Crítica: ‘The Mandalorian’ é uma série ótima, que piora quando tenta expandir seu próprio universo
Primeira série live-action da franquia encontrou força ao reduzir Star Wars a um homem, uma criança e uma missão; três temporadas depois, expansão da mitologia tirou Din Djarin do centro da própria história
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A série ‘The Mandalorian’, primeira série live-action da franquia Star Wars, encontrou força ao transformar uma guerra galáctica na relação entre um homem e uma criança; três temporadas depois, a expansão de Mandalore e das conexões com outras produções tirou Din Djarin do centro da própria história
The Mandalorian encontra sua melhor ideia justamente quando decide diminuir Star Wars. Em vez de outra batalha pelo destino da galáxia, a série apresenta um caçador de recompensas solitário, uma criança perseguida e uma relação que lentamente se transforma em paternidade. É simples, emocional e funciona.
O problema aparece quando a produção deixa de confiar nessa simplicidade.
Ao longo de três temporadas, Din Djarin e Grogu passam a dividir espaço com a política de Mandalore, o Sabre Negro, a reconstrução da Nova República, personagens das animações e histórias que começam ou terminam em outras séries. The Mandalorian fica maior como universo e menor como narrativa.
Essa mudança ajuda a explicar uma diferença significativa na recepção. As duas primeiras temporadas têm 93% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. A terceira cai para 85%. O índice geral da série permanece alto, com 90%, mas a mudança coincide justamente com a temporada que amplia a mitologia e desloca parte do protagonismo de Din Djarin para Bo-Katan.
É aí que está a principal contradição de uma das produções mais importantes da era Disney de Star Wars: The Mandalorian ajudou a renovar a franquia porque parecia não precisar de todo o resto de Star Wars. Depois, começou a depender justamente desse resto.
A melhor decisão foi diminuir Star Wars
The Mandalorian estreia em novembro de 2019 como a primeira série live-action de Star Wars. A história se passa depois da queda do Império e acompanha Din Djarin pelas regiões menos controladas da galáxia. A definição oficial da Lucasfilm ainda resume a premissa de forma direta: um mandaloriano solitário atravessa uma galáxia sem lei ao lado de Grogu.
A simplicidade importa.
A primeira temporada não precisa colocar o destino da República em jogo para produzir tensão. Din trabalha por contratos, entra em cantinas, enfrenta criminosos e cruza territórios onde a queda do Império não resolveu a ausência de autoridade.
A influência do faroeste aparece de forma evidente. O protagonista fala pouco, chega a comunidades ameaçadas, atravessa paisagens hostis e mantém distância emocional.
Até encontrar Grogu.
A partir daí, a série deixa de ser apenas sobre um caçador de recompensas. Passa a acompanhar um homem que construiu a identidade a partir de regras e começa a quebrá-las por outra pessoa.
Essa é a verdadeira história de The Mandalorian.
Grogu funciona porque muda Din Djarin

Grogu se transforma rapidamente em fenômeno de cultura pop. A aparência facilita brinquedos, memes e produtos, mas não explica sozinha por que o personagem sustenta três temporadas e chega posteriormente ao cinema.
Ele funciona porque provoca transformação.
Din começa a série cumprindo contratos. Quando recebe a missão de entregar a criança, inicialmente faz exatamente aquilo para o qual foi contratado.
Depois volta.
Essa decisão altera todo o personagem.
Ele passa a enfrentar antigos aliados, desafiar o próprio grupo, abandonar trabalhos e questionar regras que antes pareciam absolutas.
O capacete resume essa mudança.
Para Din Djarin, mostrar o rosto não representa apenas retirar uma peça da armadura. Significa violar um código religioso e identitário.
Por isso, quando a série finalmente o faz retirar o capacete diante de Grogu, a cena funciona sem precisar explodir uma nave ou apresentar um novo vilão.
O conflito não é galáctico.
É pessoal.
A segunda temporada encontra o equilíbrio
A segunda temporada amplia Star Wars sem abandonar o eixo emocional da série.
Boba Fett retorna. Ahsoka Tano aparece. Bo-Katan ganha espaço. Luke Skywalker chega ao final.
Seria fácil transformar tudo em catálogo de participações especiais.
Mas existe uma função narrativa: Din procura alguém capaz de compreender e ensinar Grogu.
O resultado é uma temporada que consegue expandir o universo sem trocar a relação entre os protagonistas pela expansão.
Isso fica evidente no último episódio.
O retorno de Luke produz impacto porque mobiliza décadas de memória de Star Wars. Entretanto, o verdadeiro desfecho acontece alguns metros ao lado, entre Din e Grogu.
Din percebe que precisa permitir que a criança parta.
Retira o capacete.
Grogu toca seu rosto.
A série poderia encerrar naquele momento uma etapa completa da relação entre os dois.
E então comete uma de suas decisões narrativas mais discutíveis.
A maior mudança acontece em outra série
Quem termina a segunda temporada de The Mandalorian vê Din e Grogu separados.
Quem começa diretamente a terceira encontra os dois juntos novamente.
A explicação não está entre esses episódios.
Está em O Livro de Boba Fett.
É nessa série que Grogu treina com Luke Skywalker, enfrenta a escolha entre seguir o caminho Jedi ou voltar para Din e termina reunido ao Mandaloriano.
A própria Lucasfilm, antes da estreia da terceira temporada, orienta o público a acompanhar The Mandalorian e O Livro de Boba Fett para chegar à nova fase da história.
É mais do que um detalhe cronológico.
Uma das principais consequências emocionais da segunda temporada é revertida fora da própria série.
A lógica do universo compartilhado começa a superar a autonomia narrativa.
Para o fã que acompanha todas as produções, funciona como conexão.
Para quem assiste apenas The Mandalorian, existe um buraco entre duas temporadas.
A terceira temporada fica maior e Din fica menor

A terceira temporada muda de escala.
Mandalore deixa de funcionar apenas como parte da identidade de Din e passa a ocupar o centro político da narrativa. A reunificação dos mandalorianos, a recuperação do planeta, o Sabre Negro e a ascensão de Bo-Katan ganham espaço.
Nada disso é irrelevante.
O problema é outro.
A série se chama The Mandalorian, mas seu personagem mais interessante durante parte dessa etapa já não é necessariamente Din Djarin.
Bo-Katan recebe conflitos políticos, passado, culpa, liderança e objetivo.
Din frequentemente acompanha.
Katee Sackhoff constrói uma personagem capaz de sustentar esse espaço. A questão não está na qualidade de Bo-Katan, mas no deslocamento provocado no protagonista.
O Sabre Negro sintetiza a mudança.
A segunda temporada termina com Din conquistando a arma em combate e, portanto, entrando involuntariamente em uma disputa de legitimidade sobre Mandalore.
Era uma promessa narrativa.
Na terceira temporada, a série encontra uma maneira de transferir novamente a arma para Bo-Katan e seguir outra direção.
A solução cabe nas regras daquele universo.
Dramaticamente, encerra rapidamente um conflito que parecia destinado a transformar Din.
Os números apontam a mudança de recepção
Avaliação agregada não determina se uma obra é boa ou ruim.
Ela permite, porém, observar mudanças na recepção.
No Rotten Tomatoes, a primeira temporada registra 93% de aprovação da crítica. A segunda repete 93%. A terceira cai para 85%. A média crítica da série fica em 90%.
O dado não demonstra que a expansão da mitologia causa a queda. Não existe relação causal que possa ser estabelecida apenas a partir dessas porcentagens.
O que os números mostram é que a temporada em que The Mandalorian altera sua estrutura também recebe avaliação inferior às duas anteriores.
Isso reforça uma hipótese perceptível na própria narrativa: quanto mais a série se aproxima de uma engrenagem de universo compartilhado, menos singular se torna a história que originalmente a diferenciava.
O problema de Star Wars é querer conectar tudo
The Mandalorian não existe isoladamente.
Boba Fett sai da série e recebe produção própria. Ahsoka aparece antes de protagonizar Ahsoka. Personagens criados nas animações migram para o live-action. O Livro de Boba Fett resolve acontecimentos fundamentais de Din e Grogu.
Jon Favreau chegou a destacar justamente essa possibilidade de trabalhar com outras histórias ambientadas no mesmo período e personagens que circulam entre produções.
Como estratégia de franquia, faz sentido.
Como narrativa, cria risco.
O espectador deixa de acompanhar uma história e começa a acompanhar uma cronologia.
A diferença parece pequena, mas muda a experiência.
Uma história precisa funcionar por aquilo que está dentro dela.
Uma cronologia recompensa quem sabe o que aconteceu antes, quem reconhece determinado personagem e quem pretende assistir ao que vem depois.
Star Wars começa a produzir conexões como recompensa.
The Mandalorian era mais interessante quando produzia consequências.
‘Andor’ mostra que expansão não precisa significar dependência

Andor ajuda a entender o problema justamente porque faz algo diferente dentro do mesmo universo.
A produção também utiliza a história política de Star Wars. Trabalha Império, rebelião, repressão, burocracia e resistência.
Mas não depende permanentemente da lembrança de personagens conhecidos para justificar sua existência.
The Mandalorian encontra força semelhante no começo.
Uma pequena cidade ameaçada pode importar.
Um ovo roubado pode sustentar um episódio.
Uma criança perseguida pode justificar uma temporada.
O tamanho do universo não precisa determinar o tamanho da história.
Quando a franquia entende isso, a galáxia parece maior porque existe vida fora dos acontecimentos que o público já conhece.
Quando todos conhecem alguém importante, encontram um personagem famoso ou preparam outra série, acontece o contrário.
Uma galáxia inteira começa a parecer uma cidade pequena.
A técnica também ajuda a explicar o impacto
The Mandalorian não se torna uma produção relevante apenas pela relação entre Din e Grogu.
A série acumula 48 indicações ao Emmy e 15 vitórias, segundo a Television Academy. Os reconhecimentos passam por áreas como efeitos visuais, fotografia, música e design de produção.
A música de Ludwig Göransson também cria uma identidade própria.
Em vez de tentar apenas reproduzir a linguagem sinfônica que John Williams associa aos filmes, The Mandalorian procura outro som para outro tipo de protagonista.
Visualmente, a produção combina efeitos digitais com elementos físicos, figurinos, próteses e bonecos.
Grogu é fundamental nesse processo.
A existência física do personagem dentro das cenas favorece a interação com atores e ambientes. Ele parece estar presente, e não simplesmente inserido posteriormente.
A técnica trabalha em favor da relação que sustenta a história.
Pedro Pascal cria personagem mesmo escondido
Há ainda uma dificuldade particular no trabalho de Din Djarin: o protagonista passa grande parte da série sem mostrar o rosto.
Pedro Pascal constrói o personagem principalmente pela voz, enquanto a interpretação física também conta com profissionais que vestem a armadura em diferentes cenas.
Mesmo assim, Din possui comportamento reconhecível.
Pequenos movimentos do capacete substituem expressões faciais. Silêncios produzem humor. Mudanças de entonação mostram irritação ou afeto.
A limitação deixa de ser obstáculo e vira linguagem.
Isso também explica por que as poucas cenas sem capacete ganham peso.
Ver o rosto do ator não seria novidade para o público.
Para Din, é ruptura.
The Mandalorian consegue transformar aquilo que normalmente seria uma restrição de atuação em instrumento dramático.
A série não fracassa na terceira temporada
É importante separar perda de foco de fracasso.
A terceira temporada preserva cenas de ação, amplia Mandalore, desenvolve Bo-Katan e conclui conflitos que atravessam a produção desde suas fases anteriores.
Também permanece com 85% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, índice que não indica rejeição generalizada.
A crítica está em outra camada.
The Mandalorian já havia encontrado uma identidade particularmente forte.
Quando amplia sua função dentro da franquia, deixa de trabalhar exclusivamente para aquela identidade.
O problema não é haver Mandalore.
Não é haver Ahsoka.
Não é Bo-Katan receber espaço.
É a sensação de que a série que começou apresentando um canto desconhecido de Star Wars passa a assumir a responsabilidade de organizar partes cada vez maiores da própria franquia.
No fim, tudo sempre volta para Din e Grogu

A própria continuação cinematográfica confirma o que sustenta a marca.
Depois de três temporadas, Lucasfilm leva justamente Din Djarin e Grogu ao cinema. O estúdio continua descrevendo a relação entre os dois a partir da ideia de aprendizagem, proteção e vínculo entre pai e filho. Jon Favreau também trata a paternidade como parte central da construção dessa história.
Não é coincidência.
Mandalore pode ampliar a mitologia.
O Sabre Negro pode organizar conflitos políticos.
A Nova República pode preparar aquilo que acontece nos filmes.
Mas o motivo pelo qual The Mandalorian se diferencia está em uma história muito menor.
Um homem treinado para não criar vínculos recebe a tarefa de entregar uma criança.
Decide não entregar.
Depois descobre que protegê-la exige rever suas crenças, seu grupo, suas prioridades e a própria ideia de quem ele é.
The Mandalorian funciona melhor quando entende que Star Wars não precisa salvar a galáxia todas as vezes.
Às vezes basta salvar uma pessoa.
E talvez tenha sido exatamente por fazer isso que a série conseguiu, durante suas melhores temporadas, ajudar a salvar a própria Star Wars.