Venezuelanos ocupam vagas de até dois salários mínimos em comércio e serviços de Goiás
Dados indicam concentração em vagas de menor qualificação e que recebem até dois salários mínimos
O mercado de trabalho formal em Goiás registrou 4.200 admissões e 3.361 desligamentos de trabalhadores nascidos na Venezuela. Os dados são de 2025 e resultam em um saldo positivo de 839 vínculos, segundo o Instituto Mauro Borges de Pesquisa e Política Econômica (IMB), com base em microdados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged). Ao todo, foram 7.561 movimentações de emprego formal no período.
Apesar do saldo positivo em 11 dos 12 meses do ano – registrando queda apenas em dezembro -, os dados revelam alta rotatividade no emprego formal. Mais da metade dos desligamentos (50,4%) ocorreu por pedido de demissão voluntária, enquanto 27,4% foram dispensas sem justa causa.
A maioria dos vínculos é ocupada por adultos em idade ativa, desses 74,6% das movimentações são de trabalhadores entre 18 e 39 anos. Quanto à escolaridade, 60,5% possuem ensino médio completo. Apesar disso, as ocupações concentram-se majoritariamente em funções que não exigem qualificação técnica, como comércio e vendas, serviços pessoais e de limpeza, construção civil e atividades ligadas à agroindústria e manutenção.
Média de salário
Em termos salariais, 67,3% das movimentações estão na faixa de um a dois salários mínimos, e 30,8% na faixa de até um salário mínimo. A carga horária predominante é de 41 a 44 horas semanais, correspondendo a 88,8% dos registros.
O levantamento integra um estudo mais amplo do IMB que analisa a migração venezuelana em Goiás com base em registros administrativos do Conare, da Polícia Federal (SisMigra) e do Novo Caged. Segundo o relatório, não há evidências de aumento sustentado nos fluxos migratórios ou nas solicitações de refúgio no estado após o agravamento das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Venezuela a partir de setembro de 2025.
Mercado de trabalho para os venezuelanos
Em entrevista ao Mais Goiás, a venezuelana Yoselin Velásquez, de 32 anos, contou como tem sido trabalhar e viver no Brasil. Há sete anos no país, ela passou primeiro por Boa Vista, em Roraima, e depois se mudou para Goiânia, motivada por uma proposta de emprego.
Como não tinha condições de pagar a passagem, precisou pedir carona para chegar à capital. Segundo ela, o trajeto durou cerca de três meses. Yoselin conta que chegou à cidade em 2019, mas pouco tempo depois a pandemia de Covid-19 dificultou a busca por emprego. Ainda assim, conseguiu se estabelecer e passou por diferentes trabalhos.
Na capital, trabalhou em restaurantes e também em uma lavanderia hospitalar durante o período mais crítico da pandemia. Em um dos restaurantes, localizado no setor Marista, atuou por dois anos e seis meses. Antes disso, também trabalhou em outros estabelecimentos na cidade, como um restaurante no centro de Goiânia e outro na região do Estádio Serra Dourada, mas por pouco tempo devido às restrições da pandemia. Em todos os locais, Yoselin afirma que trabalhou com carteira assinada.
Atualmente, Yoselin trabalha como cozinheira em um restaurante localizado no Jardim Novo Mundo, onde prepara os pratos servidos no local. Natural da Venezuela, ela conta que decidiu deixar o país quando a situação econômica começou a piorar. Antes de migrar, cursava Gestão de Recursos Humanos e ajudava a família na produção rural.

“Minha família tem chácara e fazenda. A gente plantava milho, tomate, pimentão, criava galinhas e fazia queijo. Eu ajudava muito lá”, lembra.
Mesmo distante dos parentes, que permanecem na Venezuela, Yoselin diz que conseguiu construir uma vida estável no Brasil. “Eu moro sozinha com meu cachorro. Consigo pagar minhas contas, mandar um pouquinho de dinheiro para minha família. Goiânia é muito boa. Dos lugares que conheci no Brasil, é o melhor”, afirma.