Terça-feira, 13 de Outubro de 2026
CURIOSIDADE ESMERALDINA

Por que o mascote do Goiás é um Periquito? Entenda a origem do símbolo esmeraldino

Periquito acompanha o Goiás desde primeiros anos do clube, mas há diferentes versões sobre sua origem. A história ainda passa pelo cartunista Ziraldo e pela mudança de visual do mascote

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Periquito é o mascote do Goiás Esporte Clube e acompanha o time em jogos e ações com os torcedores (Foto: Divulgação/Goiás EC)

O Periquito virou mascote do Goiás por causa da cor verde e da ligação dos fundadores com o antigo Palestra Itália, atual Palmeiras. Essa é a versão mais documentada, mas não é a única.

Uma segunda história envolve um torcedor que gritava “periquito” quando o time entrava em campo. A terceira aponta para uma bandeira com a ave, levantada durante a conquista do Campeonato Goiano de 1966.

Não existe uma ata da época que registre o momento exato da escolha. As pesquisas disponíveis, porém, mostram como a ave passa de referência dos fundadores a símbolo oficial do clube.

Antes de ganhar músculos, cara fechada e uma estátua na entrada da Serrinha, o Periquito ainda passa pelas mãos de Ziraldo, criador de “O Menino Maluquinho”.

História do Goiás começa debaixo de um poste

Registro histórico de equipe do Goiás Esporte Clube em uma de suas antigas formações esportivas, preservando a memória das primeiras décadas da agremiação esmeraldina (Reprodução/Acervo histórico do Goiás EC)
Registro histórico de equipe do Goiás Esporte Clube em uma de suas antigas formações esportivas, preservando a memória das primeiras décadas da agremiação esmeraldina (Reprodução/Acervo histórico do Goiás EC)

O Goiás Esporte Clube nasce em 6 de abril de 1943. Um grupo de amigos se reúne na casa dos irmãos Lino e Carlos Barsi, na Rua 23, no Centro de Goiânia, para discutir a criação de um time.

A conversa fica barulhenta e incomoda a mãe dos irmãos. Ela pede que o grupo continue a reunião do lado de fora.

Os jovens seguem para a calçada e terminam a conversa debaixo da luz de um poste. A cena entra para a história oficial do clube.

Um estudo dos pesquisadores João Marcos Gonçalves, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Alexsander Batista e Silva, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), aponta que os fundadores eram descendentes de italianos e torcedores do antigo Palestra Itália.

O clube paulista já usava o verde, o branco e o Periquito. Os fundadores trazem essas referências para o novo time de Goiânia.

A escolha da ave também combina com a realidade local. Os periquitos eram conhecidos no Centro-Oeste e faziam parte da paisagem da região.

Primeiras camisas vieram de Minas Gerais

A inspiração para as cores estava em São Paulo, mas as primeiras camisas usadas pelo Goiás vieram de Minas Gerais.

Sem dinheiro para comprar uniformes, o clube recebeu nove camisas listradas em verde e branco do América-MG. Como ainda faltavam duas peças para completar o time, dois jogadores vestiram camisas inteiramente brancas.

O uniforme foi usado na primeira partida da história do Goiás, contra o Atlético-GO, no antigo Estádio Olímpico.

O primeiro escudo também foi feito de forma caseira. A esposa de Lino Barsi bordou o símbolo à mão.

A história ajuda a desfazer uma confusão. A escolha das cores e do mascote recebe influência do Palestra Itália, enquanto o América-MG fornece as camisas usadas pelo time em sua estreia.

Um grito criou o Periquito do Goiás?

Outra versão sobre o mascote nasce nas arquibancadas. Um torcedor chamado Raimundo Baiano gritava “periquito” sempre que o Goiás entrava em campo.

A repetição do grito teria ajudado a espalhar o apelido entre os torcedores. Com o tempo, a ave passa a representar o clube.

A história aparece em pesquisas sobre os símbolos do Goiás, mas não informa quando Raimundo Baiano começa a usar o nome.

Por isso, o grito pode ter ajudado a popularizar um símbolo que já fazia parte da identidade do time, e não necessariamente criado o mascote.

Bandeira de 1966 também aparece na história

Bandeira oficial do Goiás Esporte Clube destaca o escudo e as cores verde e branca que identificam o time desde sua fundação, em 1943 (Reprodução/Goiás EC)
Bandeira oficial do Goiás Esporte Clube destaca o escudo e as cores verde e branca que identificam o time desde sua fundação, em 1943 (Reprodução/Goiás EC)

Uma terceira versão leva a origem do Periquito ao primeiro título goiano do clube.

Em 1966, o Goiás vence o Vila Nova por 4 a 2 e conquista o Campeonato Goiano. Durante a comemoração, uma bandeira com a imagem de um periquito aparece entre os torcedores.

A vitória marca uma mudança na história do time. Até então, os rivais faziam piada com a pequena torcida do Goiás e chamavam a equipe de “Clube dos 33”.

A bandeira liga o crescimento do clube à imagem da ave. Mesmo que o Periquito já circulasse entre os esmeraldinos, o título ajuda o símbolo a ganhar espaço.

A conclusão mais segura é que a ideia surge com os fundadores, se espalha pelas arquibancadas e se firma com o crescimento do Goiás.

Ziraldo deu um rosto ao Periquito

Ziraldo chegou a apresentar Porquinho e Periquito em uma enquete da revista Placar sobre o mascote do Palmeiras; no Goiás, porém, o Periquito já estava consolidado como símbolo do clube e seria redesenhado pelo cartunista em 1987 (Reprodução/Placar)
Ziraldo chegou a apresentar Porquinho e Periquito em uma enquete da revista Placar sobre o mascote do Palmeiras; no Goiás, porém, o Periquito já estava consolidado como símbolo do clube e seria redesenhado pelo cartunista em 1987 (Reprodução/Placar)

Ziraldo não escolhe o Periquito como mascote do Goiás. Quando o cartunista entra nessa história, a ave já está ligada ao clube há décadas. O que ele faz, em 1987, é transformar um símbolo conhecido pelos torcedores em personagem com identidade visual definida.

Naquele ano, o futebol brasileiro vive a Copa União, competição organizada pelo Clube dos 13. A preocupação não era apenas esportiva. Os dirigentes também buscavam modernizar a comunicação dos clubes e transformar mascotes em elementos de marketing.

Ziraldo é chamado justamente para esse trabalho. A proposta era recriar — e, em alguns casos, criar — personagens que pudessem ser usados em produtos, materiais promocionais e ações voltadas principalmente ao público jovem. Em reportagem publicada pela Placar no ano seguinte, o cartunista explicava que queria tornar os mascotes mais modernos e próximos das crianças. 

Periquito, mascote do Goiás Esporte Clube, entra em campo com a bandeira alviverde durante partida do time (Divulgação/Goiás EC)
Periquito, mascote do Goiás Esporte Clube, entra em campo com a bandeira alviverde durante partida do time (Divulgação/Goiás EC)

O projeto envolvia diferentes clubes brasileiros e mostra como os símbolos ainda estavam em processo de consolidação. No Palmeiras, por exemplo, Ziraldo chegou a demonstrar dúvida entre o Porco e o Periquito e sugeriu que a própria torcida fosse consultada.

No Goiás, porém, não havia discussão sobre qual animal representaria o clube. O Periquito já estava incorporado à identidade esmeraldina.

Ziraldo então desenha uma ave sorridente, de aparência leve, usando o uniforme verde e branco. O personagem não tem a expressão agressiva comum aos mascotes esportivos atuais. A ideia era transmitir simpatia e criar identificação, principalmente com crianças.

Pesquisa acadêmica da PUC Goiás aponta o desenho de Ziraldo como o primeiro mascote oficial do clube e registra que essa representação permaneceu como referência até o fim de 2017. 

A importância daquele desenho aparece também na memória institucional do próprio Goiás. Quando Ziraldo morreu, em abril de 2024, aos 91 anos, o clube publicou nota oficial lembrando especificamente o retrato do Periquito entre as obras marcantes do cartunista. 

A partir dessa representação, o mascote deixa de ser apenas um apelido, uma ave associada às cores do clube ou uma figura reproduzida em bandeiras. Ele passa a ter rosto, uniforme e personalidade reconhecíveis.

Nas décadas seguintes, essa imagem acompanha o Goiás em materiais promocionais, produtos, ações para crianças e aparições nos estádios. O Periquito também ganha uma versão física, com fantasia utilizada em partidas e eventos.

A ligação torna-se tão forte que, quando o clube começa a preparar uma reformulação visual do mascote, em 2017, precisa divulgar uma nota para esclarecer que não pretendia abandonar o Periquito. A mudança seria apenas na aparência do personagem.

O desenho muda depois. O símbolo, não.

É essa passagem de Ziraldo que ajuda a transformar o Periquito de uma referência histórica da torcida em um personagem visualmente reconhecido por diferentes gerações de esmeraldinos.

Como o Periquito ficou “pistola”?


Periquito, mascote do Goiás Esporte Clube, posa no centro de treinamento alviverde com o uniforme esmeraldino em registro recente do clube (Divulgação/Goiás EC)

Periquito, mascote do Goiás Esporte Clube, posa no centro de treinamento alviverde com o uniforme esmeraldino em registro recente do clube (Divulgação/Goiás EC)

No fim de 2017, o Goiás anuncia a aposentadoria da antiga fantasia. Parte da torcida imagina que o clube pretende trocar de mascote, mas a mudança atinge apenas a aparência do personagem.

A nova versão estreia em 8 de abril de 2018, antes da final do Campeonato Goiano contra a Aparecidense, no Estádio Serra Dourada.

O Periquito ganha corpo maior, braços musculosos e expressão séria. O visual acompanha a moda dos mascotes “pistola”, que também aparece em outros clubes e na Seleção Brasileira.

O personagem passa a ser chamado de Periquito Pistola. Em outubro do mesmo ano, ele ganha a companhia do Periquito Sub-15, criado com expressão mais alegre para as ações com o público infantil.

Em 2022, uma estátua do mascote é instalada em frente ao Estádio Hailé Pinheiro, a Serrinha.

Por que o Goiás é chamado de Esmeraldino?

O Periquito não é o único símbolo verde do Goiás. O estatuto do clube também reconhece a pedra esmeralda.

É dela que vem o apelido “Esmeraldino”, usado para identificar o time e seus torcedores.

A pedra representa a cor do clube. O Periquito transforma essa identidade em um personagem que aparece nas arquibancadas, nos jogos e nas ações com a torcida.

A ave recebe influência de fora, ganha força nas arquibancadas goianas, passa pelo traço de Ziraldo e muda de aparência. O resultado é um mascote que acompanha o Goiás desde os primeiros anos de sua história.

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