Juiz nega pensão a PM que alegou exposição ao Césio-137 em áreas de isolamento
Magistrado informou não haver provas suficientes de que as doenças apresentadas pelo autor tenham relação com a exposição à radiação
O juiz da 3ª Vara Federal Cível, Leonardo Buissa Freitas, negou indenização e pensão vitalícia a um policial militar goiano que alegou exposição à radiação quando atuou no isolamento de áreas contaminadas pelo Césio-137, em Goiânia. A decisão é da última semana.
Ao justificar a negativa ao pedido do PM aposentado, Freitas informou não haver provas suficientes de que as doenças apresentadas pelo autor tenham relação com a exposição à radiação. A informação foi divulgada pelo Metrópoles nesta segunda-feira (30).
Conforme documento ao qual o veículo teve acesso, o policial ingressou na corporação em 1990, alguns anos após o acidente, mas atuou no isolamento de locais contaminados pelo Césio-137. Ele afirmou que também prestou serviços em Abadia de Goiás, onde funcionou o depósito provisório de rejeitos radioativos.
O agente também alegou que, no período, atuou como guarda dessas áreas e não teve acesso a equipamentos de proteção adequados nem orientações sobre os riscos. Ele ainda disse na ação que, devido ao trabalho, desenvolveu problemas de saúde, especialmente psicológicos, que estariam relacionados à exposição ou ao trauma do período trabalhado.
Ainda assim, o magistrado entendeu não haver provas de que as doenças teriam relação com o Césio-137. Para ele, os exames apresentados não foram suficientes. O juiz ainda ressaltou que o não comparecimento do policial à perícia médica, que poderia endossar os pedidos, pesou na decisão.
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Acidente do Césio-137
Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, envolvendo o Césio-137. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia.
Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso. O material se espalhou rapidamente, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.
Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que abriu a cápsula e encontrou o pó radioativo. Devair mostrou a novidade para vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, as pessoas começaram a ter tontura, vômitos e diarreia, principalmente Devair e sua esposa Maria Gabriela.
Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para a sua filha, Leide das Neves, de apenas 6 anos. A menina posteriormente foi jantar, ingerindo o Césio-137 por meio da refeição. Ela não sobreviveu. Maria Gabriela levou a peça até a Vigilância Sanitária, contribuindo com a contaminação de mais pessoas, pois o trajeto foi feito de ônibus.
O alerta e a contaminação generalizada
Apenas em 29 de setembro de 1987 foi dado o alerta que todas essas áreas foram atingidas por radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) pediu para que os moradores fossem transferidos para um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Mais de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e submetidas a intensos banhos para descontaminação.
O acidente resultou em quatro mortes confirmadas: Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas por equipes médicas especializadas. Mais de 110 mil pessoas foram acompanhadas. Centenas de locais, incluindo residências, ruas e veículos, foram desinfectados ou removidos devido à contaminação. A cidade de Goiânia enfrentou um processo complexo de descontaminação, com a remoção de solo e materiais contaminados.
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