Segundo Fernanda, a partir dessa mudança, a gestão do condomínio passou a criar obstáculos para a família alugar os apartamentos, com cortes frequentes de energia elétrica, principalmente quando os imóveis estavam ocupados por turistas. Além da energia, também teriam ocorrido interrupções no abastecimento de água e a imposição de outras restrições administrativas.

Condomínio foi multado em R$ 20 mil por medidas adotadas pelo síndico

Diante da situação, Fernanda e Daiane acionaram a Justiça pedindo o restabelecimento dos serviços essenciais e alegando abuso de poder por parte do síndico. Cléber justificava os cortes afirmando que a corretora descumpria regras internas do condomínio, como a suposta entrada irregular de hóspedes e a realização de atividades proibidas no local.

Com o avanço da disputa, as divergências se intensificaram. Trocas de mensagens, notificações sucessivas e confrontos presenciais viraram parte da rotina entre Daiane e o síndico. Em outubro de 2025, ambos chegaram a se encontrar em uma audiência judicial, mas a tentativa de conciliação terminou sem acordo. Por fim, a Justiça de Goiás entendeu que as medidas adotadas pela administração foram ilegais, determinou o religamento imediato da energia elétrica e aplicou multa de R$ 20 mil ao condomínio.

Último corte de energia antecedeu o crime

No dia 17 de dezembro de 2025, data do desaparecimento da corretora, a energia do apartamento foi novamente cortada. Nas últimas imagens registradas, Daiane aparece descendo de elevador em direção ao subsolo do prédio, enquanto gravava um vídeo no celular para denunciar a situação. Depois disso, ela não foi mais vista.

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Corretora desapareceu após descer ao subsolo de prédio para religar energia em Caldas Novas (Foto: Reprodução/Vídeo)

Segundo a Polícia Civil, foi nesse momento que o crime ocorreu. O corpo de Daiane só foi encontrado mais de 40 dias depois, em uma área de mata da cidade, após o próprio síndico indicar o local.

Polícia aponta motivação ligada aos conflitos

De acordo com o delegado André Barbosa, do Grupo de Investigação de Homicídios de Caldas Novas, os conflitos judiciais e administrativos ajudaram a esclarecer a motivação do crime. “Antes mesmo de encontrarmos o corpo, os elementos do inquérito já indicavam que o síndico tinha o meio, o motivo e a oportunidade para cometer o crime”, afirmou.

Além de Cléber, o filho dele, Maycon Douglas, também foi preso, suspeito de tentar atrapalhar as investigações ao ajudar na compra de um novo celular após o crime. A polícia segue apurando o envolvimento dele na ocultação do corpo.