Entrevista

“O cinema goiano precisa aprender a utilizar o som”, diz Beto Strada

Com 42 filmes no currículo, o compositor e arranjador José Roberto Strada, ou Beto Strada,…

Com 42 filmes no currículo, o compositor e arranjador José Roberto Strada, ou Beto Strada, atua no cinema há 44 anos, criando trilhas sonoras. Na carreira, estão filmes como Excitação, do angolano Jean Garret, com o qual levou o prêmio de melhor compositor da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), até as comédias Os Trapalhões, o drama O Homem de Papel e o documentário Da Origem ao Fim do Câncer. Ele oferece, pela primeira vez, um workshop ensinando a técnica de foley em Goiânia, neste sábado (30).

“Esse workshop faz parte de uma oficina de som para cinema chamada O Som em Cena, em que eu falo sobre música no cinema, sobre linguagem dos ruídos e realizo uma sessão de foley. A Oficina Cultural Gepetto me propôs que eu fizesse um dia de foley, e eu criei esse workshop”, explica ele.

Para quem não está familiarizado com a linguagem do cinema, ele esclarece: “Foley é todo o som que você ouve em um filme. Em qualquer filme você vê o trabalho de um profissional chamado artista do foley. Ele serve justamente para quando um filme for mandado para fora do Brasil ter uma banda sonora só com ruídos e música, sem diálogo. Você não pode, em uma banda original, extrair os diálogos, porque já está tudo mixado. É preciso de um artista do foley para dublar o copo que caiu, os passos dos atores, o tiro que é dado na sequência”.

“Esse workshop vai tratar sobre os sons que acontecem em um filme, da dublagem, e vai produzir o som da música incidental do filme que nós vamos utilizar para sonorizar. E o filme é nada mais, nada menos, do que o clipe Thriller, do Michael Jackson. Todas aquelas imagens do zumbi se desenterrando, da tumba abrindo, da porta abrindo e saindo zumbi, vão ter os sons produzidos pelos alunos”, diz Strada. “É a primeira experiência, e espero que as pessoas voltadas para o cinema, que estudam e trabalham em televisão, em produtoras, e que querem aprender sobre o som para cinema aproveitem o excelente momento”.

Para ele, o cinema local não se preocupa tanto quanto deveria com o áudio, embora seja sintomático de todo o País. “A minha oficina corre pelas unidades do Sesc pelo Brasil. Estou indo agora de volta a Santos, depois para Bauru, São Paulo, e depois passo por cinco cidades ligadas ao movimento MIS Cultural, do Museu da Imagem e do Som, que tem várias sedes pelo interior de São Paulo. Em todos os lugares que eu vou, a oficina está lotada. Lá não tem mais vagas, porque as pessoas estão começando a entender a importância do som”.

“Eu acho que o cinema goiano precisa muito aprender a utilizar o som. Há poucos dias eu estive no estival de Anápolis [6º Anápolis Festival de Cinema], onde tem bons cineastas, com boa criatividade, interpretação, decupagem de roteiro, e isso é legal, mas a realização do som, meu Deus do céu – é uma coisa absolutamente horripilante. Porque falta conhecimento. A impressão que dá é que é fácil fazer som, e não é”, defende ele.

“Eu estive em Buenos Aires”, continua, “em uma escola de cinema, e você precisa ver a importância que eles dão para o áudio. O áudio é 50%, e tem que ter a mesma importância do visual, senão fica descaracterizada a criação do filme. Eu vi filmes em Anápolis em que só se ouve o diálogo, e eu perguntei para o diretor, mas e o ruído ambiente do carro que está passando ali fora, e os passos das pessoas andando dentro de uma câmara fechada, sem acústica? O cinema brasileiro só agora melhorou o trabalho de som que está sendo feito, porque a tecnologia facilitou muito a vida das pessoas que trabalham com essa atividade. Mesmo assim, ainda tem erros brutais, que eu me pergunto como conseguiram fazer com toda essa tecnologia na mão. É descuido, má vontade de cuidar dessa área, por achar que isso não é muito importante. É lamentável”.

Sobre sua carreira, ele afirma estar em sua melhor fase agora. “Trabalhei com o cinema nacional inteiro, fiz uma muita coisa na área da publicidade, jingles, e hoje eu sou professor de som para cinema, e é o que eu mais curto fazer, que é ensinar tudo que eu aprendi a fazer durante todos esses anos. Vou também estrear um programa de televisão, chamado Ouvindo Cinema – Onde o Som Produz Magia, que vai acontecer muito em breve. Ele vai ser veiculado na TV paga, mas o canal ainda está sendo negociado. Estou também musicando um novo longa-metragem em Brasília agora, meu quadragésimo terceiro”.

Seu primeiro longa-metragem foi feito em 1972. Nas décadas seguintes, vieram diversos trabalhos, que se tornariam famosos como cinema trash brasileiro. Os mais marcantes, porém, foram com a equipe de Renato Aragão. “Adorei trabalhar nos Trapalhões, porque trabalhei com a orquestra da Rede Globo. Trabalhei em um filme chamado Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, em que tive a honra de trabalhar com a orquestra, que tinha 60 figuras. A trilha foi feita com arranjos meus e condução do grande maestro Alceo Bocchino. Trabalhei com os Trapalhões em três filmes, que foram a Guerra dos Planetas, O Cinderelo Trapalhão e o Rei e os Trapalhões”.

No teatro, dirigiu, por exemplo, a peça Xandu Quaresma, de 1983, com Antônio Fagundes, que ficou quatro anos em cartaz. O suspense Excitação, com o qual foi premiado, de acordo com ele, recebe uma fama injusta devido ao título. “O filme é super bem pensado, em termos de roteiro, e só tinha o nome Excitação porque naquela época, se você não pusesse um nome mais chamativo, o pessoal não ia ao cinema. Mas era um filme de suspense, com Flávio Galvão”, argumenta.

Para fazer a trilha sonora, ele precisa estar envolvido do começo ao fim com a obra cinematográfica. Ele explica o processo: “Primeiro o diretor me oferece o roteiro. Depois de eu ler esse roteiro diversas vezes e ficar absolutamente dentro da história que ele está contando, passo a pensar no tema do personagem principal do filme. A partir dele é criada uma música, levo para o diretor, e ele precisa aprovar. Eu só começo a fazer a trilha depois que o filme está editado, quando vou ver quantas variações sobre o tema principal serão necessários, que tipo de música incidental eu vou ter que fazer, se vai ser necessário compor mais um tema para outro personagem que tenha uma força grande na história, e a música vai se desenvolvendo dessa forma”.

O workshop Um Dia de Foley será ministrado na Oficina Cultural Geppetto, a partir das 9h, com 12 horas de duração. O valor é de R$150, e a inscrição pode ser feita no local. Haverá certificado para os participantes. A oficina fica localizada na Rua 1013, no Setor Pedro Ludovico.

Assista o trabalho de um artista do foley nas imagens de divulgação do curso: