Terça-feira, 21 de Julho de 2026
ARTE GOIANA

Goiana leva ancestralidade afro-brasileira à disputa do Prêmio Pipa 2026

Artista de Goiânia está entre os 17 classificados para o segundo turno; votação termina domingo (26) e premiação chega a R$ 10 mil

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Artista visual goiana Òkun está entre os 17 classificados para o segundo turno do PIPA Online 2026. Crédito: Divulgação/Prêmio PIPA

A artista visual goiana Òkun está no segundo turno do Pipa Online 2026, categoria decidida por votação popular do Prêmio Pipa. Nascida em Goiânia em 2000, ela transforma referências da espiritualidade afro-brasileira, da memória familiar e da vida no Cerrado em pinturas que tratam de fé, pertencimento e ancestralidade.

A votação começou na segunda-feira (20) e permanece aberta até as 23h59 de domingo (26). O resultado será divulgado na segunda-feira (27). O artista mais votado receberá R$ 10 mil, enquanto o segundo colocado ficará com R$ 5 mil.

Òkun está entre os 17 classificados para a etapa final. No primeiro turno, realizado entre 6 e 12 de julho, 56 dos 63 artistas indicados ao prêmio participaram da votação. Avançaram os nomes que atingiram pelo menos 500 votos.

A contagem foi zerada no encerramento da primeira fase e recomeçou do zero no segundo turno. Segundo o regulamento, votos identificados como originados de robôs serão excluídos do resultado. As regras e a lista de concorrentes estão disponíveis no site oficial do Prêmio Pipa.

Pintura como ligação com a espiritualidade

Formada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Òkun utiliza a pintura como parte de um processo de conexão com a espiritualidade. Sua produção reúne símbolos ligados às práticas de terreiro da Umbanda e da Kimbanda de Lei, além de lembranças familiares e referências transmitidas entre gerações.

A artista chama sua linguagem de “Pintura de Encruzilhadas”. O conceito apresenta a encruzilhada como espaço de encontro, escolha, transformação e comunicação entre o mundo material e o espiritual.

Nas obras, elementos como búzios, velas, sementes, palha e contas aparecem como parte da construção de sentidos. Não funcionam somente como objetos decorativos. Eles representam práticas de fé, conhecimentos preservados pelas comunidades e formas de ligação com os antepassados.

De acordo com o perfil oficial da artista no Prêmio Pipa, a pintura funciona como um processo de preservação e continuidade. O trabalho procura registrar saberes afro-brasileiros que, durante parte da história do país, foram perseguidos, marginalizados ou afastados dos espaços institucionais de arte.

A produção também parte da relação de Òkun com as avós, do respeito aos mais velhos e da transmissão de conhecimentos dentro das famílias. As experiências pessoais são incorporadas às imagens para discutir a importância da fé na vida de pessoas negras.

Do Cerrado a Nova York

Òkun vive e trabalha em Goiânia. Desde 2023, atua como assistente de arte de Dalton Paula e integra o Ateliê/Escola de Arte Sertão Negro, espaço dedicado à formação, pesquisa e produção artística na capital goiana.

Criado por Dalton Paula e pela pesquisadora e educadora Ceiça Ferreira, o Sertão Negro reúne artistas e projetos relacionados à memória, à cultura afro-brasileira, à educação e ao território. O espaço também participou da 36ª Bienal de São Paulo com a instalação coletiva “Sertões”, da qual Òkun fez parte.

A trajetória da artista já alcançou instituições de diferentes estados e do exterior. Em 2021, ela participou de “Crônicas Cariocas”, no Museu de Arte do Rio. Dois anos depois, integrou “Dos Brasis: Arte e Pensamento Negro”, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, e “Mulheres que Mudaram 200 Anos”, na Caixa Cultural Brasília.

Em 2025, a produção chegou a Nova York por meio da exposição “Sertão Negro: Território Vivo”, realizada na Storefront for Art and Architecture. No mesmo ano, Òkun participou da mostra “O Sertão é o Nosso Centro”, no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia.

A artista também possui trabalhos em acervos do Museu de Arte do Rio, da Caixa Cultural de Brasília, do Instituto Ibirapitanga, da Casa de Leodegária, na cidade de Goiás, e do Instituto Afro-indígena Brasileiro Guerreiros de Aruanda, em Goiânia.

Além das exposições, Òkun ilustrou obras da escritora moçambicana Lília Momplé, entre elas “Neighbours”, “Ninguém Matou Suhura” e “Os Olhos da Cobra Verde”. Também trabalhou na ilustração de “Tecnologias Ancestrais de Produção de Infinitos”, de Cidinha da Silva.

Como funciona o Pipa Online

Diferentemente de outras modalidades, todos os artistas da edição podem escolher participar da votação popular. No segundo turno, o eleitor não precisa selecionar três nomes. A organização alerta que alguns usuários enfrentam dificuldades ao utilizar o navegador Safari e recomenda, nesses casos, o acesso por Chrome, Firefox ou Edge.

Criado em 2010, o Prêmio Pipa chega à 17ª edição em 2026. A iniciativa mantém uma base com mais de 650 páginas dedicadas a artistas brasileiros e um acervo de mais de 800 vídeos sobre arte contemporânea.

A classificação de Òkun coloca uma artista formada em Goiás e com produção ligada ao Cerrado na etapa popular da premiação. O resultado dependerá dos votos registrados até domingo. A votação pode ser acessada na página oficial de Òkun.

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