Vida no paddock

Do Rio ao paddock: a brasileira que vive a rotina da MotoGP

Júlia Carvalho atua nos bastidores da Trackhouse e transforma o dia a dia da categoria em conexão com o público

Única brasileira em uma equipe da MotoGP, Júlia Carvalho construiu trajetória até o paddock e vive rotina intensa pelo mundo
Foto: Arquivo pessoal Júlia

No universo acelerado da MotoGP, onde tudo acontece em milésimos de segundo dentro das pistas, existe uma corrida silenciosa nos bastidores e é nela que uma brasileira tem chamado atenção. Aos 28 anos, Júlia Carvalho de Oliveira ocupa um espaço raro: é a única mulher brasileira dentro de uma equipe da principal categoria do motociclismo mundial. Atualmente, Júlia é criadora de conteúdo da Trackhouse MotoGP Team.

Formada em jornalismo pela PUC-Rio, com conclusão em 2020, em plena pandemia, a trajetória até o paddock esteve longe de ser linear. Antes de chegar à MotoGP, acumulou experiências em diferentes áreas, mas sempre com um objetivo claro: trabalhar com esporte e produção de conteúdo em vídeo.

“Fiz um monte de coisa, trabalhei em escola, trabalhei em navio de cruzeiro, até que eu falei, não, eu quero trabalhar com esporte. Voltei para o Brasil, trabalhei no Flamengo por um ano e pouco, e aí quando eu já estava para sair do Flamengo, eu já tinha me inscrito no mestrado, aí eu saí do Flamengo, fiquei quatro meses no Fantástico e fui fazer o mestrado em Londres”, contou Júlia.

A aproximação com o esporte, no entanto, não veio da forma mais óbvia. Apesar de crescer assistindo Fórmula 1 em casa, a paixão pelo automobilismo surgiu mais tarde e quase por acaso.

“Assim, eu cresci naquilo de assistir Fórmula 1, acordar domingo de manhã, estava assistindo Fórmula 1 na TV, meu pai assistindo e tal, mas nunca foi um esporte que a gente teve uma super paixão. A gente sempre foi muito, a gente assiste futebol, é muito mais próximo do futebol, mas eu também nunca liguei muito para esporte, eu gostava, assistia, é legal, torço para o Flamengo, mas nada muito próximo assim”.

Foi durante um intercâmbio, em 2019, que veio a virada de chave. “Em 2019, fui fazer um intercâmbio pela faculdade, fiz um semestre fora, e aí eu passei seis meses na Dinamarca. Isso fazendo, era meio que uma faculdade que tinha convênio com a PUC. Era um programa só de vídeo, e aí cada mês a gente tinha que fazer um vídeo diferente, e o último projeto era um curta-documentário, e eu e minhas amigas, no grupo, a gente fez um documentário sobre um piloto transgênero, e aí eu fui e passei o fim de semana no paddock, e aí nessa de passar o fim de semana no paddock eu me apaixonei”.

Hoje, dentro da Trackhouse, Júlia é responsável por transformar o que acontece fora das pistas em conexão com o público. “Eu e o Patrick, a gente cuida de toda a parte das redes sociais, a gente tem um fotógrafo também, mas toda a parte de vídeo, de postagem e tudo isso, é a gente quem faz”.

Mais do que produzir conteúdo, o trabalho carrega um propósito claro. “Eu acho que o criar conteúdo é muito legal porque é uma forma de aproximar muito o fã do esporte.”

Inserida em um ambiente altamente exclusivo, ela vive uma rotina intensa e global, típica da MotoGP.

“É muito doido, a gente fala que o paddock é como se fosse um circo maluco que viaja o mundo, que a gente literalmente bota tudo dentro de caixinhas, traz, e uma semana a gente estava na Tailândia, só tem duas semanas, e agora a gente já está aqui no Brasil, literalmente dá a volta ao mundo para estar aqui, mas assim, é muito legal”.

Se por um lado a profissão proporciona experiências únicas, por outro também cobra seu preço.

“Não é fácil trabalhar viajando, a temporada dura de fevereiro até novembro, então é o ano inteiro você ir em casa ou fora, e como eu moro fora também é estar longe o dobro, porque não estou em casa (junto com minha família), mas também não estou em casa (moro em Londres), estou longe de casa viajando”.

A distância da família é um dos principais desafios, embora o apoio siga sendo fundamental na trajetória. “Acho que a gente sempre está com saudade de alguma coisa, estou aqui no Brasil, mas também estou com saudade de Londres, e quando estou em Londres dá saudade do Brasil. Quando estou viajando com a equipe dá saudade, assim não é fácil, porque todo mundo fica ‘porque você está vivendo várias coisas’, mas se você for pensar, eu que estou sozinha, longe, minha família está toda junta, mas ao mesmo tempo, eu tenho muita sorte que eles me apoiam muito”.

Entre tantas experiências, um momento em especial marcou sua trajetória até aqui: a primeira vitória da equipe na categoria. “Quando a gente conquistou o primeiro pódio, que foi a primeira vitória, a equipe é muito nova, eles estão no MotoGP tem 3 anos, então, ano passado na Austrália foi o primeiro pódio da equipe, a primeira vitória e o primeiro pódio da MotoGP, tudo junto, foi incrível”.

A emoção daquele dia traduziu o sentimento de pertencimento. “Foi uma coisa que eu jamais imaginei viver no meu primeiro ano de MotoGP, meu Deus, eu estou aqui mesmo.”

Hoje, entre malas prontas, fusos horários e histórias que cruzam continentes, Júlia segue escrevendo a própria trajetória, uma que começa nos bastidores, mas ganha cada vez mais espaço em um dos cenários mais exigentes do esporte mundial.