O que é ‘morte encefálica’, termo usado no caso da idosa atropelada na avenida T-9
Caso da idosa atropelada na Avenida T-9 reacende dúvidas sobre o diagnóstico, auditoria e possibilidade de doação de órgãos
O caso da idosa Maria Celina Chein ,de 82 anos, atropelada durante um assalto na Avenida T-9, em Goiânia, que permaneceu internada em estado gravíssimo no Hospital de Urgências de Goiás (Hugo) até ter o óbito confirmado nesta quinta-feira (8), trouxe novamente à tona dúvidas da população sobre o que significa, na prática, a abertura de um protocolo de morte encefálica. A paciente está internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), entubada e inconsciente, após sofrer traumatismo craniano grave ao ser atingida pelo próprio carro durante a fuga do criminoso.
Segundo o médico intensivista e coordenador de UTI do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), Dr. Gustavo Prudente Gonçalves, a morte encefálica representa a perda completa e irreversível de todas as funções do cérebro. “Morte encefálica é um dano irreversível de todo o sistema nervoso central. Quando isso acontece, não existe possibilidade de recuperação. Na morte encefálica sempre vai ter a ausência de movimentos respiratórios espontâneos”, explica o médico.
O especialista esclarece que o Brasil possui uma das legislações mais rigorosas do mundo para confirmar esse tipo de óbito. O protocolo exige dois exames clínicos feitos por médicos diferentes, além do chamado teste de apneia, que avalia a capacidade do paciente de respirar sem ajuda de aparelhos. Também é obrigatório um exame complementar, que pode analisar o fluxo sanguíneo cerebral, a atividade elétrica do cérebro ou o metabolismo cerebral.
“O diagnóstico só é fechado após todas essas etapas. Antes disso, existe apenas uma suspeita. Quando o protocolo é concluído, o paciente é considerado legalmente em óbito, e o horário do óbito é o momento do último exame que confirmou a morte encefálica”, afirma Gustavo.
Além disso, todo o processo é auditado pelas centrais de transplantes. “É um diagnóstico extremamente seguro. Não há margem para erro quando o protocolo é corretamente seguido e auditado”.
Diferença entre morte encefálica, coma e estado vegetativo
Um dos equívocos mais comuns, segundo o médico, é confundir morte encefálica com coma ou estado vegetativo. “Mesmo em estados de consciência muito reduzida, o tronco cerebral ainda funciona. A pessoa ainda respira, mantém reflexos básicos. Na morte encefálica isso não existe, o sistema nervoso central está completamente comprometido”, esclarece.
Ele acrescenta que relatos de pessoas que “acordaram do coma” não se aplicam à morte encefálica. “Quando o diagnóstico é confirmado, não há possibilidade de reversão”
O que acontece após a confirmação?
Após o fechamento do protocolo, dois caminhos são possíveis: a manutenção dos suportes apenas por um curto período ou a possibilidade de doação de órgãos, desde que a família autorize. “Somente parentes de primeiro ou segundo grau podem autorizar a doação. A família tem direito de receber todas as explicações, acompanhar os exames e até indicar um médico de confiança para acompanhar o processo”, reforça Dr. Gustavo, que também é responsável técnico da Gerência de Transplantes.
Se houver autorização, os órgãos viáveis são avaliados e distribuídos conforme critérios técnicos, por meio do Sistema Nacional de Transplantes. O processo envolve equipes médicas, centrais de regulação, logística de transporte e fiscalização permanente. O médico também destaca que existem muitos mitos sobre o tema.
“A gente tem muita negativa familiar por desinformação, por achar que existe tráfico de órgãos. As pessoas não imaginam que o processo de doação é altamente complexo. Para um órgão ser captado, depois ser implantado, ele é auditado por uma regional e pelo Sistema Nacional de Transplantes. Um processo que envolve centenas de pessoas, entre profissionais do hospital que fez o diagnóstico, do Estado onde foi feita a captação e do Estado onde foi transplantado. Muitas vezes envolve sistema de aviação, tanto público quanto privado, bombeiro, polícia. Então, no cenário atual, é impossível que aconteça um furto de órgão, um tráfico de órgão no Brasil”.
Importância da informação e do diálogo familiar
De acordo com o intensivista e coordenador de UTI, a principal dificuldade para ampliar o número de transplantes ainda é a negativa familiar, muitas vezes causada pela falta de informação.
“Muitas famílias recusam porque não entendem o que é a morte encefálica ou nunca conversaram sobre doação. Quando a família já sabe que aquele era o desejo do paciente, a decisão costuma ser mais tranquila, mesmo em um momento tão doloroso. A doação só acontece com a autorização da família. Por isso, é fundamental que as pessoas conversem, se informem e deixem claro seu posicionamento em vida”, ressalta Dr. Gustavo Prudente Gonçalves.
No caso de Maria Celina Chein, o último exame que confirmou a morte encefálica foi realizado nesta quinta-feira (8), às 13h04, horário em que óbito foi registrado.