Médico diz que bebê com cardiopatia grave em Goiânia não é caso de emergência e explica motivo
Especialista detalha a Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo e reforça que criança está estável e fora de risco imediato
O bebê Enrico dos Santos Silva, internado desde o nascimento em Goiânia, enfrenta uma das cardiopatias congênitas mais graves conhecidas pela medicina, mas seu estado de saúde atual é considerado estável e não configura uma situação de emergência cirúrgica. O esclarecimento foi feito pelo coordenador médico da área de cardiologia pediátrica do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), Tiago Dietrich, que explicou o diagnóstico, o tratamento e a real necessidade da transferência para um centro de alta complexidade.
“O Enrico tem uma cardiopatia congênita, ou seja, um problema no coração com o qual o bebê já nasce. Esse tipo de condição atinge aproximadamente uma em cada 100 crianças, com diferentes níveis de gravidade. No caso do bebê, trata-se da forma mais complexa: a Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo. Todo o lado esquerdo do coração dele é hipodesenvolvido. O ventrículo esquerdo é menor, assim como a válvula mitral, a válvula aórtica e a própria aorta, que é responsável por levar o sangue para o corpo”, detalha o especialista.
O médico esclareceu também que, apesar da complexidade do caso, a próxima cirurgia não é emergencial. “O Enrico está na categoria de cirurgia eletiva, ou seja, programada. Não é uma situação de urgência ou emergência. Cada criança é avaliada individualmente e no caso dele, ele pode ser operado com segurança até por volta dos oito ou nove meses”, afirmou.
Tiago Dietrich explica ainda que a cardiopatia pode ser identificada ainda durante a gravidez, por meio do ecocardiograma fetal, mas nem sempre isso acontece.
Estado de saúde atual de Enrico
De acordo com o médico, o bebê de quatro meses apresenta estabilidade clínica no momento. “Ele está respirando em ar ambiente, não precisa de medicamentos para manter a função do coração e não faz uso de drogas vasoativas, que são comuns apenas em pacientes críticos de UTI”, ressaltou.

Apesar disso, o profissional pondera que a condição do menino exige vigilância constante. “Qualquer criança cardiopata pode apresentar piora do quadro, mesmo estando estável, por isso o acompanhamento é contínuo”, explicou.
Tratamento em três etapas
A Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo não tem cura definitiva, apenas tratamentos paliativos feitos em três etapas para melhorar a qualidade de vida da criança.
A primeira etapa foi realizada com menos de um mês de vida em setembro do ano passado e teve outra cirurgia complementar em outubro. “Foi feito um procedimento híbrido, com a colocação de um stent no canal arterial e a cerclagem das artérias pulmonares, para regular o fluxo de sangue para os pulmões”, explicou. Segundo o especialista, essa intervenção permitiu que Enrico respirasse sem ajuda de aparelhos, ganhasse peso e alcançasse estabilidade.
Agora, o bebê aguarda a segunda fase do tratamento, etapa que motivou a mobilização da família junto ao Ministério Público. “Nessa fase, nós ampliamos a aorta e ligamos a veia cava superior à artéria pulmonar, reorganizando a circulação”, explicou o médico.
Leia também:
Apesar de ser uma cirurgia programada, o procedimento exige alto grau de complexidade e estrutura especializada, o que levou os familiares de Enrico a solicitar com urgência a transferência para o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo. O bebê precisa realizar essa nova intervenção em um centro de referência, já que o Hugol não dispõe de todos os recursos necessários.
Entre os recursos necessários está a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO). “É um equipamento que funciona como um coração e pulmão artificiais, usado caso haja falha cardíaca ou respiratória após a cirurgia”, explicou o médico. Segundo ele, essa tecnologia ainda é restrita a poucos hospitais no Brasil, principalmente em São Paulo.
A terceira etapa do tratamento, conhecida como cirurgia de Fontan, costuma ser realizada entre os três e quatro anos de idade.

“A gravidade da doença não significa que ele esteja em risco imediato de morte. O tratamento está sendo conduzido com planejamento, segurança e dentro do que a medicina recomenda”, concluiu o coordenador médico da área de cardiologia pediátrica do Hugol, Dr. Tiago Dietrich.
O Ministério Público de Goiás estabeleceu um prazo de 48 horas para que a Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) se manifeste e adote providências para garantir o procedimento cirúrgico ao bebê. A cobrança foi feita pela 38ª Promotoria de Justiça de Goiânia, após a família acionar o órgão diante da dificuldade para continuar com o tratamento pelo SUS.