Prédio abandonado que terá obras retomadas em Goiânia foi inspirado em construção icônica de Los Angeles
O prédio redondo abandonado há cerca de 30 anos no Centro de Goiânia, que poderá ter as obras retomadas para se transformar em apartamentos de aluguel por temporada, tem uma...
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O prédio redondo abandonado há cerca de 30 anos no Centro de Goiânia, que poderá ter as obras retomadas para se transformar em apartamentos de aluguel por temporada, tem uma história que começa a mais de 8 mil quilômetros da capital goiana. O edifício, localizado na esquina da Avenida Araguaia com a Rua 2, teve como referência arquitetônica a sede da gravadora Capitol Records, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
O imóvel foi idealizado em 1991 para funcionar como um centro de serviços médicos, mas a construção parou em 1995 e nunca foi concluída. O destino da estrutura voltou à discussão na terça-feira (20), quando o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) anunciou que os atuais proprietários pretendem recuperar o edifício e transformá-lo em unidades residenciais destinadas à locação por temporada, inclusive pela plataforma Airbnb.
A proposta surgiu após fiscalizações motivadas por reclamações sobre ocupações irregulares, falta de manutenção e problemas de segurança. Apesar do anúncio, o novo projeto ainda depende de aprovação municipal e não existe prazo divulgado para o início da reforma.
Prédio redondo foi inspirado em sede de gravadora americana

A história do Redondo da Araguaia começou em 1991, quando o empresário Ely Pascoal encomendou à arquiteta identificada como Tânia F. um projeto para instalar a sede do laboratório de análises clínicas Nobel e consultórios destinados a profissionais da saúde.
O formato circular, que até hoje chama a atenção de quem passa pela Avenida Araguaia, nasceu de um esboço inspirado no desenho de um parafuso. A concepção também incorporou referências à Capitol Records Tower, edifício inaugurado em 1956, em Los Angeles, na Califórnia.
A torre americana foi projetada pelo arquiteto Louis Naidorf, do escritório Welton Becket Associates, e possui 13 pavimentos. Sua estrutura cilíndrica e os elementos horizontais da fachada ficaram associados à imagem de uma pilha de discos, em referência à atividade da gravadora.
Em Goiânia, a proposta era adaptar o conceito arquitetônico para um empreendimento comercial voltado à área médica. O projeto previa a instalação de um laboratório e salas destinadas a atendimentos e serviços de saúde.
A ligação entre os dois edifícios foi documentada em 2017 pelo arquiteto Matheus Vaz, em um trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Federal de Goiás (UFG). A pesquisa recuperou informações sobre a concepção do prédio, a interrupção das obras e as possibilidades de reaproveitamento da estrutura.
Por que o Redondo da Araguaia nunca ficou pronto?

Embora tenha sido idealizado no começo dos anos 1990, o empreendimento começou a ser construído somente em 1994. A execução avançou por aproximadamente um ano, até ser interrompida no final de 1995, em razão de dificuldades financeiras e falta de pagamentos à construtora.
Segundo o levantamento de Matheus Vaz, o investimento realizado até a paralisação correspondia a aproximadamente 30% do valor necessário para concluir o empreendimento.
O contexto econômico da época também aparece nos relatos sobre a construção. Parte dos investimentos do proprietário estaria vinculada ao dólar, e as mudanças econômicas após a implantação do Plano Real teriam afetado sua capacidade de financiar a continuidade dos trabalhos.
Com a paralisação, o edifício permaneceu sem revestimentos, instalações completas e os acabamentos previstos no projeto original.
Em 2012, a construção foi transferida a um fundo de investimento ligado à empresa Guardiã Imóveis. A mudança de titularidade, entretanto, não resultou na conclusão das obras.
Ao longo das décadas seguintes, o imóvel passou a integrar a paisagem urbana do Centro de Goiânia, apesar de nunca ter recebido os serviços médicos para os quais havia sido planejado.
Prefeitura anuncia projeto para transformar edifício em apartamentos
Após três décadas sem conclusão, o Redondo da Araguaia poderá finalmente receber uma nova destinação. Na terça-feira, o prefeito Sandro Mabel anunciou que um novo grupo de proprietários pretende transformar a construção em apartamentos para locação por temporada.
Segundo o prefeito, os atuais responsáveis adquiriram o imóvel há cerca de um ano e demonstraram interesse em investir na recuperação da estrutura. O projeto de readequação, elaborado com a participação de um arquiteto, ainda precisa ser formalmente apresentado à Prefeitura de Goiânia para análise e aprovação.
A administração municipal informou que avaliações estruturais recentes apontaram condições favoráveis ao aproveitamento das fundações e lajes existentes. Isso permitiria utilizar parte da construção original, em vez de iniciar uma obra inteiramente nova.
Os laudos, entretanto, não substituem as autorizações necessárias para a reforma e a mudança de finalidade do edifício. Até o momento, não foram informados o número de apartamentos, o valor do investimento, a identidade do profissional responsável pelo novo projeto ou a previsão de entrega das unidades.
Proprietários terão de reforçar segurança antes da reforma

A proposta de recuperação foi anunciada após uma sequência de reclamações de moradores e comerciantes sobre as condições do imóvel. No início de outubro, a Prefeitura de Goiânia autuou o responsável pelo Redondo da Araguaia por problemas relacionados à conservação, segurança, higiene e salubridade.
A fiscalização ocorreu após um relatório da Polícia Militar de Goiás apontar riscos associados ao abandono da construção. Segundo a administração municipal, a estrutura vinha sendo utilizada para ocupações irregulares, o que provocava preocupação entre pessoas que trabalham e circulam pela região.
Como primeira etapa, os proprietários deverão reforçar o isolamento do terreno. As intervenções anunciadas incluem a retirada de tapumes de madeira danificados, construção de muros de alvenaria, instalação de portões reforçados e uso de concertinas. Essas medidas têm como objetivo impedir novas entradas não autorizadas enquanto o projeto de recuperação é desenvolvido.
O prefeito também afirmou que não pretende permitir a permanência de imóveis abandonados por tempo indeterminado no Centro. Durante a visita, Mabel declarou que os proprietários terão um prazo para apresentar uma solução. Caso isso não aconteça, a prefeitura poderá adotar procedimentos para a demolição do edifício.
A possibilidade de implosão, no entanto, ainda não representa uma decisão definitiva. Não foi divulgado um prazo para a medida, que dependeria de avaliações técnicas e procedimentos legais.
Prédio abandonado também virou projeto acadêmico
O Redondo da Araguaia despertou o interesse de estudantes e pesquisadores de arquitetura, que passaram a estudar alternativas para recuperar a construção sem eliminar sua estrutura original. Em 2017, Matheus Vaz apresentou, na UFG, uma proposta de reutilização do edifício como hostel, com restaurante e café no terraço.
O projeto considerava a localização central e o formato da construção como elementos que poderiam favorecer uma nova utilização comercial.
Em 2025, outro trabalho acadêmico, desenvolvido por Gabriela Siqueira Nascimento na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), propôs transformar o imóvel em um centro de artes.
A proposta incluía ambientes destinados à formação artística, exposições e atividades culturais. Nenhum dos dois projetos acadêmicos chegou a ser executado.
Agora, a possibilidade de instalar apartamentos representa uma terceira alternativa de ocupação, desta vez apresentada pelos proprietários e anunciada oficialmente pela prefeitura.
Construção poderá ganhar nova função após três décadas
A mudança de finalidade do Redondo da Araguaia também se relaciona às discussões sobre a ocupação residencial do Centro de Goiânia.
A prefeitura pretende estimular a utilização de imóveis existentes e ampliar a presença de moradores na região central, onde parte dos edifícios comerciais apresenta baixa ocupação ou permanece sem utilização.
No caso do Redondo da Araguaia, a proposta prevê apartamentos destinados a estadias de curta duração, e não necessariamente moradias permanentes.
A viabilidade do empreendimento dependerá da aprovação do projeto, das condições de segurança e da execução das intervenções necessárias para adaptar a estrutura às exigências atuais.
Enquanto essas etapas não forem concluídas, o prédio continuará sendo uma construção inacabada.
O edifício que começou como uma referência à arquitetura de Los Angeles, foi planejado para atender pacientes e profissionais da saúde e atravessou três décadas sem conclusão poderá, pela primeira vez, receber uma utilização efetiva.
A história do Redondo da Araguaia, entretanto, ainda depende de um capítulo que nunca chegou a acontecer desde 1995: o término da obra.