Médicos do Hospital Infantil de Campinas denunciam salários atrasados e estrutura precária
Profissionais também alegam falta de triagem, laboratório interditado e descaso da diretoria em Goiânia
Cerca de 14 médicos deixaram o Hospital Infantil de Campinas, em Goiânia, devido aos pagamentos atrasados. Alguns profissionais procuraram o Mais Goiás e informaram que alguns não recebem há vários meses e a dívida acumulada com o grupo é de quase R$ 290 mil. A unidade nega as acusações (confira a nota abaixo).
Eles também narraram tentativas frustradas de negociação com a diretoria, que não tem cumprido os cronogramas de pagamento. Junto ao prejuízo, os médicos também afirmam que existem falhas operacionais que comprometem a segurança da assistência pediátrica.
No começo deste ano, por exemplo, o pronto-socorro chegou a funcionar sem equipe de triagem. Ele também ficou fechado por seis horas seguidas pela ausência de plantonistas. Já o laboratório interno foi interditado pela Vigilância Sanitária em janeiro. Com isso, famílias precisaram buscar exames em outros estabelecimentos, mas a instituição continuava a faturar com os planos de saúde, conforme a denúncia.
Os relatos também incluem a falta de insumos básicos e a remoção de grupos internos de comunicação após denúncias de irregularidades. Um dos médicos, inclusive, recebeu notificação de busca e apreensão do próprio veículo por falta de pagamento. O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) articulou um acordo formal para quitação da dívida em parcelas, mas o compromisso segue sem cumprimento.
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Relatos
Ao Mais Goiás, um dos médicos relatou que não trabalha mais no local, mas quando entrou recebeu alerta de colegas acerca dos atrasos de pagamentos e a forma como lidavam com essa situação. “Porém, na época estava sem emprego e acabei optando por ficar lá”, esclareceu.
Segundo ele, a equipe e os profissionais com quem conheceu e trabalhou não têm nada a pontuar, apenas sobre o atraso salarial. “Estou desde janeiro sem receber. Mando mensagem, entro em contato com o financeiro e nunca obtive uma resposta. Já tentamos falar com os representantes do hospital e a promessa é que vão movimentar para realizar os pagamentos em atraso, até datas já estipularam, mas nada aconteceu.”
Segundo ele, o responsável pelo financeiro nunca respondeu a uma mensagem dele. “E creio que de outros colegas também. Minha indignação e reivindicação principal é só receber o que é meu por direito. Ofereci serviço ao hospital e quero receber o que é meu”, argumentou. Esse médico trabalhou de outubro a dezembro de 2025 e diz só ter recebido o primeiro mês. Segundo, entretanto, há colegas em situação bem mais dramática.
Outro profissional deu um depoimento semelhante. Ele, que preferiu não informar os débitos para não ser identificado, diz que realizou plantões noturnos, fins de semana e feriados na instituição, mas saiu sem receber. Ele afirma que os profissionais lesados atenderam cerca de 50 mil pacientes, e o hospital recebeu por esses atendimentos, mas os trabalhadores não. “Houve momentos em que eu não tinha dinheiro nem para o combustível para chegar ao plantão. Mesmo assim, fui. Porque as crianças precisavam de mim.”
O médico também alega que o hospital sabia de todos os problemas, desde atraso de salários e falta de triagem, e outros já citados. Ele também enfatizou que foram, pelo menos, nove promessas de pagamento do fim do ano passado ao começo deste ano, todas documentadas e descumpridas. A situação, inclusive, tem afetado a relação familiar devido à falta de dinheiro para despesas básicas.

Avaliação no Google
A situação da unidade reflete, inclusive, nas avaliações publicadas no Google. Em uma análise realizada na terça-feira (14), uma mulher reclama do descaso. “Primeira vez vindo a esse hospital e o atendimento é um lixo. Não tem enfermeiro na triagem, que é o mínimo de uma emergência, demora para chamar… Para passar pelo médico mais de 3 horas, um descaso, muito decepcionada.”
Dias antes, outra pessoa afirmou que na “emergência somente uma médica atendendo, superlotação, os ar-condicionados não funcionam, não tem laboratório. Já foi referência, hoje é calamidade”. E mais uma: “Hospital que está sempre cheio e está colocando somente um médico para atender a emergência, gerando mais de 2 horas esperando. E não é a primeira vez que isso acontece. Já vim 3 vezes e se repete a mesma coisa.”
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Cremego
Em nota, o Cremego informou que recebeu uma comissão de médicos relatando a falta de pagamento e que já notificou o hospital e o diretor-técnico em busca de respostas e possíveis soluções para o problema. “O Cremego também notificará o Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) sobre o ocorrido e espera que a solução ocorra com agilidade. O respeito à profissão é obrigação dos gestores e possíveis descumprimentos às resoluções do Cremego e do Conselho Federal de Medicina (CFM) e ao Código de Ética Médica também serão apurados”, completa o documento enviado ao portal.
Hospital
O Mais Goiás buscou a administração do hospital para comentar as denúncias. Em nota, a instituição afirmou que as informações não são verdade, pois, desde a mudança de gestão em setembro 2023, “tem desenvolvido trabalho transparente, ético e responsável de regularização de diversas pendências herdadas das gestões anteriores”. O texto diz, ainda, que “a despeito das questões financeiras que estão sendo sanadas seguindo o cronograma junto aos credores, a qualidade técnica do atendimento não sofreu qualquer abalo, mantendo a excelência já conhecida pela comunidade goiana, permitindo que a instituição se mantenha em plena atividade, prestando essencial serviço a centenas de pacientes todos os meses, e considerada referência no atendimento de saúde pediátrica em todo estado de Goiás”
Negou, ainda, qualquer episódios de ausência de triagem conforme mencionado, “o que tornaria insustentável a continuidade da atividade, em especial pelo volume de atendimento potencial em pronto-socorro infantil”. Quanto à interdição do laboratório terceirizado, “esclarecemos que foram apresentadas irregularidades documentais junto à Vigilância Sanitária quando da renovação do alvará da referida empresa, não tendo havido qualquer apontamento que pudesse resultar em insegurança e risco à saúde ou integridade dos usuários, motivo pelo qual se deu a interdição de forma parcial, com expressa permissão de continuidade de atendidos aos pacientes internados”.
Confira na íntegra:
O Hospital Infantil de Campinas, por intermédio de sua advogada, Dra. Larissa Nunes de Carvalho, esclarece que as informações repassadas ao Mais Goiás, mediante denúncia, carecem de veracidade, na medida em que a instituição, desde a mudança da gestão em setembro de 2023, tem desenvolvido trabalho transparente, ético e responsável de regularização de diversas pendências herdadas das gestões anteriores.
No entanto, a despeito das questões financeiras que estão sendo sanadas seguindo o cronograma junto aos credores, a qualidade técnica do atendimento não sofreu qualquer abalo, mantendo a excelência já conhecida pela comunidade goiana, permitindo que a instituição se mantenha em plena atividade, prestando essencial serviço a centenas de pacientes todos os meses, e considerada referência no atendimento de saúde pediátrica em todo estado de Goiás.
Especialmente quanto à alegadas falhas operacionais, afirmamos o compromisso diário e recorrente com o atendimento de todas as normas legais e quantitativos operacionais, não tendo havido episódios de ausência de triagem conforme mencionado, o que tornaria insustentável a continuidade da atividade, em especial pelo volume de atendimento potencial em pronto-socorro infantil.
A respeito da interdição do laboratório terceirizado que atendia a demanda do Hospital Infantil de Campinas, esclarecemos que foram apresentadas irregularidades documentais junto à Vigilância Sanitária quando da renovação do alvará da referida empresa, não tendo havido qualquer apontamento que pudesse resultar em insegurança e risco à saúde ou integridade dos usuários, motivo pelo qual se deu a interdição de forma parcial, com expressa permissão de continuidade de atendidos aos pacientes internados.
Todavia, a representante legal do laboratório havia falecido na semana da interdição, o que, diante da impossibilidade de se ter a regularização documental com celeridade e retorno total dos atendimentos, resultou na substituição da empresa, motivo pelo qual o DNA Laboratório tem atendido aos pacientes do Hospital, prestando seus serviços com a qualidade merecida e com a devida regularidade exigida pelos órgãos de fiscalização.
Oportunamente, o Hospital manifesta seu respeito à comunidade, aos prestadores de serviços de todos os setores, seus fornecedores e demais, bem como destaca a importância de que os convênios e parceiros repassem os valores devidos pelos serviços prestados nas datas contratadas, ponderando que, em virtude da ausência de recebimento de valores de serviços prestados a usuários do SUS e do IMAS, que juntos somam valor milionário, torna-se reduzida a possibilidade de solução de todas as questões com a brevidade desejada pela administração do Hospital.
Por fim, diversamente do que tem sido veiculado, o Hospital firmou acordo para quitação de valores de honorários médicos, com a interveniência do CREMEGO, estando provisionado o pagamento do saldo remanescente, de apenas R$ 38 mil, para o próximo dia 6 de maio.
Reforçamos nosso compromisso com a verdade, nos colocamos à disposição para quaisquer novos esclarecimentos.”