Obrigados a contribuir

Mulher processa 9 irmãos para que ajudem a cuidar de mãe com Alzheimer em Goiás

Decisão favorável determina ajuda financeira para garantir cuidados antes garantidos exclusivamente por apenas uma das filhas durante sete anos

Decisão obriga nove irmãos a contribuir financeiramente para garantir tratamento e cuidador para mulher de 87 anos em Valparaíso de Goiás
Mulher idosa (Foto: Freepik)

Uma mulher obteve na justiça decisão favorável para que 9 irmãos sejam obrigados a pagar pensão mensal e, assim, ajudar no sustento da mãe com Alzheimer em Valparaíso de Goiás. Em estágio avançado da doença, Maria Socorro de Araújo, de 87 anos, é cuidada por apenas uma das filhas há sete anos. Maria Suzana Araújo, de 59, que enfrenta depressão e histórico de câncer, buscou intervenção judicial após não conseguir acordo familiar.

A determinação foi assinada pelo juiz Rodrigo Victor Foureaux Soares, da Vara de Famílias e Sucessões de Valparaíso de Goiás, após ação apresentada pela Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO). O pedido solicitou o pagamento mensal de R$ 4.554 para custear despesas essenciais da idosa, como alimentação, medicamentos, fraldas, acompanhamento médico e assistência contínua.

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Filhos devem amparar pais na velhice

Segundo a defensora pública Ketlyn Chaves, responsável pelo caso, a medida foi considerada urgente para garantir condições mínimas de sobrevivência e dignidade. Ela explica que a obrigação dos filhos não é apenas moral, mas prevista em lei. “A Constituição Federal estabelece que filhos maiores devem amparar os pais na velhice quando eles não conseguem se manter sozinhos. O valor deverá ser dividido entre os irmãos e pago todo dia 10”, explica.

A ação também se baseou no Estatuto da Pessoa Idosa e na Política Nacional de Cuidados. Além disso, a pensão ainda pode ser revista futuramente, caso fique comprovado um custo de vida maior e apresentado formalmente no processo.

Sete anos sozinha

A decisão levou em conta a situação de sobrecarga vivida por Suzana, única responsável direta pelos cuidados diários da mãe. “A rotina começa por volta das 3h da manhã, horário em que a idosa costuma acordar desorientada em razão da doença. O dia para ela só termina por volta das 20h30, quando Socorro vai dormir”, ressalta a defensora.

Laudo do Hospital Universitário de Brasília (HUB) confirma que Maria Socorro depende totalmente de terceiros para atividades básicas e relata que a filha apresenta quadro depressivo grave e sinais de esgotamento físico e emocional. O documento também aponta que Suzana não tem apoio familiar suficiente e já demonstra dificuldades até para administrar corretamente a medicação da mãe.

Rotina desgastante

Além disso, Suzana também enfrenta problemas de saúde. Diagnosticada com câncer de mama há 20 anos, abandonou o acompanhamento médico por falta de tempo para consultas. “O principal objetivo da pensão é contratar um cuidador profissional para cuidar da mãe enquanto ela retome o tratamento contra o câncer sem se preocupar em deixar a mãe sem apoio”, destaca Ketlyn.

Maria Socorro está no estágio 4 do Alzheimer, considerado grave, e também tem osteoporose e transtorno de personalidade histriônico. Em vários momentos do dia, ela entra em desespero, grita e pede socorro acreditando estar presa, já que não consegue sair sozinha de casa. Para acalmar a idosa, a filha faz massagens e tenta conversar acompanhando as memórias confusas da mãe.

Reações dos irmãos

Entre os nove filhos, alguns disseram concordar com a decisão judicial, enquanto outros afirmaram que ainda aguardam notificação oficial para se posicionar. “Um deles chegou a dizer que a medida já deveria ter sido tomada antes, outro disse que apoia a contratação de cuidadores, mas defende que a ajuda seja destinada exclusivamente à mãe”, afirma a defensora.

Crescimento de ações semelhantes

Segundo a Defensoria Pública, processos desse tipo têm se tornado mais frequentes com o envelhecimento da população brasileira. Casos chegam ao Judiciário quando há sobrecarga de apenas um familiar ou quando não há consenso sobre a divisão de despesas e responsabilidades.

Para a defensora, decisões judiciais como essa reforçam que o cuidado com idosos dependentes deve ser compartilhado. “Quando a família não consegue resolver sozinha, a Justiça pode garantir que essa responsabilidade seja dividida de forma justa”, afirmou.

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