Por que o mascote do Goiás é um Periquito? Entenda a origem do símbolo esmeraldino
Periquito acompanha o Goiás desde primeiros anos do clube, mas há diferentes versões sobre sua origem. A história ainda passa pelo cartunista Ziraldo e pela mudança de visual do mascote
Ir direto pra matéria
O Periquito virou mascote do Goiás por causa da cor verde e da ligação dos fundadores com o antigo Palestra Itália, atual Palmeiras. Essa é a versão mais documentada, mas não é a única.
Uma segunda história envolve um torcedor que gritava “periquito” quando o time entrava em campo. A terceira aponta para uma bandeira com a ave, levantada durante a conquista do Campeonato Goiano de 1966.
Não existe uma ata da época que registre o momento exato da escolha. As pesquisas disponíveis, porém, mostram como a ave passa de referência dos fundadores a símbolo oficial do clube.
Antes de ganhar músculos, cara fechada e uma estátua na entrada da Serrinha, o Periquito ainda passa pelas mãos de Ziraldo, criador de “O Menino Maluquinho”.
História do Goiás começa debaixo de um poste

O Goiás Esporte Clube nasce em 6 de abril de 1943. Um grupo de amigos se reúne na casa dos irmãos Lino e Carlos Barsi, na Rua 23, no Centro de Goiânia, para discutir a criação de um time.
A conversa fica barulhenta e incomoda a mãe dos irmãos. Ela pede que o grupo continue a reunião do lado de fora.
Os jovens seguem para a calçada e terminam a conversa debaixo da luz de um poste. A cena entra para a história oficial do clube.
Um estudo dos pesquisadores João Marcos Gonçalves, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Alexsander Batista e Silva, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), aponta que os fundadores eram descendentes de italianos e torcedores do antigo Palestra Itália.
O clube paulista já usava o verde, o branco e o Periquito. Os fundadores trazem essas referências para o novo time de Goiânia.
A escolha da ave também combina com a realidade local. Os periquitos eram conhecidos no Centro-Oeste e faziam parte da paisagem da região.
Primeiras camisas vieram de Minas Gerais
A inspiração para as cores estava em São Paulo, mas as primeiras camisas usadas pelo Goiás vieram de Minas Gerais.
Sem dinheiro para comprar uniformes, o clube recebeu nove camisas listradas em verde e branco do América-MG. Como ainda faltavam duas peças para completar o time, dois jogadores vestiram camisas inteiramente brancas.
O uniforme foi usado na primeira partida da história do Goiás, contra o Atlético-GO, no antigo Estádio Olímpico.
O primeiro escudo também foi feito de forma caseira. A esposa de Lino Barsi bordou o símbolo à mão.
A história ajuda a desfazer uma confusão. A escolha das cores e do mascote recebe influência do Palestra Itália, enquanto o América-MG fornece as camisas usadas pelo time em sua estreia.
Um grito criou o Periquito do Goiás?
Outra versão sobre o mascote nasce nas arquibancadas. Um torcedor chamado Raimundo Baiano gritava “periquito” sempre que o Goiás entrava em campo.
A repetição do grito teria ajudado a espalhar o apelido entre os torcedores. Com o tempo, a ave passa a representar o clube.
A história aparece em pesquisas sobre os símbolos do Goiás, mas não informa quando Raimundo Baiano começa a usar o nome.
Por isso, o grito pode ter ajudado a popularizar um símbolo que já fazia parte da identidade do time, e não necessariamente criado o mascote.
Bandeira de 1966 também aparece na história

Uma terceira versão leva a origem do Periquito ao primeiro título goiano do clube.
Em 1966, o Goiás vence o Vila Nova por 4 a 2 e conquista o Campeonato Goiano. Durante a comemoração, uma bandeira com a imagem de um periquito aparece entre os torcedores.
A vitória marca uma mudança na história do time. Até então, os rivais faziam piada com a pequena torcida do Goiás e chamavam a equipe de “Clube dos 33”.
A bandeira liga o crescimento do clube à imagem da ave. Mesmo que o Periquito já circulasse entre os esmeraldinos, o título ajuda o símbolo a ganhar espaço.
A conclusão mais segura é que a ideia surge com os fundadores, se espalha pelas arquibancadas e se firma com o crescimento do Goiás.
Ziraldo deu um rosto ao Periquito

Ziraldo não escolhe o Periquito como mascote do Goiás. Quando o cartunista entra nessa história, a ave já está ligada ao clube há décadas. O que ele faz, em 1987, é transformar um símbolo conhecido pelos torcedores em personagem com identidade visual definida.
Naquele ano, o futebol brasileiro vive a Copa União, competição organizada pelo Clube dos 13. A preocupação não era apenas esportiva. Os dirigentes também buscavam modernizar a comunicação dos clubes e transformar mascotes em elementos de marketing.
Ziraldo é chamado justamente para esse trabalho. A proposta era recriar — e, em alguns casos, criar — personagens que pudessem ser usados em produtos, materiais promocionais e ações voltadas principalmente ao público jovem. Em reportagem publicada pela Placar no ano seguinte, o cartunista explicava que queria tornar os mascotes mais modernos e próximos das crianças.

O projeto envolvia diferentes clubes brasileiros e mostra como os símbolos ainda estavam em processo de consolidação. No Palmeiras, por exemplo, Ziraldo chegou a demonstrar dúvida entre o Porco e o Periquito e sugeriu que a própria torcida fosse consultada.
No Goiás, porém, não havia discussão sobre qual animal representaria o clube. O Periquito já estava incorporado à identidade esmeraldina.
Ziraldo então desenha uma ave sorridente, de aparência leve, usando o uniforme verde e branco. O personagem não tem a expressão agressiva comum aos mascotes esportivos atuais. A ideia era transmitir simpatia e criar identificação, principalmente com crianças.
Pesquisa acadêmica da PUC Goiás aponta o desenho de Ziraldo como o primeiro mascote oficial do clube e registra que essa representação permaneceu como referência até o fim de 2017.
A importância daquele desenho aparece também na memória institucional do próprio Goiás. Quando Ziraldo morreu, em abril de 2024, aos 91 anos, o clube publicou nota oficial lembrando especificamente o retrato do Periquito entre as obras marcantes do cartunista.
A partir dessa representação, o mascote deixa de ser apenas um apelido, uma ave associada às cores do clube ou uma figura reproduzida em bandeiras. Ele passa a ter rosto, uniforme e personalidade reconhecíveis.
Nas décadas seguintes, essa imagem acompanha o Goiás em materiais promocionais, produtos, ações para crianças e aparições nos estádios. O Periquito também ganha uma versão física, com fantasia utilizada em partidas e eventos.
A ligação torna-se tão forte que, quando o clube começa a preparar uma reformulação visual do mascote, em 2017, precisa divulgar uma nota para esclarecer que não pretendia abandonar o Periquito. A mudança seria apenas na aparência do personagem.
O desenho muda depois. O símbolo, não.
É essa passagem de Ziraldo que ajuda a transformar o Periquito de uma referência histórica da torcida em um personagem visualmente reconhecido por diferentes gerações de esmeraldinos.
Como o Periquito ficou “pistola”?

Periquito, mascote do Goiás Esporte Clube, posa no centro de treinamento alviverde com o uniforme esmeraldino em registro recente do clube (Divulgação/Goiás EC)
No fim de 2017, o Goiás anuncia a aposentadoria da antiga fantasia. Parte da torcida imagina que o clube pretende trocar de mascote, mas a mudança atinge apenas a aparência do personagem.
A nova versão estreia em 8 de abril de 2018, antes da final do Campeonato Goiano contra a Aparecidense, no Estádio Serra Dourada.
O Periquito ganha corpo maior, braços musculosos e expressão séria. O visual acompanha a moda dos mascotes “pistola”, que também aparece em outros clubes e na Seleção Brasileira.
O personagem passa a ser chamado de Periquito Pistola. Em outubro do mesmo ano, ele ganha a companhia do Periquito Sub-15, criado com expressão mais alegre para as ações com o público infantil.
Em 2022, uma estátua do mascote é instalada em frente ao Estádio Hailé Pinheiro, a Serrinha.
Por que o Goiás é chamado de Esmeraldino?
O Periquito não é o único símbolo verde do Goiás. O estatuto do clube também reconhece a pedra esmeralda.
É dela que vem o apelido “Esmeraldino”, usado para identificar o time e seus torcedores.
A pedra representa a cor do clube. O Periquito transforma essa identidade em um personagem que aparece nas arquibancadas, nos jogos e nas ações com a torcida.
A ave recebe influência de fora, ganha força nas arquibancadas goianas, passa pelo traço de Ziraldo e muda de aparência. O resultado é um mascote que acompanha o Goiás desde os primeiros anos de sua história.