LEVANTAMENTO

Metade dos estrangeiros que se mudam para Goiás recebe Bolsa Família

Migrantes estão espalhados por mais de 200 municípios goianos. Cidadãos de nacionalidade venezuelana lideram lista

Venezuelanos sendo atendidos durante a Operação Acolhida - (Foto Alexandre Manfrim/Governo Federal)
Venezuelanos sendo atendidos durante a Operação Acolhida - (Foto Alexandre Manfrim/Governo Federal)

Considerado um refúgio para migrantes, Goiás possui uma população de 6.721 estrangeiros beneficiados pelo Bolsa Família. O dado representa mais da metade (52,6%) dos 12.769 migrantes atualmente residentes no Estado, conforme dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Goiás (Seds). 

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O levantamento aponta uma alta de 5,2% no número de refugiados beneficiados, se comparado a 2023, quando foram registrados 6.384 migrantes cadastrados no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico). Dos beneficiários, 67,4% (4.354) são de nacionalidade venezuelana. Os outros 32,6% (2.367), que também contam com o auxílio, são indivíduos de países como Cuba, Portugal, Haiti, Espanha, Bolívia, Colômbia, Estados Unidos, Afeganistão, Peru, Bélgica, Argentina e Reino Unido. 

O público feminino detém a maior parte dos beneficiários, chegando a 59% (3.970), enquanto que os homens representam 49% (2.751). Do total de migrantes cadastrados no CadÚnico, 34 vivem em situação de rua – o equivalente a 56,6% de 60. O gênero masculino é responsável por 81,6% das pessoas em extrema situação de vulnerabilidade (confira gráfico abaixo). 

A Venezuela também domina o volume de migrantes no Estado, com 6.866 (53,7%) cidadãos de 12.769 contabilizados. O país é seguido por Haiti/República do Congo (765), Portugal (742), Cuba (547) e Espanha (532). Os estrangeiros estão distribuídos em mais de 200 municípios, com maior presença em 13 cidades: 

  • Goiânia (4.078)
  • Aparecida de Goiânia (889)
  • Anápolis (870)
  • Rio Verde (471)
  • Valparaíso de Goiás (445)
  • Cidade Ocidental (366)
  • Águas Lindas de Goiás (348)
  • Mozarlândia (343)
  • Senador Canedo (306)
  • Luziânia (258)
  • Jataí (254)
  • Trindade (248)
  • Caldas Novas (191)
  • Goianira (171)

“A predominância de migrantes venezuelanos está diretamente relacionada à crise humanitária, econômica e política na Venezuela, que provocou um dos maiores fluxos migratórios da história recente da América Latina”,  afirma a gerente de Direitos Humanos da Seds, Biany Lourenço.

O Brasil passou a receber migrantes venezuelanos de forma mais intensa a partir de 2017, principalmente pelo estado de Roraima. Com a criação da Operação Acolhida, muitos venezuelanos foram interiorizados para diversos estados, incluindo Goiás. A população costuma chegar ao país por mecanismos legais de residência temporária ou reconhecimento da condição de refugiado.

Migração 

Como na Venezuela, o desemprego, conflitos armados e até mesmo questões políticas são alguns dos fatores que fizeram com que os migrantes deixassem os países de origem para se aventurar em terras goianas. O motorista de aplicativo, Erbe Antonio Rechimon, de 54 anos, faz parte do grupo de estrangeiros que escolheram Goiás para viver. 

Casado há mais de 20 anos com uma goiana, o argentino deixou Buenos Aires há 12 anos para dar mais conforto à família, especialmente à filha, de 14 anos, portadora de síndrome de Down. No entanto, nunca recebeu ajuda do governo.

“Primeiro fomos para Jaraguá e, depois, nos mudamos para Goiânia. Cheguei a Goiânia em janeiro de 2015. Fui muito bem recebido e nunca tive nenhum problema em nenhum estado do Brasil”, conta. 

Logo que se mudou para a capital, o argentino se deparou com uma nova realidade. Embora bem recepcionado, Erbe esbarrou em algumas dificuldades, especialmente com a adaptação à língua, à comida e ao intenso trânsito. 

Perguntado se pretende voltar para o país de origem, o motorista do aplicativo afirmou que sente saudades da sua terra, mas que não pensa em deixar Goiás devido à atual situação econômica e política da Argentina. O país, que vive uma crise econômica e desvalorização da moeda, atingiu uma inflação anual de 32,4% em janeiro, em aceleração ante os 31,5% registrados em dezembro, conforme o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec).

“Algum dia pode ser que eu volte para a Argentina, mas não é fácil começar tudo de novo. Já tenho minha vida aqui”, concluiu.

Estado visado

Biany explica que Goiás tem se destacado como destino de migrantes por uma combinação de fatores econômicos, sociais e institucionais. Segundo ela, o estado apresenta crescimento econômico constante, especialmente nos setores do agronegócio, construção civil, indústria e serviços, o que amplia oportunidades de trabalho formal e informal. Além disso, possui localização estratégica no centro do país, facilitando deslocamentos e integração logística.

Outro fator é a existência de uma rede de atendimento estruturada, com articulação entre governo estadual, municípios, sociedade civil e órgãos federais, como a Polícia Federal (PF) e a Defensoria Pública da União (DPU), o que garante acesso à documentação e regularização migratória.

“Goiás tem consolidado políticas públicas voltadas à interiorização e integração social, o que gera segurança institucional para quem chega. Goiás desenvolve ações específicas voltadas à população migrante, refugiada e apátrida, especialmente no âmbito da Secretaria de Desenvolvimento Social”, diz.

Entre os principais instrumentos criados pelo governo estadual está o Plano de Políticas Públicas para Migrantes, Refugiados e Apátridas, que organiza diretrizes nas áreas de:

  • Regularização documental
  • Acesso à assistência social
  • Inserção no mercado de trabalho
  • Enfrentamento ao tráfico de pessoas