LEMBRANÇAS

Pioneiro da PRF que morreu em Goiânia disse em pescaria que era sua ‘despedida’

Antônio Aparecido Flamínio, que foi da 1ª turma da PRF em Goiás, é lembrado por amigos como bom conselheiro e pessoa generosa

Pioneiro da PRF que morreu em Goiânia disse em pescaria que era sua 'despedida' (Foto cedida ao Mais Goiás)
Pioneiro da PRF que morreu em Goiânia disse em pescaria que era sua 'despedida' (Foto cedida ao Mais Goiás)

O falecimento de Antônio Aparecido Flamínio, que tinha 91 anos e foi da 1ª turma da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Goiás, consternou amigos. Um deles é o produtor rural Osmar Saran, de 77 anos, com quem o ex-PRF costumava pescar em um rancho que tinham entre Buriti Alegre e Água Limpa. Na última pescaria juntos, em novembro de 2025, Flamínio disse para o amigo que aquela era a despedida dele do hobby que cultivaram por anos. Mas não era uma premonição da morte iminente: o policial aposentado enfrentava um problema de saúde que limitava a sua locomoção.

Flamínio e Osmar construíram uma amizade que se entrelaçou com a história das famílias deles. O ex-PRF foi padrinho de casamento dos dois filhos do companheiro. Um deles, o engenheiro de produção Silvio Saran, 47, ainda se lembra de conselhos que ouvia: “quando eu me casei, ele disse que há dois momentos do dia em que eu não se deve discutir com a esposa: na hora da refeição e de dormir. Ele considerava esses momentos sagrados”, relata o engenheiro.

Silvio diz que além de bom conselheiro, Flamínio era tranquilo, ponderado, conversava sobre política, futebol, e gostava de contar histórias da época em que atuou na PRF: “ele afirmava que na época dele não tinha radar, então ele e o parceiro é que decidiam quais carros deveriam ser multados por causa da velocidade elevada”. Também foi Flamínio quem se dispôs a ser fiador do contrato de aluguel residencial quando Silvio deixou Morrinhos para vir estudar em Goiânia.

O policial aposentado tinha uma filha que vive na Bélgica (com quem, segundo amigos, ele tinha uma belíssima relação) e era apaixonado pelo dois netos gêmeos. Gabava-se inclusive do fato de as crianças serem poliglotas apesar de novas. Nos últimos anos, vivia com o vazio deixado pelo falecimento da esposa Albertina, mas lidava com o luto com leveza. Era presença constante na vida de amigos, para quem mandava mensagens de “bom dia” todos os dias, antes do amanhecer.

Morre aos 91 anos Antônio Flamínio, referência histórica da PRF em Goiás e pioneiro nas rodovias federais (Foto: Divulgação/PRF)

Ex-PRF mandava mensagens todo dia

Quem já sente falta dos cumprimentos matinais regulares do amigo é a dona de casa Carla Cristina Rodrigues dos Santos, de 34 anos. Por sete anos, ela e o marido foram inquilinos em um dos imóveis de Flamínio. O locatário tinha o costume de ir ao encontro do casal para tomar um café à tarde e jogar conversa fora. Veio dele o conselho para reservar uma parte da renda para construir um patrimônio.

Carla levou o conselho a sério, juntou dinheiro e conseguiu sair do aluguel. Hoje, ela e o marido têm uma residência própria no setor Cândida de Morais, em Goiânia. Ela se lembra do inestimável apoio que recebeu na época em que ainda morava de aluguel e o marido, o eletricista Heliton Rodrigues de Sousa, 38, entrou em depressão.

“Era sempre uma mensagem de apoio e de carinho. Ele dizia pra gente ter fé, que tudo ia passar. Quando meu esposo enfrentou aquela fase difícil, ele falou pra gente não se preocupar com o aluguel, porque isso a gente resolveria depois. Que o mais importante era o Heliton ficar bem. Um ser humano extremamente generoso, compreensivo, que me mandava mensagem todo dia. Já tô sentindo falta”, afirma Carla.

“Eu morria de rir quando a gente ia de carro visitá-lo e os costumes de policial afloravam. Ele já chegava dizendo que meu marido estava recebendo multa naquele instante por dirigir de chinelo. Depois, batia na luz de freio e falava: ‘queimada’. Eu virava pro meu esposo e dizia: ‘você veio aqui só pra tomar multa do seu Antônio?'”.