Terça-feira, 14 de Julho de 2026
INCÊNDIO

Imagem destruída em Nerópolis foi construída com recursos pessoais para pagar promessa, revela ex-prefeito

Monumento inaugurado em 2006 foi financiado pelo então prefeito Wilmar Teixeira após uma graça alcançada, motivou investigação do Ministério Público e se tornou um dos principais símbolos religiosos da cidade

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Antes e depois: imagem de Nossa Senhora Aparecida, um dos símbolos de Nerópolis, antes do incêndio e durante as chamas que destruíram o monumento. Crédito: Reprodução / Arquivo pessoal / Redes sociais

A destruição da imagem de Nossa Senhora Aparecida na entrada de Nerópolis revelou uma história desconhecida até por muitos moradores da cidade. Muito antes de se tornar um dos principais cartões-postais do município, a escultura nasceu do cumprimento de uma promessa pessoal do então prefeito Wilmar Teixeira.

Construída em 2005, inaugurada em 2006 e instalada às margens da rodovia de acesso à cidade, a obra foi financiada integralmente com recursos particulares do ex-prefeito, sem utilização de dinheiro público. A revelação foi feita por Wilmar em entrevista exclusiva ao Mais Goiás, um dia após o incêndio que destruiu completamente o monumento de aproximadamente dez metros de altura e provocou comoção entre moradores e fiéis. 

Segundo o ex-prefeito, a construção da imagem foi motivada por uma promessa feita a Nossa Senhora Aparecida após uma graça alcançada. “Foi uma promessa minha. Recebi uma graça e prometi que faria a imagem. Cumpri essa promessa com recursos meus. Não teve um centavo da prefeitura”, disse. 

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A decisão, entretanto, acabou provocando uma denúncia ao Ministério Público. Na época, Wilmar foi acusado de utilizar o cargo para favorecer a Igreja Católica. Segundo ele, o procedimento foi encerrado depois que comprovou que toda a obra havia sido paga com dinheiro próprio.” Disseram que eu estava beneficiando a Igreja Católica. Mostrei ao promotor que não havia dinheiro público. Era uma promessa pessoal e fui eu quem pagou”, justificou. 

Wilmar contou que apresentou a nota fiscal da obra durante a investigação. O documento permaneceu anexado ao procedimento e, quase vinte anos depois, ele já não possui uma cópia. “Infelizmente não tenho mais a nota fiscal. Ela ficou no processo. Lembro apenas que a imagem foi feita por um artesão muito conhecido, que trabalhava na região entre Goiânia e Nerópolis e era bastante procurado para esse tipo de escultura”, apontou. 

Segundo o ex-prefeito, a imagem custou R$ 12 mil em 2005. Atualizado apenas pela inflação oficial, esse valor corresponde hoje a aproximadamente R$ 35 mil. Wilmar estima, entretanto, que uma nova imagem semelhante exigiria investimento próximo de R$ 70 mil, considerando o custo atual de materiais, estrutura metálica, transporte e mão de obra especializada.

Monumento virou símbolo da fé e da identidade de Nerópolis

Ao longo de quase duas décadas, a imagem deixou de representar apenas o cumprimento de uma promessa para se tornar um dos principais símbolos religiosos, culturais e turísticos de Nerópolis. Instalada na entrada da cidade, recebia moradores, romeiros e visitantes que chegavam ao município e passou a integrar a identidade local. O incêndio destruiu completamente a estrutura e agora as causas são investigadas pela Polícia Civil, que ainda aguarda os laudos periciais. 

Para Wilmar, a destruição provocou uma forte comoção porque a religiosidade faz parte da história da cidade. “Nerópolis é uma cidade de tradição católica. As pessoas ficaram muito abaladas. Foi uma tragédia para a cidade”, detalhou o ex-prefeito. 

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A devoção a Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar central na religiosidade brasileira. De acordo com o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,7% da população brasileira com 10 anos ou mais se declara católica, o equivalente a 100,2 milhões de pessoas, mantendo o catolicismo como a maior religião do país. 

A história da padroeira do Brasil começou em 1717, quando os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia encontraram, nas águas do Rio Paraíba do Sul, primeiro o corpo e depois a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. O episódio deu origem a uma das maiores manifestações religiosas da América Latina. Em 1930, o papa Pio XI proclamou oficialmente Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil, consolidando uma devoção que atravessa gerações. Atualmente, o Santuário Nacional de Aparecida recebe milhões de peregrinos todos os anos. 

Embora a veneração de imagens faça parte da tradição católica, algumas denominações evangélicas interpretam essa prática de forma diferente. Especialistas em liberdade religiosa destacam que divergências doutrinárias são legítimas em um Estado laico, mas não podem ser confundidas com atos de intolerância contra patrimônios religiosos. Até o momento, não há confirmação de que o incêndio em Nerópolis tenha sido motivado por intolerância religiosa, e a Polícia Civil trabalha com diferentes linhas de investigação, incluindo falha elétrica, fogo provocado por velas e eventual ação criminosa. 

Apesar da destruição da imagem, Wilmar afirma que pretende colaborar caso o monumento seja reconstruído. “Se precisarem de mim, estou pronto para ajudar novamente. Aquela imagem nasceu de uma promessa de fé, mas acabou se tornando parte da história de Nerópolis”, explicou. 

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